Andrea sempre achou que a vida dela tinha parado naquela noite no hospital, quando arrancaram Ayla dos seus braços. Depois veio a doença, os anos sozinha na fazenda, o rádio chiando como única companhia. Mas naquele dia, o barulho dos pneus na estrada de terra trouxe um estrondo que ela não esperava mais ouvir.
A porta rangeu, e lá estava Sunny. Não aquela menina de tranças que agarrava a barra da saia implorando para não ir. Não. Agora era uma mulher feita, com postura dura, roupas que Andrea nunca teria dinheiro para comprar. Havia algo de distante no olhar, mas era ela. O coração de Andrea pulou no peito de uma maneira que até doeu.
— Mãe... — Sunny disse, a voz baixa, como se testasse a palavra.
Andrea levou alguns segundos para acreditar. Depois caiu em choro, soluçando, os braços magros tentando envolver aquela mulher que não cabia mais neles. O cheiro dela não era de criança, era de perfume caro misturado a cigarro. Mas Andrea não ligou.
— Você está aqui! — Andrea exclamou, a voz embargada. — Eu não posso acreditar!
Sunny hesitou, mas finalmente se aproximou, sentando-se ao lado da mãe na velha cadeira de balanço que rangia sob o peso delas. O vento quente batia, e a poeira grudava nos pés descalços. Andrea queria perguntar tudo, mas se segurava. Sunny falava em fragmentos, como quem mede as palavras.
— Saí da casa dos pais adotivos. — Ela começou, olhando para o chão. — Me casei, mas não deu certo.
— Oh, filha... — Andrea murmurou, o coração apertando. — Sinto muito.
Sunny deu de ombros, mas Andrea percebeu a tristeza nos olhos dela. Não entrou em detalhes. Andrea não quis forçar. O simples fato dela estar ali já era milagre.
Naquela noite, Andrea adormeceu com um peso diferente no peito. Não era a doença, era esperança.
Os dias seguintes foram estranhos. Sunny ajudava a consertar a casa: limpou o quintal tomado pelo mato, passou cal nas paredes, até ajeitou o telhado que vivia pingando nas chuvas. Andrea ria sozinha vendo a filha carregar baldes, com o cabelo preso de qualquer jeito, as mãos sujas de terra. “É a minha menina”, pensava, repetindo como mantra.
— Olha só, mãe! — Sunny exclamou um dia, segurando um balde de tinta. — Vamos dar uma nova cara a essa casa!
Andrea sorriu, mas a dor no peito ainda estava lá, como um lembrete constante.
— Você sabe que eu não tenho mais forças para isso, não é? — disse, tentando esconder a preocupação.
— Não se preocupe, eu cuido de tudo. — Sunny respondeu, a determinação nos olhos.
A doença, claro, não tinha desaparecido. O corpo ainda doía, a tosse ainda vinha de madrugada, o enjoo voltava quando tomava os remédios. Mas Sunny trouxe uma mudança prática: começou a pagar os tratamentos. Exames caros, remédios que Andrea nunca teria como comprar. Até levou a mãe para consultas em outra cidade, onde os médicos falavam com uma calma diferente.
— Onde você arrumou esse dinheiro, filha? — Andrea perguntou uma noite, tomando o chá de boldo que Sunny preparara.
Sunny desviou o olhar, mexendo o açúcar na própria xícara sem provar.
— Trabalhando. — Ela respondeu, a voz evasiva.
Andrea não insistiu. Dentro dela, uma pulga se mexia, uma desconfiança. Mas a alegria de ter a filha de volta era maior. Não queria espantar o pouco de luz que tinha aparecido.
Ainda assim, havia ausências. Sunny sumia às vezes. Saía sem explicar, voltava dias depois. Chegava com roupas novas, cheiro de bebida, olheiras pesadas. Andrea percebia, claro. Fingir que não via era mais fácil. Às vezes, queria perguntar, mas se lembrava de quando perdeu as meninas e jurava a si mesma que, se tivesse uma segunda chance, não afastaria com perguntas duras.
Então, se calava.
Havia pequenos momentos que bastavam. Uma risada na cozinha enquanto descascavam batatas. O cheiro de pão assando no forno velho de lenha. Uma tarde de chuva em que ficaram juntas na varanda, enroladas num cobertor, falando sobre nada.

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