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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 182

O estúdio de dança ficava na rua Domingos de Morais, perto do metrô Vila Mariana. Amanda passava em frente quase todos os dias quando ia trabalhar, mas só entrou por insistência do seu sonho antigo, que não se cansava de repetir que ela precisava de algo novo, algo só dela.

Na primeira aula, ficou dura como uma tábua. O cheiro de madeira encerada, o som das palmas marcando o ritmo, os corpos soltos, livres… tudo a irritava. Ela se sentia uma fraude, uma mulher tentando parecer viva quando ainda carregava a sombra de Ryan grudada no peito.

As instruções do professor pareciam ecoar em um lugar distante, e Amanda se pegou pensando em como era fácil para os outros se moverem, enquanto ela se sentia paralisada. O olhar de desapontamento que ela imaginava que Ryan teria se a visse ali, tão desajeitada, a acompanhava como um fantasma.

Foi naquela noite que o viu pela primeira vez.

Ele se apresentou como Miguel. Tinha um sorriso fácil, não desses prontos de vendedor, mas daqueles que vinham acompanhados de um certo desajeito, como se o sorriso fugisse antes dele pensar. Alto, cabelos escuros um pouco despenteados, camiseta simples. O tipo de homem que passaria despercebido se não fosse a calma no olhar.

— Primeira vez? — perguntou no intervalo, oferecendo uma garrafa d’água.

Amanda assentiu, sem muita paciência.

— Tá na cara, né?

Ele riu.

— Um pouco. Mas todo mundo começa assim.

Não puxou assunto além disso. E ela agradeceu.

As semanas passaram, e Miguel estava sempre lá. Nunca forçava conversa, mas sempre a cumprimentava com um aceno discreto, às vezes um comentário rápido sobre a música do dia. Ele era paciente. Tão paciente que, no começo, Amanda se irritava.

“Por que não desiste logo?”, pensava, amarrando o cabelo em coque malfeito antes da aula.

Até que uma noite, o professor resolveu mudar a dinâmica e pediu para que dançassem em pares. Amanda congelou. O coração disparou, lembranças do corpo de Ryan colado ao dela em festas, a sensação de pertencimento que agora doía como cicatriz mal curada.

— Quer dançar comigo? — a voz de Miguel veio tranquila, sem expectativa.

Amanda quase disse não. O “não” subiu até a língua. Mas alguma coisa nela, talvez o cansaço de viver sempre recusando tudo, a fez dizer:

— Tá… pode ser.

Os primeiros minutos foram desastrosos. Ela pisou no pé dele, tropeçou duas vezes. Miguel não reclamou. Só ria de si mesmo, como se o erro fosse compartilhado.

— Relaxa, Amanda. A música não tá com pressa.

Ela mordeu o lábio, prendeu a respiração, e quando percebeu estava rindo também. Um riso pequeno, mas genuíno, escapando entre os dentes.

Nos dias que seguiram, começou a notar detalhes: como Miguel esperava ela sair do vestiário só para lhe dar boa noite; como às vezes trazia chocolate na mochila e oferecia sem cerimônia; como não desviava o olhar quando ela dizia, em tom cortante, que não acreditava mais em nada.

— Você não precisa acreditar agora — ele respondeu uma vez, depois de uma aula particularmente cansativa. — Só precisa continuar vindo.

Amanda não sabia o que fazer com aquela simplicidade. Não era paixão avassaladora, não era promessa de eternidade. Era só presença. E aquilo, de forma estranha, a desmontava.

Meses se passaram. O inverno deu lugar a uma primavera preguiçosa, manhãs frias e tardes quentes. Uma madrugada, depois de uma aula, Amanda saiu do estúdio e viu o céu clareando. O nascer do sol pintava o concreto da cidade de um laranja melancólico. Miguel estava ao lado, os dois suados, exaustos, respirando pesadamente.

— Faz tempo que você não olha pro céu assim? — ele perguntou, mãos nos bolsos.

Amanda demorou para responder. Os olhos marejados não eram só pelo vento.

— Desde antes de Ryan.

Miguel não disse nada. Só ficou ao lado dela.

Foi ali que Amanda percebeu. Renascer não apagava cicatrizes. Não fazia dela a mesma de antes, nem traria de volta a vida que tinha perdido. Mas podia abrir caminho. Podia ser outro percurso, outro jeito de existir.

Ela olhou para Miguel. O medo ainda estava lá, queimando no peito, mas havia também outra coisa: vontade.

Talvez fosse cedo demais para chamar de amor. Talvez nunca chegasse a ser. Mas, pela primeira vez, Amanda não sentiu que estava traindo a memória de Ryan ao pensar em seguir em frente.

Porque não era sobre esquecer. Era sobre lembrar de si mesma.

E quando sorriu para Miguel, mesmo com a voz falhando, soube: ela era mais. Muito mais.

***

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