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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 164

Arco 2 – Diana, a Irmã Perdida (Cap. 7–12)

Na mesa do café da manhã, os talheres sempre batiam mais alto quando era Ayla quem falava. Não importava se dizia pouco ou quase nada. Bastava a respiração dela existir para que a mãe franzisse a testa, o pai lançasse um olhar de censura ou os silêncios da casa ficassem mais tensos.

Diana, do outro lado da mesa, aprendia cedo a se encolher na cadeira. O pão francês era sempre o mesmo, vindo da padaria na esquina da Rua das Laranjeiras. O cheiro chegava ainda quente, casca crocante, miolo fofo, e ela se lembrava de morder devagar só para ter a sensação de presença. Ninguém reparava se ela comia ou não. Reparavam em Ayla. Sempre em Ayla.

“Não corte o pão assim, Ayla, parece malcriada.”

“Olhe nos olhos quando respondo, menina.”

“Você nunca vai se adaptar nessa casa?”

Diana observava tudo em silêncio, a faca passando manteiga no pão com calma demais, como se fosse disfarce. O engraçado era que, mesmo sendo a rejeitada, Ayla tinha atenção. Mesmo na bronca, mesmo no desprezo. Ela ocupava espaço. E Diana, que sempre fazia o certo, que nunca respondia atravessado, passava invisível como poeira em móvel de canto.

Às vezes se perguntava qual dos dois era pior.

Na escola, a comparação continuava. As professoras olhavam para Diana com aquele sorriso breve de quem esquece o nome de imediato. “Ah, você é irmã da Ayla?” Sempre isso. Nunca Diana por si só. A irmã da outra.

— Você é tão quieta, Diana. Por que não fala mais? — uma colega perguntou certa vez, enquanto as duas esperavam o ônibus.

— Eu… não sei. — Diana respondeu, encolhendo-se um pouco mais.

— Você deveria ser mais como a Ayla. Ela é tão extrovertida! — a colega disse, e Diana sentiu o peito apertar.

No quarto, dividindo paredes finas com os gritos dos pais discutindo, Diana escrevia em cadernos escondidos. Coisas sem importância, listas de músicas que gostava, frases que tinha ouvido na rua. Um jeito de provar para si mesma que existia. Ninguém nunca leu. Nem ela mesma voltava para reler. Era só registro bruto, como se cada palavra fosse testemunha de que ela estava ali.

Uma noite, a discussão dos pais passou dos limites. O som de um copo quebrando na cozinha, a mãe gritando, o pai batendo a porta com força. Ayla foi chamada. Diana não. Ficou no quarto, abraçando o travesseiro, ouvindo de longe os insultos direcionados à irmã. A cada palavra dura, sentia um nó crescer no peito. Não por pena, mas porque uma parte dela pensava: “E eu? Nem para ser odiada eu sirvo.”

Ser esquecida doía mais fundo do que qualquer grito.

No domingo, quando a família recebia visitas, Diana era peça de decoração. Arrumava-se bem, ficava sentada na sala, respondia educada às perguntas protocolares. A atenção ia para a casa grande, para os móveis antigos, para as conversas de adulto. E, inevitavelmente, para Ayla, mesmo quando ela se retraía no canto, com os olhos baixos. Sempre alguém comentava: “Essa menina tem um olhar forte” ou “Ela vai dar trabalho quando crescer”. E Diana sorria discreto, apertando os dedos contra o próprio joelho, pensando que ninguém nunca dizia nada dela.

— Diana, querida, você pode trazer mais suco? — a mãe pediu, sem olhar para ela.

— Claro, mãe — respondeu, levantando-se rapidamente.

Enquanto caminhava até a cozinha, sentiu o olhar de Ayla em suas costas. Era um olhar que misturava desprezo e compaixão, como se Ayla soubesse que Diana era apenas uma sombra em sua vida.

No banheiro do andar de cima, o azulejo estava rachado perto da descarga. Diana reparava nisso toda vez que entrava. Sentava-se no vaso, ficava olhando para a rachadura como quem encara um espelho distorcido. “Se eu desaparecer, será que alguém nota?” Essa pergunta vinha como mantra. Não havia resposta.

Quando fez quinze anos, ganhou um anel simples de prata da avó. A mesma avó que, ao entregar, cochichou: “Você é a mais equilibrada dessa família, Diana. Fique assim.” Equilibrada. Palavra bonita para dizer apagada. Guardou o anel na caixinha de veludo e raramente usava. Era lembrete de que sua função era não incomodar.

E então havia Erlon.

Ele apareceu mais tarde, quando Diana já era quase adulta, e foi o primeiro a olhar para ela como se fosse alguém. Lembrava da primeira vez que ele a chamou de especial. A voz dele soou como água em garganta seca. Ela acreditou. Queria acreditar. Porque ser vista, mesmo que fosse mentira, já era mais do que tinha tido a vida inteira.

— Você é diferente, sabia? — Erlon disse, enquanto caminhavam juntos após a aula.

— Diferente? Como assim? — Diana perguntou, um pouco insegura.

— Você tem uma luz. Não sei explicar, mas é como se você tivesse algo que as outras não têm. — Ele sorriu, e o coração dela disparou.

Mas antes de Erlon, antes de qualquer desvio, houve esse vazio que consumia. O eco de uma infância de sombra, em que até os castigos eram privilégios negados. Porque ao menos no castigo você existia.

Naquela manhã, sentada outra vez à mesa, Ayla recebia críticas pelo jeito de segurar a xícara.

— Ayla, você precisa prestar mais atenção! — a mãe disse, com a voz elevada.

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