O calor da explosão ainda estava grudado na pele quando Ayla atravessou a fumaça e se jogou contra Alison. Não houve aviso, não houve palavra. Foi o som seco de dois corpos colidindo, braços se agarrando, unhas rasgando, o peso acumulado de meses de mágoas comprimido em um instante de brutalidade.
— Sua desgraçada! — Ayla gritou com a garganta em brasas, a voz falhando no meio da fumaça. — Sua filha tava lá dentro!
Alison tentou responder, mas o ar fugia dos pulmões. O empurrão a jogou contra a parede da entrada, a madeira já chamuscada queimou sua mão. Ela mordeu a dor, empurrou Ayla de volta, as duas caíram no chão coberto de cacos de vidro. O sangue escorreu pelo braço de Ayla, mas ela não parou. Subiu em cima de Alison, socando o rosto dela como se cada pancada fosse uma sentença.
— Você não entende! — gritou Alison, tentando se defender. — Eu fiz isso por ela!
Juan apareceu em meio ao caos, tossindo, coberto de fuligem. Correu até elas e puxou Ayla pelos ombros.
— Para! Pelo amor de Deus, para!
Ayla resistia, o corpo tremendo de raiva, mas Juan a segurava com força. Ele olhou para Alison no chão. O rosto cortado, a boca suja de sangue, mas os olhos... os olhos ainda eram dela. Ainda olhavam para ele do mesmo jeito de anos atrás, quando não havia ódio nem rancor, só os dois e a promessa de um futuro que nunca veio.
— Juan… — ela tentou, mas a voz saiu como um sopro rouco. — Eu… eu estraguei tudo.
Ayla se soltou dos braços dele e recuou, mas não de medo. Era repulsa. Ficou de pé, respirando fundo, as mãos sujas de sangue tremendo ao lado do corpo. Juan ajoelhou ao lado de Alison.
— Você precisa sair daqui, a polícia tá vindo — ele disse, e a voz quebrou. Não era mais raiva, era exaustão. — Por que, Alison? Por quê?
Ela riu baixo, um riso misturado com tosse e sangue.
— Porque eu não sabia viver sem você. E quando tentei, me perdi.
O silêncio caiu entre os três, só o estalar da madeira queimando preenchia o espaço. Alison virou o rosto em direção a Ayla. Não havia mais força para brigar.
— Me perdoa… não por mim, mas por ela. Pela Emma. Eu nunca quis machucar minha filha.
Ayla fechou os olhos, a mandíbula travada. Não respondeu. Talvez não houvesse resposta possível.
Alison então virou-se para Juan, e os olhos dela brilharam mesmo no meio da fumaça.
— Eu amei você de um jeito torto, Juan. Um jeito que me destruiu, que destruiu a gente. Mas ainda assim… foi amor. O único que eu conheci de verdade. Cuida dela… da Emma. Diz pra ela que a mãe dela… tentou ser alguém melhor, mas não conseguiu.
Ele apertou os olhos, como se quisesse se proteger daquela frase. Não havia proteção. As lágrimas queimaram mais do que o fogo ao redor.
— Você não pode dizer isso! — Juan exclamou, a voz embargada. — Por que você não tentou mudar? Por que não consertar isso?
— Não, Juan. — A voz de Alison era firme, mas suave. — O que eu fiz não tem conserto. Eu só queria que você soubesse.
As sirenes começaram a cortar o ar, misturadas aos gritos da vizinhança. Luzes vermelhas e azuis invadiram o portão arrebentado. Alison fechou os olhos por um instante, sentindo a vibração no chão, como se o mundo estivesse vindo buscá-la.
— Acabou — disse baixinho, quase para si mesma. — Eu só queria que você soubesse.
Os policiais entraram rápido, apontando armas, dando ordens que ninguém parecia ouvir. Ayla ergueu as mãos de imediato. Juan tentou explicar, mas a cena já falava sozinha: Alison no chão, ferida, o cheiro de pólvora ainda no ar, a mansão em ruínas.

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