Arco 1 – As Máscaras de Bianca (Cap. 1–6)
HOJE
O espelho do quarto estava manchado no canto inferior, uma rachadura fina que se espalhava como veia. Bianca sempre dizia a si mesma que ia trocar, mas nunca trocava. Gostava daquela imperfeição, como se fosse uma desculpa para o que via refletido. A luz amarelada da luminária de cabeceira deixava a pele dela mais quente, quase sem olheiras, mas a verdade estava ali, nas sombras.
Puxou a cadeira da penteadeira e se sentou, os joelhos juntos, as pernas encolhidas como quando era adolescente. O batom vermelho estava aberto, descansando no tampo de vidro. Passou uma camada fina e mordeu os lábios, avaliando.
— Forte demais. — murmurou.
Pegou o papel de seda, beijou de leve, manchando-o como se tivesse deixado uma marca em alguém. Guardou o papel amassado na gaveta.
Ela se inclinou para frente. O rosto que a encarava tinha sobrancelhas milimetricamente desenhadas, cílios pesados de rímel, mas os olhos… os olhos não obedeciam. Havia algo neles que nenhuma maquiagem corrigia. Olhos de quem esperava por um aplauso que nunca vinha.
Bianca apoiou o queixo na palma da mão.
— Você nunca é suficiente — disse em voz baixa, tão baixa que o som quase se perdeu no carpete.
A lembrança veio como tapa: o pai, de terno azul marinho, servindo whisky na sala da casa em Higienópolis, dizendo entre dentes que ela tinha corpo bonito, mas precisava se casar bem. "Beleza passa, sobrenome não." O tom dele não era conselho, era sentença. Bianca tinha quinze anos.
Lembrou-se da mãe também, a eterna crítica de festas de caridade, arrumando a barra do vestido da filha na frente de convidados e sussurrando "sorri direito, você não é atraente quando força".
— Você precisa ser perfeita, Bianca — a mãe sempre dizia, como se a perfeição fosse uma moeda que poderia ser trocada por amor.
Ela esfregou o rosto com força, borrando o delineador. Queria apagar não só a maquiagem, mas aquela versão dela que tinha sido treinada para existir.
A campainha tocou no andar de baixo. Ela prendeu a respiração. A empregada atendeu, ouviu-se o portão automático abrindo. O coração de Bianca acelerou por reflexo, mesmo sem saber quem era.
— Quem é? — gritou, tentando esconder a ansiedade na voz.
— É apenas uma entrega! — respondeu a empregada, com um tom de voz que parecia mais animado do que o normal.
Ignorou.
Bianca pegou o frasco de perfume Chanel nº5, presente da tia rica que sempre lhe dizia que “classe não se compra, mas ajuda”. Borrifou nos pulsos, no pescoço. O cheiro encheu o quarto, misturado ao odor doce do creme corporal que ela usava desde os dezoito.
Voltou ao espelho. A rachadura parecia se espalhar, embora estivesse igual. Passou o dedo sobre o vidro frio, acompanhando a linha.
— Vai me quebrar também, né? — sorriu, mas os olhos marejaram.
Sentiu o celular vibrar. Marcus.
"Chego em vinte."
Bianca fechou os olhos, respirou fundo. Amava ele? Não. Precisava. Precisava estar na presença de alguém que lhe dissesse, nem que fosse com mentira, que ela era única.
Se levantou devagar, os saltos ecoando no assoalho de madeira. Foi até o armário, puxou um vestido preto de seda que colava no corpo. Vestiu, ajeitou os ombros, andou até o espelho outra vez.
— Agora sim, você parece alguém — disse, mas a voz falhou.
A campainha tocou de novo. Ela não desceu de imediato. Ficou ali parada, encarando a própria imagem, até que lágrimas escorreram sobre o batom vermelho. Rápidas, como quem não quer ser vistas.
Pegou um lenço, secou, respirou fundo. Quando finalmente desceu as escadas, os olhos ainda estavam vermelhos, mas ela já sorria.
— Oi, Bianca! — Marcus a cumprimentou com um sorriso largo, os olhos brilhando. — Você está deslumbrante!
— Obrigada, Marcus — respondeu, tentando manter a voz firme. — O que faremos hoje?
— Uma surpresa! — ele disse, piscando. — Vamos a um lugar especial.
Bianca sentiu um frio na barriga. O que poderia ser? O que ele esperava dela?
— Um lugar especial? — ela repetiu, tentando soar entusiasmada.

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