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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 179

Arco Amanda

Amanda acordou com o barulho da chaleira apitando. Por um instante, pensou que era a mãe chamando para o café, como fazia quando ela era criança em Manps, batendo a colher na xícara com impaciência. Mas não. Estava sozinha. A chaleira só gritava porque ela havia esquecido de desligar o fogo.

Desceu da cama devagar. O quarto cheirava a roupa suada, guardada tempo demais sem ser lavada. No chão, duas garrafas de vinho vazias, uma taça com restos ressecados no fundo. A cortina mal fechava, deixando a luz cinza da manhã invadir sem piedade.

Virou a água fervida dentro de uma caneca qualquer, sem colocar nada. Só água quente. A sensação era de que precisava de algo que queimasse a garganta. Sentou-se na beirada da mesa da cozinha, observou a parede, uma linha escura de mofo atravessando-a perto da janela.

Ali, no silêncio, o mundo parecia se arrastar. Não havia televisão ligada, não havia música. Só o som da respiração dela e, de vez em quando, o barulho da rua, uma moto acelerando, um cachorro latindo, o vendedor de pão gritando “pão quentinho, cinco por dez”. Tudo acontecia, mas não a alcançava.

O corpo dela se movia, mas a mente estava presa na mesma cena: Ryan, os olhos que ela conhecia tão bem, desviando quando ela perguntou. A pausa dele. O jeito como não conseguiu encarar. Não precisava ter dito nada, ela já sabia. O mundo desmoronou naquele instante, sem grito, sem briga. Só a certeza podre de que não tinha sido escolhida.

“Como é que a gente enterra alguém que ainda está vivo dentro da gente?”, ela pensava, mordendo a unha até sangrar. Porque era isso. Sentia que Ryan estava por aí, andando, rindo, tocando outras mãos. Mas bem, ele estava morto. Na verdade, ele já estava bem morto antes. Morto de uma forma pior que a morte física, porque havia sido escolha. Ele escolhera outra, não ela. A própria mulher do irmão.

Passou o dia assim, andando pela casa como um fantasma. Às vezes abria o guarda-roupa e encarava as roupas alinhadas dele, ainda penduradas porque não tivera coragem de jogar fora. Tocava a camisa azul que ele usava no aniversário dela e lembrava do cheiro de perfume caro misturado com cigarro. O mesmo cheiro que sentiu na primeira vez que ele a beijou.

No fim da tarde, pegou o celular. Rolou a lista de contatos sem saber para quem ligar. A mãe, não. Ela diria que “homem é tudo igual” e que Amanda precisava reagir. As amigas, não. Cada uma teria uma frase pronta, um conselho ensaiado. Amanda não queria isso. Queria alguém que só sentasse com ela e deixasse o silêncio existir.

Acabou ligando para ninguém.

A noite chegou como chega quando não é convidada: pesada, sem aviso. Amanda se enfiou debaixo das cobertas com a roupa do corpo. O celular apitou uma notificação qualquer, mas ela não olhou. Virou para o lado, sentindo o cheiro de travesseiro velho, e deixou o choro vir.

Entre um soluço e outro, sussurrou sozinha.

— Você me matou, Ryan.

E ficou ali, repetindo em silêncio, até que o sono pesado a arrastou.

Quando acordou no meio da madrugada, a cidade estava muda. O relógio de parede marcava três e vinte e dois. O corpo inteiro doía, não por doença, mas por ausência. Levantou, foi até a cozinha e abriu a geladeira. Dentro, só tinha uma caixa de ovos e uma garrafa de água com gosto de ferrugem. Fechou sem pegar nada.

Encostou a testa na porta da geladeira gelada e deixou a respiração embaciar o metal.

“Eu não sei viver sem você”, pensou, mas em seguida se corrigiu: “Não sei viver sem quem eu achava que você era”.

E essa foi a pior constatação. O luto não era só pelo homem que morreu. Era pelo homem que a traiu. Era pelo amor que ela acreditou existir, pelo futuro que ela tinha desenhado na cabeça e que agora não passava de rabisco apagado.

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