Diana ajeitou a saia do uniforme no banco duro da sala de aula. A professora de matemática escrevia fórmulas no quadro, o giz chiando, a poeira branca grudando na manga da blusa. Ela copiava tudo com letra perfeita, margens alinhadas, números sem borrão. A caneta azul marcava o caderno como se fosse prova.
No boletim, as notas sempre vinham altas. O problema é que ninguém celebrava. “É o mínimo”, o pai dizia, sem olhar para ela, o jornal aberto à frente. A mãe balançava a cabeça: “Continue assim, sem dar trabalho”. E pronto.
Ayla, mesmo com notas medianas, era o centro. Sempre havia drama, bronca, discussão. Diana ficava calada. Perfeição silenciosa. Invisível.
Na adolescência, a regra era clara: estar impecável. O cabelo liso sem frizz, postura ereta, sorriso discreto. Falar baixo, obedecer sem perguntar. Diana treinava frente ao espelho, tentando ser aquilo que imaginava que esperavam. Não funcionava. A sensação era de correr numa esteira: esforço sem avanço.
No quarto, sentada à mesa de estudos, a luz amarelada da luminária refletia nas paredes descascadas. O azulejo do banheiro ao lado ainda tinha a mesma rachadura de sempre, lembrança fixa. Diana respirava fundo e copiava as anotações do dia. Perfeição. Ordem. Como se cadernos organizados fossem provas de que ela tinha valor.
Ainda bem que tinha o Erlon.
Ele não apareceu com estardalhaço. Era amigo de conhecidos, sempre presente em encontros de grupo. Alto, voz grave, riso fácil. A primeira vez que falou com ela diretamente, Diana se pegou sem ar. Estavam no pátio da escola, um calor sufocante, cheiro de lanche barato vindo da cantina.
— Você é a Diana, né? — ele perguntou, apoiando-se no muro com descaso.
— Sou. — A voz dela saiu mais baixa do que pretendia.
— Falam que você é a mais inteligente da turma. — Ele sorriu, e o coração dela disparou.
Ela sentiu o rosto esquentar. Só conseguiu sorrir, sem graça.
— Eu só estudo.
— Isso é bom. Eu nunca tive paciência. — Erlon riu, um riso que parecia iluminar o espaço em volta. Naquele momento, Diana acreditou que finalmente alguém a tinha visto.

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