O dia seguinte amanheceu com um silêncio pesado na casa de Ryan. A noite tinha sido quase insones para Ayla e Juan, que se revezaram vigiando o sono de Emma como se esperassem que Alison surgisse do nada para levá-la.
O café da manhã foi curto, tenso. Emma se recusava a comer muito. Juan segurava a xícara de café como se fosse uma âncora. Ayla passava manteiga no pão para ela com um cuidado mecânico.
— Nós vamos sair um pouquinho hoje, tá bom? — disse Ayla, tentando soar leve.
Emma ergueu os olhos, sérios.
— Pra onde?
Juan pigarreou.
— Você vai conversar com uma pessoa muito legal. Ela ajuda crianças a falarem sobre coisas que deixam elas tristes ou com medo.
Emma franziu o nariz.
— Eu não tô triste.
Juan trocou um olhar com Ayla.
— A gente só quer te ouvir melhor, florzinha.
Emma suspirou, mexendo no suco.
— Tudo bem.
Na clínica, o ambiente era claro, com brinquedos coloridos no chão, paredes pintadas com desenhos de bichos. Ainda assim, parecia frio para Juan. Ele odiava estar ali. Era como uma confissão de derrota.
A psicóloga, uma mulher de meia-idade com voz calma, convidou Emma para brincar com massinha de modelar enquanto conversavam. Juan e Ayla ficaram sentados atrás, tensos.
— Emma, você quer me contar o que anda pensando ultimamente? — a mulher perguntou.
Emma remexeu a massinha entre os dedos.
— Eu falo com a minha mãe.
A psicóloga não demonstrou susto, apenas anotou.
— A sua mãe?
— A mamãe Alison. — Emma olhou para ela como se fosse óbvio.
Juan engoliu em seco. Ayla fechou os olhos um instante.
— E o que vocês conversam? — continuou a psicóloga.
Emma fez um rolinho com a massinha.
— Ela diz pra eu tomar cuidado. Que tem gente má.
— Quem seria essa gente má?
Emma deu de ombros.
— Não sei. Papai fica bravo quando eu falo.
Juan apertou o braço do sofá com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
A psicóloga olhou para eles, cautelosa.
— E ela diz mais alguma coisa?
Emma mordeu o lábio.

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