Capítulo 145
O dia amanheceu com o peso de uma decisão não tomada.
Juan estava na cozinha, o café fumegando na caneca, mas ele não bebia. Só observava o líquido escuro, como se nele pudesse encontrar respostas.
Ayla entrou com os cabelos presos num coque malfeito. O rosto denunciava a noite insone.
— Você não dormiu — ela constatou, sem acusação, só um cansaço solidário.
— Nem você.
Ela balançou a cabeça, puxou uma cadeira e sentou-se de frente para ele.
— Juan... — começou, a voz baixa. — Precisamos decidir.
Ele não respondeu. O tique nervoso no maxilar dele fazia o músculo pulsar.
Ayla suspirou.
— Eu estou com medo. De verdade. E não só por mim. Por você. Pela Emma.
Juan apertou a caneca. Finalmente ergueu os olhos, pesados, vermelhos.
— Eu não vou fugir.
Ela fechou os olhos, com raiva, frustração e alívio misturados.
— Então vamos lutar. Mas pra lutar, a gente precisa entender com quem estamos lidando.
Ele pareceu atento.
— O que você quer dizer?
— Quero dizer que essa história está cheia de buracos. Nada faz sentido. Sunny sendo a Alison, agora ela está completamente sumida, Diana, Ax, suas suspeitas de Ryan... todos parecem saber mais do que falam.
Juan engoliu em seco ao ouvir o nome do irmão.
— Ryan não tem nada a ver com isso — retrucou rápido, ríspido.
Ayla ergueu as sobrancelhas.
— Não? Você confia nele agora? Depois de tudo que foi dito?
Ele desviou o olhar.
— Ele está doente. Não quero brigar com ele.
— Não estou pedindo pra brigar. Estou pedindo pra questionar. — Ela apoiou os cotovelos na mesa, encarando-o. — Por favor. Se a gente ficar parado, vai ser como convidar a Alison pra entrar de novo.
Juan respirou fundo.
— O que você sugere?
— Interrogar quem precisa ser interrogado. Sem meias palavras.
O silêncio se estendeu. Finalmente, ele assentiu.
— Começamos com Ax.
Mais tarde, na varanda dos fundos, Ax estava encostado no parapeito, fumando um cigarro barato. O cheiro doce e amargo se espalhava.
Juan e Ayla se aproximaram devagar.
— Precisamos falar — disse Juan.
Ax bufou a fumaça.
— Nossa, que jeito fofo de me dar bom dia.
Ayla não sorriu.
— Para de gracinha. Você vai falar agora.
Ax arqueou a sobrancelha.
— Sobre o quê?
Juan deu um passo à frente.
— Sobre você. Sobre a Alison. Sobre o Ryan.
Ax apertou o cigarro entre os dedos, a brasa faiscando.
— Não tenho nada a ver com ela.
— Para. — Juan rosnou. — Você sabia que ela estava viva. Você mentiu pra mim.
Ax se calou.
— Você não contou tudo. — Ayla insistiu. — Por quê?
Ax mordeu o lábio. Depois suspirou.

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