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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 173

O som da risada de Ayla corria pela casa, leve, solto, como se escapasse sem pedir licença. Deisi estava na cozinha, arrumando a mesa do jantar. Cada riso que vinha do quarto das meninas era uma navalha na pele. As mãos dela batiam os pratos com força sobre a toalha branca. Os talheres faziam barulho agudo demais.

“Como ela ousa ser feliz?”, pensava, cerrando os dentes, enquanto ajeitava o guardanapo de pano com movimentos duros.

Na sala, Edgar fingia ler o jornal. O papel subia e descia levemente, a cada respiração impaciente. Por trás da folha, escondia o mesmo incômodo. Não precisava olhar para a esposa: os dois sabiam. A menina não era filha, era lembrete. Lembrete da amante, da fraqueza, da vergonha que a cidade teria jogado na cara deles se não tivessem tomado para si a história.

E como se não bastasse existir, ainda ria.

Eles nunca admitiriam em voz alta. Então disfarçavam a raiva com silêncio. Mas havia um pacto nos olhares trocados: Ayla jamais seria amada.

Foi numa tarde abafada de dezembro que Andrea, a mãe verdadeira, apareceu. O sol queimava o calçamento da frente da casa, e Deisi sentiu o coração disparar quando a viu parada no portão. Andrea parecia mais magra, a pele marcada, os olhos fundos, mas ainda havia firmeza no jeito de encarar.

— Quero ver minha filha. — A voz dela era baixa, mas não havia pedido, havia ordem.

Deisi riu de canto de boca.

— Sua filha? Aqui dentro ela não é nada sua.

Andrea empurrou o portão, entrou com passos rápidos, sem esperar convite. O vento quente trouxe consigo o cheiro de poeira da rua. Ayla apareceu no corredor, assustada. Não reconheceu aquele rosto, aquela voz. Havia sido tirada dela muito nova.

Mas de algum modo, aquela mulher parecia com a que aquela que a visita em sonho quase todas noites.

Andrea deu um passo à frente, mas parou. Deisi se colocou no meio, bloqueando a passagem.

— Não se atreva. — O tom saiu carregado, mais grito que palavra.

Andrea tentou passar. Deisi a empurrou. O choque foi seco, ombro contra ombro. Andrea revidou, o tapa estalou no ar, cortando o silêncio. Deisi devolveu. Um segundo de caos: cabelos puxados, unhas arranhando braços, xingamentos cuspidos perto demais do rosto.

— Você roubou a minha filha! — Andrea gritava, os olhos marejados.

— Sua filha? — Deisi cuspia as palavras. — Você nunca deu nada a ela! Aqui ela tem o que precisa. Roupas, escola, comida na mesa. Melhor do que morrer de fome com você!

Ayla chorava em silêncio no canto, sem coragem de se mover. Não entendia muita coisa do que diziam. Nem sabia de quem estavam falando. Mas sentia dor. Muita dor.

O barulho atraiu Edgar, que desceu as escadas apressado, a gravata solta no pescoço, o rosto vermelho. Segurou Andrea pelo braço com força, o tom gelado.

— Acabou. Você não tem direito nenhum aqui. Se aparecer de novo, vai se arrepender.

Andrea tentou soltar o braço, mas ele apertou mais. Os olhos dela, marejados, encontraram os de Ayla. E mesmo naquele abismo, mesmo naquela humilhação, Andrea conseguiu sorrir fraco.

— Você está bem. É isso que importa.

Edgar a empurrou para fora. O portão bateu com violência. O barulho ecoou pela rua quente e vazia.

Dentro da casa, o silêncio foi ainda pior que a briga. Deisi ajeitou o cabelo desfeito, as mãos tremendo. Não olhou para Ayla. Apenas subiu as escadas com passos duros, sem dizer nada. Edgar voltou para a sala, pegou o jornal de novo como se nada tivesse acontecido.

Ayla ficou sozinha no corredor. O gosto de ferro na boca, os olhos ardendo. A cena queimava por dentro, como fogo que não se apaga.

Naquela noite, deitada na cama de ferro que rangia, Ayla jurou a si mesma que não ia morrer naquela casa. Que um dia sairia daquela cidade. Que encontraria alguém que a olhasse como filha, como mulher, como pessoa inteira. Que não fosse vitrine, nem vergonha, nem peso.

Que fosse amor verdadeiro.

Os dias seguintes foram marcados por um silêncio pesado. Deisi evitava olhar para Ayla, e Edgar parecia mais distante do que nunca. A casa, que já era fria, agora parecia um verdadeiro deserto emocional. Ayla se sentia como uma estranha em sua própria casa, e a raiva que fervia dentro dela era difícil de controlar.

Certa manhã, Ayla decidiu que precisava fazer algo. Não podia continuar vivendo daquela maneira, sufocada pela indiferença. Ao descer as escadas, encontrou Deisi na cozinha, preparando o café da manhã.

— Mãe, precisamos conversar. — Ayla disse, a voz firme.

Deisi olhou para ela, surpresa.

— Agora não, Ayla. Estou ocupada. — A resposta de sempre foi rápida, quase automática.

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