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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 160

O portão da casa abriu com aquele rangido irritante que nunca consertavam. Bianca desceu do carro ajeitando a alça da bolsa no ombro, o salto afundando um pouco no cascalho da entrada. A fachada iluminada, imponente, parecia sempre maior quando ela voltava sozinha. A cada passo, lembrava que aquela não era só uma casa, era uma vitrine.

A empregada abriu a porta e sorriu automático.

— Boa noite, dona Bianca.

O cheiro do molho de tomate vinha da cozinha, mas misturado ao perfume pesado de lavanda que a mãe espalhava em difusores pelos corredores. Um choque de aromas que sempre lhe dava dor de cabeça.

A sala estava cheia. O pai de terno cinza, o copo de whisky já pela metade. A mãe com vestido bege, cabelo preso, colares de pérolas. Dois tios e a tia Isadora, todos espalhados pelo sofá de couro. Quando Bianca entrou, os olhares foram para ela como se estivessem avaliando um cavalo de leilão. A cada encontro de família era igual.

— Demorou. — comentou a mãe, levantando uma sobrancelha.

— Trânsito. — respondeu Bianca, sem entrar em detalhes.

Sentou-se na poltrona lateral, cruzou as pernas e colocou a bolsa sobre o colo. O pai pigarreou.

— Viu que a filha do Oswaldo ficou noiva? Rapaz de boa família, trabalha com comércio exterior. Parece ter futuro.

Bianca assentiu, mexendo o anel no dedo.

— E a filha mais nova da Helena já está morando na Europa. Vai casar com um diplomata.

Ela respirou fundo, manteve o olhar fixo na mesa de centro, onde repousava uma bandeja com castanhas. Era sempre assim: comparações que não vinham disfarçadas de conversa, mas de cobrança.

— Você ainda está... naquele caso sem futuro? — A tia Isadora mordeu uma castanha, olhando direto para Bianca.

— Não sei do que a senhora está falando.

— Bianca. — a mãe interveio, pousando a taça de vinho na mesa. — Não se faça de desentendida. Nós sabemos com quem você tem saído.

A sala ficou em silêncio. O pai girava o copo na mão, esperando a resposta. Bianca sentiu o peito apertar, mas manteve a pose.

— Não é da conta de vocês.

— Claro que é. — retrucou o pai. — Você carrega nosso sobrenome. Cada passo seu respinga aqui.

Ela sorriu sem humor.

— Engraçado, porque quando convém dizem que sou independente. Quando não convém, lembram que sou Bastos.

O pai a encarou por um momento, os olhos duros.

— Você é Bastos sempre. Nunca esqueça disso. E isso vem com obrigações.

Bianca queria rir. Obrigações. Palavra que soava como algema. Cresceu ouvindo aquilo. Não podia se vestir de qualquer jeito, não podia falar alto demais, não podia se envolver com qualquer um. Tudo porque carregava um sobrenome que pesava mais que sua própria pele.

Juan. O nome dele ecoou na cabeça dela, como se fosse resposta automática ao aperto no peito. Juan era a saída, o escudo, o prêmio. Não porque ela o amasse, mas porque ele representava vitória sobre aquelas vozes que a diminuíam. Se conseguisse estar ao lado dele, ninguém nunca mais poderia dizer que ela não tinha valor.

— Você não entende. — Bianca disse baixo, quase para si mesma.

— O que não entendo? — O pai inclinou-se para frente.

— Que eu não sou um investimento de vocês.

A mãe suspirou, ajeitou as pérolas no pescoço.

— Bianca, ninguém aqui quer o seu mal. Nós só queremos que você faça boas escolhas.

Ela riu, um riso curto, cortante.

— Boas escolhas, segundo vocês. Segundo o manual que vocês escrevem todo santo dia.

O silêncio ficou pesado. A tia Isadora quebrou-o mordendo mais uma castanha. O som seco ecoou pela sala.

Bianca se levantou.

— Com licença.

— Vai se trancar no quarto de novo? — a mãe perguntou.

— Talvez. Lá pelo menos não preciso de plateia.

Subiu as escadas sem olhar para trás. O corredor do segundo andar tinha o carpete gasto no meio, onde todos os pés passavam. No banheiro, acendeu a luz e encarou o azulejo rachado perto da pia, sempre o mesmo desde a infância. Encostou-se à parede fria e fechou os olhos.

Lá embaixo, as vozes retomavam a conversa como se nada tivesse acontecido. Esse era o peso do sobrenome: não importava o que Bianca dissesse, sempre voltavam ao roteiro. E ela, sufocada, encontrava em Juan não apenas desejo, mas um atalho para calar todos eles.

Não queria ser lembrada como a filha problemática. Queria ser lembrada como a mulher que conquistou o homem que ninguém acreditava que ela poderia alcançar.

E era isso que doía. Não saber se queria Juan por ele ou pelo silêncio que ele representava.

Naquela noite, enquanto se preparava para mais um encontro com Juan, Bianca se olhou no espelho e tentou se convencer de que estava pronta. O vestido preto que escolheu era elegante, mas não muito chamativo. Queria que ele a visse, mas não queria parecer desesperada. O cabelo solto, levemente ondulado, caía sobre os ombros, e ela aplicou um batom nude, tentando manter a aparência natural.

— Você está linda! — disse Camila, que apareceu de repente na porta do quarto. — O que você está esperando?

— Estou nervosa — Bianca admitiu, olhando para o reflexo.

— Nervosa? Por quê? Você já se encontrou com ele antes.

— Sim, mas agora é diferente. É um encontro de verdade. E se ele não gostar de mim?

Camila revirou os olhos.

— Bianca, você é incrível. Ele vai adorar você. E se não adorar, é porque ele é um idiota.

Bianca sorriu, mas a insegurança ainda a consumia.

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