O salto direito estava jogado perto da porta, o esquerdo no meio da sala, tombado como se tivesse sido chutado. Bianca entrou e largou a bolsa em cima do sofá de couro branco. O barulho seco ecoou no apartamento vazio.
Ainda ouvia dentro da cabeça a frase dele, repetindo como uma agulha arranhando vinil: “Você precisa parar de me usar como escudo. Não há futuro para nós.”
Escudo. Futuro. Como se ela tivesse armado uma guerra que nem sabia lutar.
Sabia que ela era uma péssima ideia ter dito aquela última conversa com ele. Ele não conseguia mesmo ver o seu esforço ao fingir que era uma pessoa tranquila e liberal. Por que diabos dizia que ela estava o prendendo?
Não estava! Ela só queria ele. Mantê-lo perto. Longe das garras daquela maldita mulher que entrou na casa dele com pretexto para cuidar de Emma.
Bianca não iria cair nessa.
Abriu a geladeira. Sobras de comida chinesa numa caixa de isopor, uma garrafa de vinho aberta há dias, duas maçãs esquecidas no fundo da gaveta. Pegou a garrafa, encheu meio copo, bebeu sem pensar. O gosto azedo denunciava que já tinha passado do ponto, mas não importava.
Foi até o banheiro. A luz fria revelou o rosto dela no espelho: delineador borrado, rímel escorrido. Passou a mão, espalhou ainda mais. O azulejo rachado acima da pia parecia uma fenda aberta, como se a parede também estivesse prestes a desmoronar.
Ela tirou os brincos, deixou cair na pia com um tinido metálico. Puxou o zíper do vestido, mas ele enroscou. Xingou baixo, tentando soltar, até desistir. Sentou-se no chão frio, as costas contra a porta, e respirou fundo.
A casa estava em silêncio absoluto, exceto pelo zumbido da geladeira e o som distante de buzinas na rua. Silêncio de tribunal.
Bianca pegou o celular. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Rolou a lista de contatos como quem procura oxigênio, mas não havia ninguém que realmente quisesse ouvir a voz dela. Camila, talvez, mas Camila nunca entenderia. E a mãe... a mãe transformaria em sermão.
Abaixou o celular, apoiou a testa nos joelhos.
De repente, chorou. Não foi o choro contido, elegante, das novelas. Foi soluço feio, nariz escorrendo, a garganta arranhando. Chorou até sentir o gosto salgado escorrer pelos lábios.
Entre soluços, falava sozinha, a voz cortada:
— Eu só queria… só queria ser suficiente.
Ninguém para responder. Ninguém para dizer que era.
A lembrança voltou nítida, como se estivesse acontecendo de novo: a mãe no quarto, Bianca com dezessete anos, experimentando um vestido de festa. “Você precisa emagrecer dois quilos para esse caimento funcionar. Sorria menos de boca aberta, mostra demais a gengiva. E não fale tanto, os homens não gostam de mulheres que falam demais.”
Cada frase era tatuagem invisível que nunca saiu.
Ela se levantou devagar, enxugando o rosto na manga do vestido. Voltou ao espelho. A mulher refletida tinha os olhos inchados, a boca borrada de batom. Por um instante, Bianca encarou como se fosse outra pessoa, uma estranha.
— Você não é nada sem eles, né? — murmurou.
Afastou-se, abriu a gaveta da penteadeira e puxou todas as maquiagens de uma vez. Batons rolando pelo chão, pós quebrados espalhando pó bege no carpete. Pegou um deles, esmagou com o salto. O cheiro doce de pó compacto se espalhou no ar.
Caiu sentada no chão outra vez, rindo e chorando ao mesmo tempo. Um riso curto, desesperado, que logo morreu.
Olhou em volta: o apartamento parecia um cenário desmontado. Roupas jogadas sobre a cadeira, taças manchadas de vinho na mesa, maquiagem destruída no tapete. Tudo parecia fazer sentido pela primeira vez: não havia ordem, não havia máscara que segurasse.
Bianca abraçou os joelhos, encostou a cabeça na parede.
— Eu só queria que alguém me escolhesse — sussurrou.
O silêncio respondeu, como sempre. Mas Juan já havia escolhido.
Ele escolheu aquela maldita babá.
***
O dia seguinte chegou sem aviso, e Bianca acordou com a luz do sol filtrando pelas cortinas. A cabeça doía, e a boca estava seca. O apartamento ainda estava uma bagunça, mas a visão do caos parecia mais familiar do que desconfortável. Era como se o desespero tivesse se tornado parte dela.
Levantou-se devagar, ainda vestindo o vestido amassado da noite anterior. O espelho refletia uma imagem que ela não reconhecia. A maquiagem borrada, os olhos inchados, e a expressão de quem havia lutado uma batalha sem vencedores.
— O que você está fazendo com a sua vida? — perguntou a si mesma, enquanto se arrastava até a cozinha.
A empregada já estava lá, preparando o café da manhã. Maria olhou para Bianca com preocupação.
— Bom dia, dona Bianca. Você não parece bem. Dormiu mal?
— É… algo assim — Bianca respondeu, tentando forçar um sorriso.
— Se precisar de alguém para conversar, estou aqui — Maria disse, com um olhar compreensivo.

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