O cheiro do hospital nunca saía das narinas dela. Mesmo quando voltou pra casa, parecia que o éter e a água sanitária estavam impregnados na pele. Andrea acordava à noite sentindo aquele gosto metálico na boca, lembrando dos tubos, das agulhas, das enfermeiras frias que mexiam no corpo dela como se fosse só mais um corpo, não uma mulher que tinha perdido tudo.
A doença veio sorrateira, primeiro como cansaço. Uma tontura estranha quando lavava roupa, uma dor funda no peito ao subir a escada da casa alugada em Santa Clara. No começo, ignorava. Achava que era só fraqueza, só fome, só tristeza acumulada. Mas o corpo foi mostrando os limites. Perdeu peso, os olhos afundaram, a pele perdeu cor. Cada vez que ia ao mercado, o caixa a olhava com pena.
E junto da doença, vieram as lembranças que não desgrudavam. Primeiro de Sunny, sua primogênita. O nome verdadeiro era outro agora, mas ela sempre a chamara de Sunny, seu raio de luz. Seus pais tinham arrancado dela ainda menina, quando seu marido morreu. Disse que não tinha condições, que a filha ficaria melhor com a família rica da cidade vizinha. Andrea não esqueceu o dia: a garota de trança, agarrada à barra da saia, e os pais a empurrando com brutalidade pra dentro do carro preto. “É para o bem dela”, ele disse. Mas o bem de quem? Meses depois, Andrea descobriu o novo nome: Alison.
Agora, anos mais tarde, aconteceu de novo. Edgar tirara Ayla de seus braços antes mesmo que ela pudesse embalá-la. A diferença é que agora Andrea não tinha mais forças nem para brigar.
Sozinha, sem marido, sem filhas, decidiu se mudar. Uma fazenda arrendada na beira da estrada, uns quarenta minutos de Santa Clara. A casa era simples, paredes descascadas, azulejo do banheiro rachado, cheiro de mofo impregnado. À noite, o som dos grilos se misturava ao rangido da madeira.
Lá, a doença se tornou companheira de quarto. Tosses secas no meio da madrugada, febres que deixavam o lençol encharcado. O corpo era prisão: queria levantar para cozinhar, mas as pernas tremiam. Queria lavar roupa no tanque, mas os braços não obedeciam. A comida acabou virando enlatado frio e pão duro comprado na venda do senhor Joaquim, na beira da estrada.
Às vezes, se sentava na varanda de cimento quebrado, olhando o mato crescer alto demais, as mãos tremendo no colo. Ficava pensando em como seria a vida de Sunny. Se Alison ainda lembrava do cheiro do colo dela, se guardava alguma memória da infância roubada.
Pensava em Ayla também, agora em outra casa, com outra família. Imaginava o quarto arrumado demais, a cama feita sem afeto, os olhares de desprezo da madrasta. Doía não poder estar lá, não poder ser o escudo.
A mente virava labirinto de culpas. Se tivesse lutado mais contra os pais, talvez tivesse ficado com Sunny. Se tivesse escondido a gravidez de Ayla, talvez tivesse criado a menina longe de Edgar. Mas a verdade se impunha como pedra: não tinha dinheiro, não tinha apoio, não tinha saúde. Só tinha o corpo falhando e a memória.
O som do rádio velho era a única companhia. De manhã, deixava na AM, ouvindo a voz rouca dos locutores falando de política e previsão do tempo. Às vezes, uma música sertaneja enchia a sala, e Andrea chorava, lembrando dos bailes de juventude que nunca mais dançaria.
As noites eram piores. Febres, calafrios, o peito ardendo. Levantava-se tropeçando até a cozinha, bebia água da torneira com gosto de ferrugem. Voltava pra cama, olhando o teto de madeira escura, ouvindo os ratos correndo no sótão. E pensava: será que as filhas estavam bem? Será que alguma delas sentia falta dela, como ela sentia delas?
O corpo era prisão. Mas a mente era pior: era cárcere com eco. E nesse eco, as vozes das filhas vinham misturadas ao riso de Edgar e ao silêncio cruel.
Na fazenda, Andrea aprendeu a falar sozinha. Conversava em voz baixa com as meninas ausentes. Chamava por Sunny, sussurrava o nome de Ayla, Luna, era como a chamaria. Às vezes, jurava ouvir passos na varanda, como se elas fossem voltar correndo para seus braços. Mas era sempre o vento. Sempre o vazio.
E no fundo, ela sabia: ninguém viria.
A vida tinha arrancado suas duas filhas, e agora arrancava dela mesma, pedaço por pedaço.
Em uma manhã como tantas outras, acordou com a luz do sol filtrando pelas frestas da janela. O corpo doía, e a tosse a acompanhava como um velho amigo. Levantou-se devagar, sentindo a fraqueza nas pernas. O café da manhã era um ritual que ela tentava manter, mesmo que o estômago reclamasse. Pegou um pedaço de pão duro e um pouco de café frio, sentando-se à mesa de madeira gasta.
Enquanto mastigava, olhou pela janela. O campo se estendia à sua frente, com as flores silvestres balançando ao vento. Era bonito, mas a beleza não a confortava. O vazio era um buraco negro que não se preenchia com paisagens.

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