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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 175

Arco 4 – A Mãe Verdadeira (Cap. 17–20)

O cheiro de éter grudava no nariz, misturado ao suor frio que escorria da testa. Andrea se contorcia na maca de ferro, as mãos agarradas no lençol áspero, que já não era branco fazia tempo. As paredes descascadas do hospital público de Santa Clara pareciam se fechar sobre ela, e o som era um coro descompassado de gritos de outras mulheres, passos de enfermeiras apressadas, bandejas de metal batendo sem cuidado.

— Respira fundo, Andrea. Força! — a parteira gritou, voz cansada, como quem repete a mesma frase vinte vezes por dia.

Andrea tentou obedecer. O ar entrou rasgado, queimando os pulmões. O corpo já não respondia, só tremia. Uma dor funda, animal, partia de dentro dela. Apertou mais o lençol, gritou, o som saiu rouco, atravessando o corredor.

E então, silêncio. Um silêncio que pesava mais que qualquer grito.

O bebê chorou, por um segundo só. Depois, o barulho sumiu. Andrea ergueu a cabeça, desesperada.

— Cadê? Cadê a minha filha?

Ninguém respondeu. A parteira desviou o olhar, as enfermeiras se entreolharam, uma delas saiu apressada carregando o embrulho. Andrea tentou se levantar, mas o corpo não obedeceu. A dor ainda rasgava, mas maior era a dor do vazio.

— Me dá ela! — a voz saiu fraca, mais súplica do que ordem.

Foi Edgar quem entrou minutos depois, terno amassado, cheiro de colônia cara disfarçando o suor. O olhar dele era de decisão, não de pai.

— A criança vai comigo.

Andrea cuspiu sangue junto com as palavras.

— Não. Ela é minha.

Ele não tremeu. Apenas ajeitou a gravata, olhou para a parteira como quem dá ordem.

— Você sabe quem eu sou.

E todos sabiam. Santa Clara inteira sabia.

Andrea chorava, o corpo arqueado na maca. Tentou se arrastar, tentou alcançar a porta, mas braços firmes a seguraram. O metal frio da cama parecia se fundir ao corpo dela, como se estivesse sendo presa ali para sempre.

O som dos passos dele levando a filha embora foi a última coisa que escutou antes de desmaiar.

Quando acordou, a janela deixava entrar um sol fraco da manhã seguinte. A barriga vazia, o peito latejando, mas nada nos braços. Só o cheiro de leite vazando no pano encharcado que a enfermeira colocou.

Andrea virou o rosto para a parede descascada e chorou em silêncio. Não foi só o parto que perdeu naquela madrugada. Foi o futuro inteiro. Foi o direito de ouvir o choro, de dar nome, de embalar.

A cidade, falariam depois, acreditaria na versão oficial: a menina tinha sido acolhida pela família “certa”, criada com sobrenome de prestígio, salva da miséria. Mas Andrea sabia. Ninguém nunca a tinha perguntado se queria abrir mão. Levaram como quem arranca um objeto de dentro de uma casa.

Naquele quarto abafado, jurou que um dia a filha ouviria a verdade. Mesmo que não acreditasse. Mesmo que fosse tarde demais.

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