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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 178

Meses depois...

Andrea tinha o costume de ficar encostada na janela da sala, mesmo depois que o médico recomendou que não passasse muito tempo em pé. A vista não era nada de especial, a rua estreita de paralelepípedo, o barulho dos ônibus que subiam a ladeira, os meninos da vizinhança jogando bola com uma meia velha. Estava gostando da nova cidade. Mas para ela, aquela moldura era vida. Ficava ali, sonhando com o impossível: as duas filhas juntas outra vez, rindo na mesma mesa.

Naquele fim de tarde, Ayla chegou de surpresa. Entrou sem cerimônia, como quem pertence àquele espaço. Carregava nas mãos um envelope branco dobrado, e o sorriso dela iluminava a sala. Andrea sentiu o coração bater diferente. Não era só alegria, era também uma pontada de dor: Ayla parecia cada vez mais parecida com ela quando jovem, só que com a força que ela nunca tivera.

— Mãe, sente aqui comigo — Ayla puxou uma cadeira, espalhando papéis na mesa. — Quero te mostrar uma coisa.

Andrea obedeceu. O corpo já não respondia como antes, mas se esforçou para se acomodar. O cheiro de sabonete de erva-doce da filha misturado ao perfume leve de lavanda enchia o ar.

Quando Ayla abriu o envelope e mostrou o exame de ultrassom, Andrea levou a mão à boca. Os olhos se encheram d’água, e ela riu com um soluço preso na garganta.

— É... é meu neto?

— É, mãe. É seu neto — Ayla disse, e a firmeza da voz quase desabou em emoção. — E você vai ser uma avó maravilhosa.

Andrea não conseguiu responder de imediato. Lembrou de Sunny, ou Alison, como a chamavam agora. A menina que tinha voltado por um tempo, que tinha trazido remédios, dinheiro, ajuda. Mas que também desaparecia, sumia sem explicações, escondia segredos. E então veio o choque: Ayla, certa noite, revelou a verdade.

— Mãe... Sunny nunca existiu. Alison não é essa pessoa que você guarda. Ela fez de tudo pra acabar com a minha vida, com a vida do Juan. Eu precisei te contar. Você merece saber.

Andrea ouviu em silêncio, o peito se contraindo. Queria negar, gritar, defender. Mas não conseguiu. Ficou ali, com as mãos tremendo no colo, como se segurasse um copo invisível que poderia cair a qualquer momento.

Naquela noite não discutiu. Guardou a dor para si. No fundo, sabia que Ayla estava certa. A Alison que conhecera já adulta não parecia ter nada da criança que perdera. O jeito frio, o olhar sempre distante, a falta de carinho real. Talvez fosse verdade. Talvez Sunny tivesse morrido lá atrás, no banco de trás daquele carro preto que a arrancou dela.

Agora, diante do exame, Andrea fez um esforço consciente para não deixar a sombra cobrir o momento. Passou os dedos enrugados sobre o papel liso, como se pudesse tocar a vida que crescia no ventre da filha.

— Eu... eu não sei ser avó, Ayla. Eu falhei tanto como mãe. — A voz dela saiu falha, quebrada.

Ayla apertou a mão dela com força.

— Você não falhou. O que fizeram com a gente não foi culpa sua. E eu não quero ouvir você falar isso nunca mais. Você vai ser parte da minha vida, parte da vida do meu filho. Não vou deixar ninguém te arrancar de mim de novo.

Andrea tentou sorrir, mas chorava. O lenço que guardava no bolso ficou encharcado rápido. Entre soluços, sentiu algo diferente: não era só dor, não era só perda. Era gratidão.

— Obrigada, filha... obrigada por me deixar viver isso.

O resto da tarde passou em silêncio confortável. Ayla fez café, Andrea olhava o exame repetidas vezes, como se fosse um amuleto. Do lado de fora, as vozes dos meninos ainda ecoavam na rua, chutando a bola contra o portão de ferro da casa vizinha. Mas dentro daquela cozinha simples, havia algo raro. Não era a perfeição, não era a família inteira reunida. Era só um fio de esperança, frágil, mas suficiente para aquecer.

Andrea percebeu que, mesmo depois de tanto, a felicidade ainda podia existir. Não a felicidade completa, como nos filmes, mas aquela que se encontra nos detalhes: uma mão apertada com firmeza, um papel de ultrassom na mesa, o cheiro do café recém-passado.

A conversa fluiu, e Andrea se permitiu sonhar. O que seria ser avó? Como seria o neto? Um menino? Uma menina? O que ela poderia ensinar? As perguntas dançavam em sua mente, e a ideia de um novo começo a enchia de vida.

— Você já pensou em nomes? — Andrea perguntou, a curiosidade transparecendo.

Ayla hesitou, olhando para o chão.

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