A casa estava mais silenciosa do que nunca. Era como se todas as palavras não ditas pairassem no ar, presas entre os cômodos, esperando para explodir.
Ayla estava na sala de estar, inquieta, o olhar fixo em um ponto qualquer, como se algo fosse surgir dali. O relógio da parede fazia um tique-taque abafado, ritmando com os batimentos acelerados do seu coração. Tudo parecia calmo demais... e essa calma só aumentava o pavor.
Desde que viu Sunny conversando de forma estranha ao telefone, Ayla não conseguiu mais ignorar o incômodo que a corroía por dentro. Era algo no jeito que ela falava, nos gestos contidos, no tom da voz. Mas, acima de tudo, havia aquele olhar antigo, vivido demais para alguém com tão poucos anos. Como se carregasse décadas de mágoa nos ombros. Aquilo tinha ficado gravado nela como uma marca de queimadura.
Era ela o tempo todo. A presença dela nunca foi casual. Mas… será que de fato eram irmãs?
Engolindo em seco, Ayla se levantou e caminhou até o escritório. Abriu o laptop com mãos trêmulas. O clique das teclas ecoava como trovões no silêncio sufocante. Começou a vasculhar pastas antigas: fotos da infância, viagens, festas. Fotos de Alison, de Sunny. Nomes diferentes, expressões parecidas demais. Depois, acessou os arquivos escolares, registros de matrícula. Comparações. Fez anotações. Cruzou dados. As datas… não batiam.
Um frio cortante percorreu sua espinha quando encontrou um boletim antigo em nome de Alison, de uma escola interna no interior do país. Era a mesma escola onde, coincidentemente, Sunny dizia ter estudado por alguns anos antes de "aparecer" na vida deles.
— Não pode ser... — murmurou, a respiração já ofegante. — Não... não é possível...
Com um impulso desesperado, buscou nas redes sociais antigas fotos de Alison. Restava apenas uma, pixelada, esquecida num perfil antigo de uma amiga em comum. Ampliou a imagem. Observou. Os traços... o jeito de sorrir... o olhar. Um arrepio intenso a percorreu. Era ela. Era Sunny. Não havia mais como negar.
E então, como uma avalanche, vieram os flashbacks.
Sunny entrando na casa pela primeira vez, aquele primeiro olhar desconfiado que lançou a Juan. O cuidado excessivo com Emma. As perguntas carregadas de segundas intenções. Os comentários sutis sobre o passado. O jeito como andava pela casa, como se já soubesse onde tudo estava.
Não era só intuição. Era lembrança. Familiaridade.
Ayla apertou os olhos, sufocada por uma verdade que queimava como ácido. Caiu sentada no sofá, o corpo trêmulo.
— É assim que ela sabe tudo… — sussurrou, a voz embargada.

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