Alison já não sabia se era dia ou noite. O tempo deixara de obedecer quando ela voltara a pisar naquela cidade. Cada esquina tinha cheiro de passado, cada barulho de portão se abrindo parecia um assombro. As noites eram piores. Bastava deitar para que os fantasmas surgissem. O toque de Juan em suas costas quando ela ainda acreditava ser amada, o riso abafado de Emma pedindo mais uma história antes de dormir, a respiração de Ryan em seu pescoço, que ela nunca soube distinguir se era desejo ou ameaça.
Fechava os olhos e era beijada e cuspida ao mesmo tempo.
Agora estava ali, escondida do lado de fora da mansão, com as mãos frias apertando o casaco surrado contra o peito. A mansão Barichello ainda se erguia orgulhosa no alto da rua estreita, iluminada demais, como se quisesse provar ao bairro que continuava intocável, que os escândalos não a alcançariam. Só ela sabia da mentira encarnada em cada tijolo.
“Libertá-los”, foi assim que ela tentou justificar a si mesma. Mas não era libertação. Era vingança com verniz. E no fundo, Alison sabia.
Horas antes, dentro daquela mesma casa, tinha encarado todos. O silêncio inicial quando se apresentou foi uma punhalada. Ayla piscou devagar, sem acreditar. Amanda levou a mão à boca, como se a aparição fosse um delírio. Mas foi Juan quem quebrou a couraça dela. Ele a olhou de um jeito que nenhum ódio poderia apagar. Assustado, traído, mas ainda com resquícios de ternura. E foi para esmagar esse resto que ela falou o que não devia.
— Emma não é sua filha. É filha de Ryan.
A boca de Ayla se abriu em choque, mas nenhum som saiu. Amanda chorou sem contenção, como se algo dentro dela tivesse finalmente se confirmado. Ryan, esse, apenas baixou os olhos e ensaiou um arrependimento falso, tão mal ensaiado que Alison quis vomitar.
— Você não pode fazer isso! — Ayla finalmente conseguiu falar, a voz tremendo. — Isso é cruel!
— Cruel? — Alison riu, mas não havia humor em seu riso. — Cruel é viver uma mentira. Você merece saber a verdade.
— E o que você sabe sobre a verdade? — Ryan interveio, a raiva transparecendo em seu tom. — Você não tem o direito de vir aqui e destruir tudo!
— Eu não estou aqui para destruir, Ryan. Estou aqui para libertar. — Alison sentiu a adrenalina pulsar em suas veias, mas a culpa a apertava como um grilhão.
Ela saiu da mansão levando consigo o gosto do silêncio deles, e o som das respirações pesadas que ficaram para trás.
Agora esperava, sentada na mureta de pedra, o corpo curvado como se quisesse se esconder da própria sombra. A mochila ao lado, pesada com a dinamite improvisada que ela mesma armara. Era absurdo. Insano. E, ainda assim, parecia inevitável.
O relógio marcava dez e meia quando o estalo seco atravessou o ar. Primeiro um sopro, depois um rugido. A mansão tremeu como se fosse engolida de dentro para fora. As janelas estouraram em clarões. O chão vibrou sob os pés dela. E então, a onda quente da explosão tomou a noite.
Alison gritou. Um grito rouco, mais próximo de um soluço do que de raiva.
— Emma!
O nome escapou antes de qualquer razão. Correu. Os sapatos batiam no asfalto, a respiração rasgava os pulmões. Ela mesma não sabia se queria encontrar destroços ou milagres. Cada passo a empurrava para dentro da fumaça espessa que já tomava o jardim.
As plantas da entrada queimavam, as pedras do caminho estavam cobertas de cacos. O portão de ferro pendia, torto, como se fosse feito de papel. Ela atravessou a fumaça com os olhos ardendo. As lágrimas não distinguiam se eram dor ou fumaça.
No meio do caos, flashes de memória a assaltavam. Emma rindo na piscina. Juan cochilando na poltrona, jornal caído no colo. Ayla servindo café na casa da sua mãe, o cheiro invadindo a sala. Amanda arrumando as flores da mesa com a delicadeza de quem sempre quis um lar. E Ryan, sempre Ryan, à espreita, sorrindo como quem já previa que tudo acabaria em ruínas.
As mãos de Alison tremiam. A garganta fechava. Queria acreditar que ninguém estava lá dentro, que tinha sido rápida o suficiente para afastar todos antes. Mas o grito de Emma ainda ecoava na memória, e a ideia de que a filha pudesse estar entre as chamas era insuportável.
Ela caiu de joelhos no gramado queimado. A fumaça descia pesada sobre o peito. O corpo inteiro vibrava em desespero.
— O que eu fiz? — sussurrou, repetindo como uma ladainha. — O que eu fiz…
A resposta vinha só no estalar das madeiras cedendo, no estourar dos vidros.
Alison cravou as unhas no chão, a terra úmida se misturando ao sangue que escorria das mãos. Queria arrancar de si a culpa como quem arranca uma ferida infeccionada, mas não havia como. O passado não saía com as unhas. Ele morava dentro.
Correu outra vez em direção à porta principal, mesmo com as chamas lambendo os batentes. Não pensava em sobreviver. Só pensava em não deixar que Emma desaparecesse sem ao menos um último toque, um último olhar.
A fumaça a engoliu inteira.

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