Arco 6 – Alison e a Saudade de Juan (Cap. 25–28)
O quarto estava uma bagunça. Caixas abertas, roupas jogadas pelo chão, cheiro de poeira misturado ao perfume antigo que insistia em não ir embora, mesmo depois de tantos meses.
Alison estava sentada no chão frio de tacos riscados, as pernas dobradas, abraçando um objeto pequeno demais para conter tanta dor: um isqueiro prateado.
Era de Juan. Ele tinha vários e o deixava em qualquer canto, sempre com a desculpa de que não fumava, mas gostava de “acender o fogo certo, na hora certa”. Ela lembrava disso com um riso seco, que não saía direito da garganta. O isqueiro ainda funcionava. Ela riscou uma, duas vezes, até a chama surgir vacilante. A luz laranja refletiu nos olhos dela, e por um instante parecia que ele estava ali, encostado na porta, rindo daquela mania dela de se perder em detalhes.
Mas não estava. Nunca mais estaria.
Porque bem, para ele, Alison estava morta. Para todos.
Alison apertou o isqueiro na palma como se pudesse se queimar o suficiente para apagar o que sentia. Não apagava. O amor não vira pó como as cinzas que caíam. O amor, quando não tem mais corpo para morar, fica preso, latejando como ferida infeccionada.
— Maldito seja você, Juan — sussurrou, os olhos marejados, a chama tremendo. — Por que não lutou o suficiente por mim?
A pergunta ecoava não como dúvida, mas como condenação. Ela sabia a resposta. Ela tinha escolhido. O traiu. Encomendou sua morte. Não importava quantas noites eles dividiram, quantas conversas atravessaram madrugadas, quantas vezes o mundo parecia caber entre as mãos deles. No fim, Alison tinha seguido para outro caminho, e ele ficou.
Em seu esconderijo escondido nas montanhas, havia uma estante, e nela empilhados sem cuidado, estavam os cadernos de anotações que Alison nunca mais teve coragem de abrir. Eram os registros do tempo deles, ideias para viagens, listas de músicas que queriam ouvir juntos, rascunhos de cartas que nunca chegaram a ser entregues. Tudo agora parecia ridículo, patético até. Mas quando ela passou os dedos sobre uma das capas, sentiu que era impossível jogar fora.
— O que você faria, Juan? — perguntou em voz alta, como se ele pudesse responder. — Você queimaria tudo?
Era provável que sim. Ele já a odiava muito tempo antes.
Naquela noite, algo mudou. O isqueiro estava quente na mão. A chama pequena, mas insistente. Alison levantou-se devagar, ajeitou o cabelo desgrenhado e olhou para os papéis como quem encara um inimigo.
Puxou um caderno, abriu ao acaso. Caiu numa página onde estava escrito: “Ver o nascer do sol em Paraty. Levar vinho. Dormir na areia.” A letra era dele, inclinada, apressada. Ela fechou os olhos e o viu, exatamente como naquela tarde em que escreveu, falando que a vida só fazia sentido quando tinha uma lista de sonhos pela frente.
O coração dela se apertou tanto que doeu fisicamente. Uma fisgada no peito, como se o ar fosse faca.
Sem pensar muito, Alison riscou o isqueiro de novo. A chama cresceu e engoliu a ponta da página. O papel estalou, se contorceu em ondas negras. Ela deixou queimar. Não apagou. O cheiro forte de papel queimado tomou o quarto, trazendo lágrimas que não eram só de fumaça.
— Isso é o que você queria, não é? — murmurou, a voz embargada. — Que eu deixasse você em paz? Que eu deixasse tudo para trás?

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