Aquela proposta fica ressoando em meu ouvido, em ecos por aquele quarto inteiro. Porque nada daquilo fazia o menor sentido!
—Por que precisaria da minha ajuda pra encontrar alguém? E por que diabos você acha que a Emma precisa disso?
Juan apenas bufou, levou as mãos pra cima, como se minhas perguntas só fossem tediosas o suficiente.
—Se você quer conhecer outra pessoa, está fazendo isso pela maneira e pelas razões erradas.— Eu insisto, tentando colocar qualquer juízo em sua cabeça.
Mas eu já o conhecia bem o bastante para saber da sua teimosia e saber que nada daquilo adiantaria.
—Não quero que entenda minhas razões, Ayla. Não estou pedindo sequer pra concordar com elas. Porque você jamais compreenderia.— Ele diz por fim, e parece decepcionado quando desce mais uma dose de uísque em seus lábios.
—Então tenta. Estou de mente aberta pra entender e ajudar você.— Eu insisto.
—Ajudar!— Juan repete, coberto de ironia.
—Qual a graça?— perguntei, já sentindo a irritabilidade me agarrar.
—A graça é que eu preciso de você e eu odeio precisar ou pedir ajuda de qualquer pessoa. E eu pedi a sua, mas você só está buscando se existe razões ou não para me ajudar. Então deixe-me facilitar pra você, não preciso mais de você pra isso. Pode sair.
Por mais que eu sentisse um ódio incontrolável pelo modo que ele havia falado comigo, e sabia que deveria mesmo ir embora e não atravessar mais nenhuma barreira profissional entre nós, eu fiquei. Eu sempre ficava, como se ele fosse puro atrito, me chamando e me prendendo.
—Sei que você é um cara legal, Juan, mas age de modo contrário a tudo isso.— Eu digo, na maior sinceridade possível.
—Deixa eu adivinhar, porque ninguém me conhece melhor do que você.— Ele diz coberto de sarcasmo e eu juro por Deus, senti vontade de jogar qualquer coisa que estivesse em minha frente, em direção a ele.
—Você poderia tentar ser menos babaca, às vezes. Talvez assim, conseguisse viver melhor consigo mesmo.— Respondo friamente, porque aquilo realmente me machucou profundamente.
Comecei a dar a volta pra ir embora, porque estava extremamente cansada daquele dia. No entanto, antes de cruzar aquela sala, ouço a voz de Juan baixa ao murmurar:
—É difícil viver comigo mesmo e com tudo que eu tenho que enfrentar. Tudo que sei sobre mim é que eu não consigo dormir, ou sei dos meus pesadelos. Ou quando estou bêbado.
Vi que ele estava realmente sendo genuíno em suas palavras e a empatia que eu sentia por ele, pela sua dor, que até então era desconhecida para mim, me fez ficar.
—Eu pago o quanto quiser.— Ele insiste naquela proposta.
—Você não sabe que dinheiro não é tudo na vida?— eu rebato no mesmo instante e algo em minhas palavras fizeram com que algo em seu olhar mudasse.
Juan caminha em minha direção, e eu quase consigo ouvir as batidas frenéticas do seu coração ao competir com o meu.
—Por favor, o meu mundo está caindo aos pedaços e não parece existir luz para me arrancar dessa escuridão. Mas quando eu olho para você... Tenho um resquício de esperança.— Ele explica, sua voz coberta de emoção.
—E por que eu, Juan?— pergunto com honestidade, porque eu realmente não conseguia compreender.
—Por que você é diferente. Você é a única pessoa que eu conheço que posso afirmar que tem caráter. E o seu julgamento vai ser imprescindível pra isso. Você estava certa sobre a Bianca. Agora quero que apenas me ajude a escolher a certa.
Eu engulo em seco. Encarei os seus olhos, me perguntando se aquilo era o certo. Porque pra mim, tudo parecia uma armadilha. Mas a verdade é que eu já estava em uma desde o momento em pisei naquele lugar.
—O que especificamente você procura?— eu me ouvi perguntando, incrédula de que estava cogitando aceitar aquela situação.
—Preciso de alguém que seja boa, que tenha valores, que seja bondosa e ensine paciência, caridade e amor para Emma. Tudo que não posso fazer por ela, porque sou vazio de tudo isso. Não busco beleza, e muito menos status, só quero que seja uma pessoa boa para minha filha.
—E para você?— pergunto.
—Isso não é relevante.
Eu me sentia presa entre um sonho e uma cena de filme, porque nada na minha vida parecia mais real naquele ponto.
—Você já conhece as necessidades da Emma, quem sabe, melhor que eu. Preciso de alguém com seu senso crítico.
Certamente sabendo que me arrependeria daquilo, eu levantei minha mão até a de Juan, selando aquele acordo. Ele soltou um longo suspiro, coberto de alívio e gratidão. Enquanto eu, eu só orava pra não me arrepender tão rápido quanto comecei.
—E você? O que precisa de mim, o que quer que eu faça por você?— ele quis saber logo em seguida, parecia empolgado.
Eu lentamente soltei a respiração e olhei para intensidade de seus olhos negros, e com toda a certeza que existia em mim, tudo que falei foi:
—Eu preciso dormir.
E simples assim, finalmente me despedi de Juan e me tranquei em meu anexo, exausta pela confusão de todo aquele dia.
—Desde quando minha vida virou uma novela?— pergunto em voz alta, antes do sono finalmente me chamar.
***

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