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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 161

O celular vibrava em cima da mesa de cabeceira, piscando a tela a cada segundo. Bianca não atendia. Sentada na beira da cama, ainda com o salto nos pés, ela encarava a cortina pesada que deixava só um filete de luz da rua entrar. A noite estava abafada, o ronco de um ônibus distante misturado ao barulho das buzinas da avenida.

O nome de Juan iluminava a tela de novo. Ela deixou tocar até cair na caixa postal. Depois pegou o telefone, digitou uma mensagem curta: "Estou cansada, não hoje". Apagou antes de enviar. Reescreveu: "Talvez amanhã". Também apagou. Acabou largando o aparelho de novo.

Não era cansaço. Era raiva.

Na última vez que tinham se visto, dois dias antes, Juan tinha dito algo que não saía da cabeça dela: "Você precisa parar de tentar me prender, Bianca". Foi no meio de uma conversa banal, enquanto comiam num restaurante da Alameda Lorena. Ele disse aquilo como se fosse um comentário qualquer, mexendo no guardanapo, sem elevar a voz. Mas para ela soou como sentença.

Prender? Ela não queria prender. Queria estar perto. Era pedir demais?

O perfume dele ainda parecia grudado na memória do casaco que ela usava naquela noite. Amadeirado, discreto, mas impossível de ignorar. Bianca fechou os olhos e se viu de novo sentada à mesa, mexendo o risoto sem fome, tentando rir das piadas que ele não fazia. Juan não era homem de rir muito, e talvez fosse isso que a atraía: a sensação de que cada sorriso dele era uma conquista.

O celular vibrou de novo. "Podemos conversar?", a mensagem dizia.

Bianca respondeu quase sem pensar: "Venha".

Levou menos de quarenta minutos para ele aparecer. O porteiro anunciou pelo interfone, e quando ela abriu a porta do apartamento, Juan entrou sem cerimônia. O blazer escuro jogado sobre o braço, a camisa clara com o último botão solto. Ele parecia cansado, os ombros pesados.

— Você some e depois me chama de madrugada. O que você quer, Bianca? — perguntou, a voz carregada de cansaço.

Ela fingiu não ouvir. Caminhou até a sala, sentou-se no sofá de couro branco, cruzou as pernas devagar, como se estivesse num ensaio.

— Quero você aqui. Só isso — respondeu, tentando manter a voz firme. — Porque eu te amo.

Ele a olhou demoradamente, aquele olhar que misturava paciência e exaustão.

— Você acha que isso é amor?

— E não é? — a voz dela saiu mais aguda do que pretendia. — Estar perto, querer você, não é amor?

— É controle.

Bianca sentiu o corpo gelar.

— Controle? Eu não te prendo, Juan. Você entra e sai quando quer. Eu só quero estar perto.

Ele largou o blazer na poltrona, andou até a janela e abriu um pouco a persiana. A cidade lá embaixo brilhava, milhares de janelas acesas. Juan ficou um tempo olhando, sem falar nada.

— Eu já vivi isso antes — ele disse enfim, sem virar para ela. — Essa necessidade de estar em cada segundo da minha vida, de me moldar ao que o outro espera. Isso não é amor, Bianca. É medo.

Ela se levantou de súbito. O salto bateu forte no piso.

— Medo de quê? De eu sumir? De eu não ser nada? Talvez eu tenha mesmo. Você não entende o que é crescer ouvindo todo santo dia que, se eu não conquistasse alguém como você, eu seria um fracasso.

Juan a encarou.

— Então eu sou troféu.

— Não! — a voz dela quebrou. Bianca se aproximou, segurou o braço dele com força. — Não é isso. É só que... você é o único lugar onde eu sinto que existo de verdade.

Ele soltou o braço devagar, sem violência, mas firme.

— Isso não é justo comigo. Ou com você.

Bianca piscou rápido para segurar as lágrimas. Caminhou até o barzinho no canto da sala, serviu-se de vinho tinto e bebeu de um gole só. O gosto metálico desceu queimando a garganta.

— Eu não sei amar de outro jeito — confessou, olhando para o copo vazio. — Talvez seja isso. Eu só aprendi que amor é segurar, não deixar escapar.

Juan não respondeu. Sentou-se no sofá, passou a mão pelo rosto. O silêncio entre eles se alongou, cortado apenas pelo barulho distante da cidade.

Bianca largou o copo na mesa e se sentou ao lado dele. Tocou os dedos nos dele, hesitante.

— Eu não quero te perder.

Ele olhou para ela, cansado, mas ainda assim suave.

— Então aprenda a me deixar livre.

A frase ficou martelando na cabeça dela mesmo depois que ele se levantou e foi embora, quase sem despedida. A porta bateu suave, mas o som ecoou alto no apartamento vazio.

Bianca ficou ali, sozinha no sofá, sentindo o cheiro dele ainda pairando no ar. E pela primeira vez se perguntou se o que sentia era amor, ou apenas medo de desaparecer quando ele não estava por perto.

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