Poucos anos antes...
O salão do Clube estava cheio de gente bem vestida naquela noite abafada de março. Homens de paletó mesmo no calor, mulheres abanando discretamente os rostos com leques improvisados feitos de folders do evento. O ar-condicionado parecia brigar em vão contra a quantidade de corpos, perfumes e vozes misturadas.
Bianca segurava a taça de espumante pela haste, a mão molhada de suor. Usava um vestido verde-esmeralda que a mãe tinha escolhido, insistindo que destacaria seus olhos. O tecido colava um pouco nas costas, e ela sentia a cada movimento a marca incômoda do sutiã. Ficou um tempo encostada perto de uma das colunas de mármore, observando. Era assim que sempre fazia em eventos: fingia estar à vontade, mas estudava cada pessoa, cada gesto, como quem se prepara para entrar em cena.
Foi então que o viu.
Não houve música especial, nem raio de luz sobre ele. Apenas um homem atravessando o salão com passos firmes, o terno preto ajustado sem esforço, como se tivesse nascido dentro dele. Não era apenas bonito no sentido comum, havia algo na maneira como segurava o copo de uísque, como não parecia precisar provar nada a ninguém.
O coração de Bianca disparou de um jeito que ela não reconheceu. Não era paixão. Era reconhecimento. Como se tivesse encontrado a materialização de tudo o que vinha sendo treinada para buscar. Poder, presença, uma calma quase arrogante.
Ela não sabia quem ele era, ainda. Mas queria.
Seus olhos o seguiram até o grupo que o recebeu com palmadinhas nas costas e risadas de aprovação. Ele mal sorria. Dizia poucas palavras e, mesmo assim, parecia comandar o círculo. Bianca deu um gole rápido na taça e quase engasgou. O espumante estava quente, sem gás.
"É isso", pensou. "É esse."
A mãe apareceu ao lado dela, cheirando a Chanel Nº5, o cabelo preso num coque que parecia doer só de olhar.
— Endireita as costas — disse a mãe, com um tom de voz que não admitia contestação.
Bianca obedeceu, mas não conseguiu desviar o olhar de Juan.
— Quem é? — perguntou, sem disfarçar a curiosidade.
A mãe acompanhou a direção dos olhos da filha e apertou levemente o braço dela.
— Juan Barichello. Viúvo recentemente. Empresário. Intocável. Não perca seu tempo.
Bianca riu de canto de boca, um riso que não era bem riso.
— Você disse a mesma coisa sobre o Alberto, e ele acabou casado com a Fernanda.
— E você queria o Alberto? — a mãe rebateu, fria.
— Não. Mas ela o queria. E conseguiu.
A mãe suspirou, ajeitou a barra do próprio vestido e se afastou para cumprimentar conhecidos. Bianca ficou parada. O nome repetia na cabeça como um mantra. Juan Barichello. O som parecia pesado, quase estrangeiro.
Ele olhou na direção dela. Não demorou mais do que um segundo, mas foi o bastante. Bianca sentiu um calor estranho subir pelo corpo. Fingiu arrumar o cabelo, embora soubesse que ele não tinha visto nada além de mais uma mulher em vestido caro.
Ainda assim, aquele olhar breve foi suficiente para cravar uma semente.
Bianca atravessou o salão devagar, como se apenas estivesse em busca de alguém conhecido. Parou perto da mesa de frios, pegou uma fatia de presunto cru e deixou que o sal grudasse na língua, aproveitando a desculpa para observar de perto. Juan conversava com um homem mais velho, provavelmente um sócio, mas a postura dele não era de quem precisava agradar. Escutava com atenção, bebia devagar, respondia em frases curtas.
Bianca se perguntou como seria ter aquela atenção voltada só para ela. Não por segundos, não por educação. Por escolha.
— Tá mirando alto demais, amiga — a voz veio de trás. Era Camila, colega de infância, sempre prática demais para o gosto de Bianca. — Ele nem deve saber que você existe — Camila completou, com um sorriso sarcástico.
— Ele vai saber — Bianca respondeu, sem olhar para ela.
Não era bravata. Era decisão.
Camila riu, pegou um canapé e se afastou. Bianca continuou imóvel, os olhos fixos no homem que não fazia esforço para ser o centro, mas era.
Quando Juan deixou o grupo e caminhou até o bar, Bianca respirou fundo. O salto alto fez eco no piso de madeira. O coração parecia bater no pescoço. Aproximou-se, pediu uma água com gás, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Ele estava a dois metros. Podia sentir o cheiro do whisky misturado a um perfume amadeirado. Não trocaram palavras. Ele nem a olhou. Mas naquele instante, Bianca entendeu que já estava dentro de uma armadilha que ela mesma armava.
A água desceu amarga. O garçom perguntou se queria limão, ela disse que sim, embora detestasse. Queria parecer sofisticada, qualquer detalhe que a aproximasse da ideia que tinha de "pertencer".
Nada disso foi o suficiente para sua chamar atenção. O que diabos ela estava fazendo de errado?
De volta ao espelho do banheiro da sua casa, encarou a maquiagem borrada pelo calor, Bianca percebeu que tinha encontrado algo maior do que desejo. Não era amor. Era necessidade.
Naquela noite, enquanto tirava o vestido e o deixava cair no chão do quarto, ela não pensava em mais nada, em mais ninguém. Só nele.
Juan Barichello.
O nome já ocupava todos os cantos dela.
***
Na manhã seguinte, Bianca acordou com a imagem de Juan ainda fresca na mente. O jeito como ele se movia, a confiança que exalava. Ela se levantou da cama e foi até a janela, puxando as cortinas para deixar a luz entrar. O sol brilhava intensamente, mas a luz não conseguia dissipar a sombra que se formava em seu coração.
— O que você está fazendo, Bianca? — perguntou a si mesma, enquanto se olhava no espelho. — Você mal o conhece.

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