Aquele dia completamente intenso já estava chegando ao fim, e em breve, eu iniciaria mais uma outra semana de trabalho. A ideia de um final de semana relaxante e sem estresse já havia caído por terra há um bom tempo.
É por isso que assim que o sol começa a desaparecer no céu pintado de rosa e laranja, eu apenas decido que iria continuar no meu anexo, juntando as tantas peças de um quebra-cabeça sem fim que minha vida se tornou desde o dia em que apareci por ali.
No entanto, as novidades daquele dia, todavia não havia terminado.
—Encontrei você aqui!— a voz masculina me parou antes mesmo que eu pudesse atravessar o jardim.
—Ax, o que você está fazendo aqui?— pergunto confusa e olhando para todos os lados.
—Eu só precisava ver você. Saber se tudo ficou bem.— Ele sorriu, enquanto enfiava as mãos no bolso da calça.
—Ah, ficou tudo bem, sim. Obrigada.— Eu respondo de modo direto, porque por alguma razão, eu me sentia um pouco invadida pela sua presença ali.
—Que bom, Ayla. Eu realmente fico feliz.— Ele diz, e os seus olhos azuis parecem brilhar com sua honestidade. —Mas gostaria de ainda te oferecer aquele emprego. Eu tenho uma empresa em ascensão no centro da cidade, e tenho certeza que precisaria de uma profissional na área em que você é formada.
Ouço aquela proposta e de algum modo, meu coração acelera pensando na possibilidade. Trabalhar com aquilo que eu amo, com o qual estudei por tantos anos e ver tanto esforço ser reconhecido era o sonho da minha vida.
E eu quase cedo aquele pedido, mas acontece que tudo naquele dia acabou me mudando. Eu sentia que existia uma força me prendendo aquela mansão, e eu só tinha a certeza que queria está ali, por Emma, porque enxergava nela a mesma garota perdida e solitária que eu havia sido a vida inteira.
—Ax, eu realmente sou grata pela proposta. Mas irei recusar. Já tenho esse trabalho e estou muito satisfeita aqui.
—De babá?— ele pergunta, um tanto confuso. —Mas eu achei que só estava aqui, porque não tinha opção.
—Minhas prioridades mudaram.— Sorrio.
Ax parece extremamente decepcionado com minha resposta, mas parece compreender o meu desejo e apenas concorda.
—Juan está em casa?— ele pergunta em seguida e eu apenas confirmo. —Tudo bem, estarei indo falar com ele.
Me despeço de Ax e sigo até o meu anexo e me pergunto o que havia feito. Se realmente valeria a pena deixar de lado o meu crescimento profissional por uma família misteriosa e da qual eu não sabia de nada.
Me perguntei se Juan reconheceria isso. E no mesmo momento, me repreendo por achar que a opinião dele sobre algo em minha vida seria válido.
Algumas horas se passaram e eu estava organizando meus pertences em meu quarto, quando recebo uma notificação de Emma. Abandono tudo que estava fazendo e sigo até a mansão.
—Oi, querida. O que aconteceu?— eu digo assim que chego em seu quarto, mas ela está tranquilamente sentada em sua cama, com seus brinquedos.
—Nada, eu só queria que você me colocasse pra dormir.
Sorrio e me encaixo ao seu lado na cama.
—E onde está o seu pai?— pergunto, quando começo a acariciar seus cabelos.
—Está com meu primo Ax, na sala de jogos.— Explica.
Leio algumas pequenas histórias pra Emma, o que é mais que o suficiente para que ela durma em questões de minutos. Posiciono Dorothea em meu lugar enquanto saio da cama.
Eu estava saindo da mansão, quando ao passar pelo corredor do terceiro andar, ouço um burburinho e vozes alteradas e masculinas.
—Ax, você é um imbecil.— É a voz de Juan e ele parece realmente um pouco alto. —Como você deixa uma garota passar assim? Sabe o quanto é raro encontrar qualquer tipo de conexão nesse século? Eu estou fadado a nunca mais encontrar.
Ouço a amargura em sua voz e fazendo o total oposto do que deveria, me aproximo da parede daquele quarto e tento ouvir aquela conversa.
—É justamente por ser raro que eu sabia que não era ela.— Ouço a voz de Ax também alterada. —Mas eu acho que conheci agora.
Ouço uma espécie de barulho de copos sendo tocados, numa espécie de brinde, seguido da voz de Juan:
—E qual vai ser o defeito dela dessa vez?— ele pergunta, divertido.
—Ela é incrível. Doce, divertida, tão solitária no mundo quanto eu. E eu só preciso de uma única oportunidade pra fazê-la enxergar que o lugar dela é comigo.
—E qual o defeito? Ainda estou esperando.— Juan insiste, e eu nunca havia o ouvido tão divertido e descontraído. Vantagens do álcool.
—O defeito é que ela trabalha pra você.— Ax responde simplesmente.
—E o que ela faz na empresa?— Juan pergunta, ainda empolgado.
—Ela não trabalha na empresa. Ela trabalha aqui.— A voz de Ax surge como um trovão, seguido de um silêncio absurdo.
Do outro lado da sala, há o absoluto silêncio. E em mim, bem profundamente, tudo está revolto. Ele não poderia está se referindo a mim, poderia? Porque tudo aquilo apenas não fazia sentido. Mas o que estava me matando por dentro, era saber o que Juan pensaria de tudo aquilo.
—Ayla?— é tudo que ele fala, a diversão em sua voz sumindo.
—Ela é inacreditável, não é?

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