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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 181

Amanda nunca se sentiu tão invisível quanto depois da morte de Ryan. Não invisível para os outros, mas para si mesma. Passava os dias andando de um cômodo a outro, esquecendo o que tinha ido buscar. Olhava para a própria mão e pensava: essa mão ainda é minha? Sem aliança, sem função, sem destino.

À noite, quando as casas da rua fechavam suas janelas, ela ficava no sofá encarando a televisão desligada. O reflexo dela aparecia no vidro escuro, uma mulher de cabelo preso de qualquer jeito, olhos fundos, camisa manchada de molho porque não tinha energia de trocar. Não se reconhecia.

Foi nesse vazio que o convite de Juan chegou. Ligou uma tarde, voz firme como sempre, mas com uma ponta de cuidado.

— Amanda, vem pra cá hoje. Janta com a gente.

Ela quis recusar. Quis dizer que não queria encarar gente feliz. Mas a voz dele tinha algo de ordem, e ela estava cansada de passar noites em silêncio. Então foi.

A mansão de Juan parecia um cenário de outro mundo. O portão alto, as árvores alinhadas como guardas. Amanda se sentiu menor do que já vinha se sentindo. Tocou a campainha e logo Emma abriu a porta.

Emma.

A menina tinha o olhar direto, as bochechas rosadas, o mesmo jeito de segurar a respiração antes de falar que Ryan tinha. Amanda ficou paralisada por um instante. Os olhos dela subiram e desceram pelo rosto da criança como se buscassem negação. Mas não havia. Era sangue, era semelhança, era verdade que queimava.

Um nó subiu até a garganta.

— Oi, tia Amanda — disse a menina, inocente, abrindo espaço.

Amanda tentou sorrir. Só conseguiu um movimento rápido de canto de boca. Entrou.

No jantar, Ayla estava radiante, gestos delicados, barriga já marcada pela gravidez. Juan servia vinho, Emma falava sem parar sobre a escola. Amanda ouvia como quem assiste a um filme estrangeiro sem legenda. Não cabia. A cada risada da menina, a cada olhar de cumplicidade entre Ayla e Juan, uma dor antiga latejava: por que Ryan não me escolheu de verdade? O que ela tinha que eu não tinha?

Ayla percebeu. Não podia não perceber. Depois que Emma subiu para o quarto, ela chamou Amanda para a varanda dos fundos. O ar da noite estava fresco, o cheiro de dama-da-noite se misturava ao de terra molhada.

— Eu sei o que você está sentindo — começou Ayla, encostando no corrimão de ferro.

Amanda riu, seca.

— Você não tem como saber.

— Eu não sei a sua dor — corrigiu Ayla, calma — mas sei como era Ryan. Eu também fui enganada por partes dele.

Amanda virou o rosto, olhos marejados.

— Ele te amou?

O silêncio foi longo. Ayla apertou os dedos, olhou o jardim escuro.

— Eu não sei. Mas quando eu via vocês dois juntos, parecia que ele amava você. Ele olhava pra você… diferente. Eu nunca entendi porque não bastou.

Essa frase entrou em Amanda como faca. Ela fechou os olhos, respirou fundo, e as lágrimas desceram sem pedir licença.

— Então era verdade — disse num fio de voz. — Ele parecia apaixonado. Eu não inventei. Não era só imaginação.

— Não — respondeu Ayla, firme. — Você não inventou.

Amanda desabou no banco de madeira. Levou as mãos ao rosto, soluços curtos, feios, sem controle.

— Eu não sei se vou conseguir, Ayla. Não sei se algum dia vou amar de novo. Isso dói demais.

Ayla se sentou ao lado dela. Não tocou, não forçou abraço. Só ficou.

— Talvez você não precise pensar nisso agora. Amar de novo… isso vem se tiver que vir. Agora você só precisa respirar.

Amanda riu entre soluços, um riso amargo.

— Respirar. Parece simples.

— Eu sei que não é. — Ayla suspirou. — Mas é o que resta.

Ficaram em silêncio. O barulho distante de um carro na avenida, o vento mexendo nas folhas, um cachorro latindo em alguma casa vizinha. Amanda olhou o céu escuro, as estrelas rareadas pelas luzes da cidade.

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