Finalmente o sábado chegou, e eu tinha conseguido ir ao hospital durante toda a semana.
O que parecia pouco, mas não era. Você não pode estar no automático trabalhando em hospital — vidas dependem de atenção, mesmo nos detalhes mais mínimos, mesmo quando você não está fazendo nada de alta gravidade. E isso era bom. Era bom ter alguma coisa concreta para a cabeça focar, porque quando ela não tinha... quando ela não tinha, passava muito perto de me render à depressão. E eu já tinha estado perto demais desse lugar para querer voltar.
— Só uma tarde de garotas na piscina — Genevieve insistia pelo telefone. — Você, eu e a Geórgia.
— Eu não sei, Gen. Não estou muito no clima e...
— Eu sei que não está. É por isso que eu preciso te tirar dessa mansão. Você fica o tempo todo presa aí ou naquele hospital. Você e a Geo vão vir aqui em casa amanhã, sem discussões. Já vou mandar preparar uma tarde bem gostosa.
Ri para o telefone, porque não queria nem imaginar o que Gen poderia querer dizer com "mandar preparar", mas com certeza ia envolver muito mais do que uma simples tarde na piscina. Provavelmente envolvia comida cara, drinks elaborados e algum tipo de instalação de spa improvisada.
— Tudo bem — acabei concordando. — Combinado.
Só que quando desligou o telefone, ainda não tinha absolutamente nada para fazer até o dia seguinte.
Comecei a andar pela mansão sem destino muito definido, deixando os passos me levarem para onde quisessem. E, por algum motivo que eu não soube explicar direito, minhas pernas me levaram até o escritório do Augusto.
A porta estava fechada. Fechada da mesma forma que ele tinha deixado pela última vez. Ninguém tinha entrado depois de tudo — nem para organizar, nem para limpar, nem para nada. Como se abrir aquela porta fosse tornar real algo que a gente ainda estava tentando não tornar real.
Abri mesmo assim.
Entrei devagar.
O cheiro do escritório ainda era o dele — aquela mistura específica de madeira, papel velho e aquele perfume discreto que eu tinha aprendido a associar a ele sem nunca ter conseguido nomear. Cheiro de presença. Cheiro de alguém que ainda parecia estar ali.
Tudo estava exatamente onde ele tinha deixado. Os papéis na mesa, os livros nas prateleiras, o copo de uísque ainda sobre o porta-copos de couro.
— Alguém precisa cuidar disso — murmurei para o silêncio. — De todas as coisas dele.
Eu era a neta. Eu precisava decidir. Os papéis que podiam ir para o lixo, as roupas para doação, os itens que seriam vendidos ou guardados. O problema era que parte de mim — uma parte que eu não conseguia reduzir a uma lógica prática — queria manter tudo exatamente como estava. Como uma memória que você sabe que vai desvanecer e tenta segurar em qualquer superfície disponível.
Então me lembrei de que era sábado.
Fui até a coleção de discos dele. Encontrei o que procurava sem dificuldade — eu já sabia de cor onde ficava. Coloquei para tocar e o Chet Baker preencheu a sala com aquela melancolia bonita que parecia feita para lugares com boa madeira e luz de fim de tarde.
Servi-me de um copo de uísque, precisava admitir que estava bebendo mais do que deveria ultimamente. Não muito, mas mais. Suficiente para notar que o estômago protestava pela manhã. A dor precisava ir para algum lugar, e por enquanto estava indo para ali.
E comecei a dançar.
Sozinha, no escritório do meu avô, ao som da música dos meus avós, num sábado como aquele que eles tinham passado juntos por décadas. Era a coisa mais estranha e mais certa que eu poderia estar fazendo naquele momento.



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