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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 163

Ele não apareceu.

O despertador tocou, mas ela não se lembrava de ter programado. Sete da manhã. O quarto estava abafado, a cortina pesada não deixava a luz entrar. Bianca virou para o lado, procurando o celular entre os lençóis amassados.

Nenhuma mensagem.

Nenhuma ligação.

Nenhuma justificativa.

O vestido da noite anterior ainda estava no chão, dobrado de qualquer jeito. O salto esquerdo encostado na parede, o direito caído debaixo da cama. O cheiro de vinho azedo ainda pairava no ar. Bianca levantou devagar, sentindo o gosto seco na boca, a cabeça pesada. Foi até o banheiro e ligou a torneira. A água gelada ardeu no rosto. O espelho devolveu uma mulher com os olhos inchados, o cabelo embaraçado, a marca vermelha de onde tinha dormido em cima do próprio braço.

Sentou-se na privada fechada, respirou fundo. O azulejo do chão estava frio sob os pés descalços. Ficou um tempo só ouvindo o som da água escorrendo, como se aquilo fosse a única coisa real.

Pegou o celular outra vez. Rolou os contatos. Camila, mãe, pai, um ou outro nome de conhecidos. Juan. O nome dele estava ali, como ferida aberta.

Bianca digitou: "E hoje, você vem?" Apagou. Digitou: “Eu te desculpo por ontem". Apagou. Guardou o celular de novo.

Voltou para o quarto. A penteadeira ainda estava coberta pela maquiagem espalhada da noite anterior. O pó compacto esmagado no carpete, batons abertos, lápis quebrado. O cheiro doce da base derramada misturado ao pó solto. Bianca se agachou e começou a juntar tudo com as mãos, como se recolher os pedaços fosse devolver ordem. Mas não havia ordem.

Largou os frascos numa caixa de sapato e empurrou para baixo da cama. O quarto seguiu bagunçado, e o vazio continuava ali.

Abriu a janela. O barulho da rua entrou de uma vez: buzinas, motores, o apito de um guardinha na esquina. O cheiro de pão fresco vindo da padaria da frente, misturado ao de fumaça de escapamento. Por um instante, sentiu inveja daquelas pessoas anônimas, apressadas para o trabalho, discutindo preço de pão, reclamando do trânsito. Gente que não carregava o peso de ser “alguém”.

Encostou a testa no vidro da janela.

Juan nunca foi dela. Nunca prometeu ser. Nunca disse "sou seu". Tudo era projeção dela, desejo, invenção. Não havia traição ali. Não havia vilania. Só ela tentando agarrar um fantasma que nunca esteve ao alcance.

As lágrimas vieram de novo, mas silenciosas, correndo pelo rosto sem esforço. Não era choro de desespero, era de constatação. Como quem vê pela primeira vez o esqueleto de uma casa depois que a pintura descasca.

Bianca voltou para a cama, deitou de lado. O lençol cheirava a perfume misturado a suor e vinho derramado. Abraçou o travesseiro com força.

Pensou em tudo que já tinha feito para ser vista. As dietas forçadas, os sorrisos treinados em frente ao espelho, os encontros suportados só porque "valiam a pena". Pensou na mãe dizendo que beleza passa, mas sobrenome não. Pensou no pai comparando-a com outras filhas, como se fosse cavalo de corrida. Pensou em Juan, e o vazio aumentou.

Obsessão não é amor. Repetiu isso em silêncio, várias vezes. Mas talvez fosse o único idioma que ela sabia falar. O único gesto que tinha aprendido a dar: segurar, apertar, não soltar. Porque se soltasse, desaparecia.

O apartamento permaneceu quieto, exceto pelo barulho distante da cidade. Um copo de vinho vazio sobre a mesa, restos de maquiagem no chão, a bolsa aberta com a carteira meio exposta. Tudo parado.

Bianca fechou os olhos. O peito doía, não de amor, mas de vazio. Um vazio que não gritava, só ecoava.

E naquele eco, o que mais doía não era perder Juan. Era nunca ter tido nada para oferecer além da fome de ser escolhida.

***

Anos depois

Bianca estava em pé diante do espelho, ajustando o véu que caía suavemente sobre seus ombros. O reflexo mostrava uma mulher diferente, mas ainda assim familiar. O vestido de noiva, branco e delicado, realçava suas curvas, e o cabelo estava preso em um coque elegante, adornado com pequenas flores brancas. Mas, por trás do sorriso, havia uma sombra de incerteza.

— Você está linda! — disse Camila, que estava ao seu lado, segurando um buquê de flores.

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