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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 167

O apartamento de Diana ficava no décimo segundo andar de um prédio antigo na Bela Vista. O elevador sempre fazia um estalo estranho entre o décimo e o décimo primeiro, como se estivesse prestes a parar. Ela já se acostumara a rezar baixinho nesses segundos, mesmo sem acreditar em nada.

A porta do apartamento rangia quando ela a empurrava. O corredor estreito cheirava a desinfetante barato, que a vizinha do lado usava em excesso. Dentro, o silêncio era imediato. A cama desarrumada desde a manhã, a pia da cozinha com dois pratos de ontem, o copo de vinho pela metade na mesa de centro.

O escritório de advocacia onde trabalhava era frio de outro jeito. Pilhas de processos, clientes que nunca lembravam o nome dela, apenas chamavam “doutora”. O diploma na parede era a cicatriz de um sonho que não era dela. Quis ser atriz. Chegou a fazer curso na adolescência, peças pequenas no teatro do bairro. Mas os pais cortaram cedo: “Isso não dá futuro, Diana. Você precisa de algo sólido. Direito é respeitável”. Ela obedeceu. Como sempre.

Agora, aos trinta e poucos anos, o resultado era esse: longos dias atrás de mesas de reunião e longas noites sozinha.

Naquela noite, a solidão veio pesada. Sentou-se na beira da cama, tirou os sapatos, deixou a bolsa cair no chão. A televisão ligada sem som, só a imagem de um programa de auditório que não importava. Pegou o celular por hábito.

Foi rolando a tela, passando por fotos de conhecidos, viagens que não fez, sorrisos que não sentiu. Até que parou.

Erlon e Ayla.

Uma foto recém-postada. Os dois em um barzinho da Vila Madalena, copos de chope na mesa, ele com o braço em volta dela. O texto da legenda era simples: “Nós”.

O estômago de Diana revirou.

Largou o celular na cama, mas pegou de novo segundos depois, ampliou a foto como se fosse possível encontrar uma falha, uma mentira no sorriso deles. Nada. Ayla parecia tranquila, Erlon parecia feliz.

Diana respirou fundo, a mão trêmula. Não contou a ninguém, nunca, sobre o que sentia por ele. Nem na adolescência, nem depois. Sempre guardou. Sempre engoliu. Agora, ver que ele tinha escolhido justamente a irmã, era como levar um tapa que ninguém viu acontecer.

— Por que você não me disse? — murmurou para si mesma, a voz embargada.

Foi até a cozinha, abriu a geladeira. Uma garrafa de água, um resto de macarrão de dois dias, vinho barato. Pegou o vinho, encheu um copo até a boca e bebeu em goles rápidos. O gosto azedo arranhou a garganta.

Olhou para a própria imagem no reflexo da janela. A cidade iluminada lá embaixo, buzinas, motos cortando a avenida. Ela se via ali, cabelo preso de qualquer jeito, maquiagem borrada do dia inteiro, camisa social amassada. Uma sombra da menina que queria atuar, que sonhava em palcos.

Deixou o copo na pia, voltou para o quarto. Sentou-se na cama. A solidão estava tão densa que dava para tocar. Pegou o celular outra vez, abriu um aplicativo de encontros, deslizou os dedos mecanicamente. Perfis, fotos, descrições rasas. Aceitou o primeiro que respondeu rápido. Um homem que ela mal lembrava o nome quando abriu a porta duas horas depois.

— Oi, você é a Diana? — ele perguntou, com um sorriso que não parecia sincero.

— Sim, sou eu. — Ela forçou um sorriso, tentando parecer animada.

Não houve conversa. Só corpos se encontrando num quarto escuro, em silêncio, como se fosse uma transação. Diana fechou os olhos durante, pensando em Erlon, odiando a si mesma por pensar.

Depois, o homem dormiu pesado ao lado dela. Diana ficou acordada, olhando o teto, contando as rachaduras da pintura. Não chorou. Não havia mais lágrimas para aquilo. Só um nó duro no peito, misto de raiva e resignação.

Na tela do celular, ainda aberta, a foto de Erlon e Ayla brilhava. Diana girou o aparelho para baixo, mas o eco daquela imagem ficou dentro dela.

E não era apenas ciúme. Era a confirmação de tudo que sempre acreditou: Ayla sempre seria escolhida, mesmo sem querer. E ela, Diana, só aprendera a aceitar migalhas.

***

Na manhã seguinte, Diana acordou com a luz do sol entrando pela janela. O corpo do homem ao seu lado ainda estava ali, mas ela se sentia mais sozinha do que nunca. Levantou-se devagar, tentando não fazer barulho. O cheiro de cigarro e vinho ainda pairava no ar, e a sensação de arrependimento a acompanhava.

— O que eu estou fazendo com a minha vida? — sussurrou para si mesma, enquanto se vestia.

O homem se mexeu na cama, mas não acordou. Diana olhou para ele por um momento, sentindo uma mistura de desprezo e compaixão. Ele não era a resposta que ela procurava, mas, ao mesmo tempo, era um reflexo da sua própria solidão.

Ao sair do apartamento, o elevador fez o estalo familiar. Diana respirou fundo, tentando se preparar para mais um dia no escritório. O caminho até lá era sempre o mesmo: a rotina monótona, os rostos conhecidos, as conversas superficiais. Mas, naquele dia, algo parecia diferente. A dor da rejeição ainda a acompanhava, mas havia uma determinação crescente dentro dela.

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