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O Viúvo e a Babá romance Capítulo 184

O relógio da cozinha parara fazia semanas. O ponteiro dos minutos enganchado entre o seis e o sete, imóvel, como se o tempo tivesse desistido de andar dentro daquela casa. Alison olhava para ele enquanto mexia o café preto na caneca lascada. Não tomava, só mexia. O cheiro amargo subia como um lembrete da noite maldormida.

A mesa estava coberta de papéis. Recortes de jornal, fotos antigas, anotações rabiscadas em guardanapos. Um quadro improvisado na parede, com linhas vermelhas ligando rostos e datas. Parecia coisa de delegado obcecado com um caso. Mas não era investigação. Era sobrevivência. Era vingança.

No centro, uma foto de Juan. Ele ainda jovem, camisa clara, os olhos semicerrados pelo sol de uma manhã qualquer. O tipo de imagem banal que só ganha importância quando não se tem mais nada. Ao redor, rostos conhecidos: Emma, a filha. Andrea, a sua mãe biológica. A própria irmã Ayla, recortada de uma matéria qualquer, o sorriso congelado para as câmeras. E, em um canto, a sombra que nunca saía da memória dela: Ryan.

O nome dele estava escrito em letras duras, circulado duas vezes, como se fosse preciso reforçar que ele existiu. Que foi real. Que foi veneno.

Alison encostou a cabeça na borda da mesa e fechou os olhos. O barulho do vento batendo na janela trouxe de volta uma lembrança. Ela, no jardim da mansão, sentada no colo de Juan, Emma correndo pela grama com o vestido florido que insistia em sujar de terra. O riso dele se misturando ao da filha, enquanto ela fingia reclamar que ninguém a ajudava a recolher os brinquedos. A cena tinha cheiro de bolo de laranja e sol de fim de tarde. Aquilo tinha sido vida. Família. E ela deixou escapar.

Mas a memória nunca vinha sozinha. Logo atrás, surgia a voz de Ryan. Sempre calma, sempre certeira, como quem já sabia onde ia acertar:

— Você não vê, Alison? Você nunca vai dar o que ele merece. Você é só uma sombra na vida dele.

Ela acreditou. Por covardia, por carência, talvez por raiva de não ser a primeira opção de ninguém. O peso daquele erro a esmagava ainda hoje. Porque não fora só uma traição. Foi abrir mão do que tinha de mais puro. Foi aceitar o teatro de Ryan como verdade.

Por isso fingira a morte. Não só para escapar do irmão de Juan, que a manipulava como quem puxa fios de uma marionete, mas para escapar de si mesma. Para não encarar a mulher que escolhera errado.

Abriu os olhos, voltou ao quadro. Passou os dedos sobre o rosto de Juan, na fotografia amarelada.

— Eu devia ter ficado.

As palavras saíram baixas, quase sem som, como se confessar em voz alta fosse crime.

No canto da sala, a televisão ligada sem volume passava imagens rápidas. Ela quase não prestava atenção, até que o nome que não ouvia há tempos surgiu em letras grandes no rodapé da tela: Juan Barichello. O coração dela disparou, um tropeço seco dentro do peito. Pegou o controle e aumentou o som.

“…aparece ao lado de Ayla Green, em evento beneficente realizado ontem no centro da cidade. Os dois chegaram juntos, e a proximidade chamou atenção…”

As imagens mostravam o impossível. Juan, de terno, sorrindo para as câmeras. E ao lado dele, Ayla. Sua irmã. Vestido vermelho, cabelo solto, a mão encostando de leve no braço dele, como se já fosse dela. Como se Alison nunca tivesse existido.

A caneca caiu da mesa e se quebrou no chão, espalhando café frio. Ela não se abaixou para limpar. Ficou parada, o rosto colado à tela, os olhos arregalados como se aquilo fosse uma cena forjada. Mas não era. Ele estava ali. Vivo. Seguindo. Amando outra.

A respiração dela ficou curta, quase um soluço. Sentou-se de novo, encarando os papéis. O quadro na parede parecia zombar dela. Cada linha vermelha agora parecia corda apertando seu pescoço.

Primeiro veio o vazio. Depois, a náusea. Por fim, a raiva.

— Não — disse, firme, pela primeira vez em meses. — Não, Ayla.

A palavra ecoou pelo cômodo, carregada de um veneno que ela nunca tinha permitido sair inteiro. Ayla. Sempre Ayla. Relembrou como ela voltou para a casa da sua mãe biológica, como se nada. E como Alison precisou disfarçar e esconder sua verdadeira identidade enquanto visitava a sua própria mãe.

Odiou Ayla desde o primeiro segundo.

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