Diana saiu tarde do escritório naquela sexta-feira. As luzes da cidade já cobriam a avenida de néons e faróis vermelhos que piscavam no asfalto molhado. Chovia fino, aquele chuvisco chato que encharca sem que a gente perceba. Ela desceu a rua em passos rápidos, o salto batendo irregular no calçamento esburacado. A blusa social grudava nas costas.
O bar ficava na esquina, desses de madeira escura, mesas apertadas, cheiro de cerveja derramada misturado com fritura. Ela não queria estar ali, mas tinha aceitado o convite de colegas do trabalho. Precisava, às vezes, fingir normalidade. Entrou, o som da música sertaneja universitária estourando nas caixas. Riu sem graça para as colegas, pediu um gin tônica, encostou no balcão.
Foi quando o viu. Erlon.
O que ele estava fazendo ali? Era a primeira vez que o via desde que começaram a trocar mensagens.
Ele não parecia encaixar no ambiente. Estava de camisa clara, mangas dobradas, o cabelo um pouco molhado da chuva, sorriso pronto. Não era bonito no sentido clássico, mas tinha presença. Quando se virou e a olhou, foi como se alguém tivesse acendido uma lâmpada direta nela.
— Diana? — ele disse, como se fosse óbvio reconhecê-la.
Ela demorou um segundo para reagir. O coração acelerou, como se tivesse sido pega em flagrante.
— Oi... você... sabia que eu estaria aqui?
— Claro que sabia. — Ele riu. — Você comentou ontem em ligação. Você esqueceu? Você realmente não mudou nada.
Mentira. Ela tinha mudado. Mudado demais. Mas aceitou como elogio, mesmo sabendo que era vazio.
Conversaram de pé, perto do balcão. Erlon tinha esse jeito de inclinar a cabeça quando ouvia, como se prestasse atenção de verdade. Diana sentia os olhos dele fixos nela, e isso era perigoso. Passava a língua nos dentes sem perceber, ajeitava o cabelo atrás da orelha, se esforçava para não tremer a voz.
— O que você fez hoje? — ele perguntou, e a voz dele era suave, como um convite.
— Ah, você sabe, trabalho e mais trabalho. — Ela sorriu, mas a insegurança a acompanhava. — E você? Como está a vida?
— A vida é boa. Mas poderia ser melhor. — Ele fez uma pausa, olhando nos olhos dela. — Você, por exemplo, merece muito mais do que a vida te deu.
Diana sentiu a garganta fechar. Riu sem graça, tentando desviar.
— Acho que todo mundo sente isso, não?
— Não, não todo mundo. Mas eu vejo isso em você. — Ele tocou de leve a mão dela no balcão.
Foi como choque. Um toque rápido, quase nada, mas ela sentiu como se fosse puxada de um poço. Olhou para os dedos dele roçando nos dela e, por um instante, acreditou. Acreditou em tudo que ele dizia, no sorriso aberto, na atenção direcionada.
Conversaram por horas. Sobre banalidades, sobre música, sobre a cidade. Erlon ria de quase tudo que ela falava, mesmo quando não era engraçado. E cada riso era um presente envenenado, porque Diana sabia, em algum canto da mente, que aquele encanto não podia durar.
Mas naquela noite, deixou durar.
Quando as amigas do escritório foram embora, ela ficou. Erlon insistiu em acompanhá-la até o carro. A rua estava molhada, poças refletindo as luzes vermelhas dos semáforos. Diana sentia o cheiro de terra molhada misturado ao perfume dele, amadeirado, discreto.
Pararam perto do carro dela, e houve um silêncio. A cidade continuava ruidosa, buzinas, gente rindo no bar ao lado, mas para Diana parecia que só existia aquele espaço entre os dois.
Erlon a olhou de um jeito que ninguém tinha olhado antes. Não como segunda opção, não como sombra de outra. Como se ela fosse inteira.
Diana engoliu em seco.
— Boa noite.
— Boa noite — ele respondeu, mas não se afastou.
Os olhos dele estavam fixos. O sorriso, contido. Era escolha. Não desejo, não jogo. Escolha.
E quando os dedos dele tocaram os dela de novo, dessa vez demorando, Diana não recuou.
Se agarrou àquele instante como náufrago que encontra madeira no mar. Não importava se era verdade ou mentira, se ia durar ou não. Certo ou errado. Naquela noite, ela deixou que fosse suficiente.

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