Ayla acordou no meio da noite com a garganta seca. O quarto estava abafado, o ar-condicionado fazia um barulho estranho, como se fosse implodir a qualquer momento. Ou talvez fosse apenas sua imaginação.
Juan roncava pesado ao lado, uma mão caída para fora da cama. O relógio marcava três e quinze.
Ela se levantou devagar, apoiando as mãos nos móveis para não perder o equilíbrio. A barriga enorme pesava como uma âncora, cada passo era medido. Foi até a cozinha, abriu a geladeira e ficou parada, encarando a luz branca que iluminava o chão. Pegou uma garrafa de água, bebeu em goles longos. Sentiu o líquido descer como se tentasse apagar um fogo dentro dela. Mas não apagou.
De repente, lembrou do olhar da mãe adotiva. Aquele olhar que nunca se dirigia a ela por inteiro, sempre de esguelha, sempre com julgamento. Quantas vezes ouviu que não bastava, que era só um erro escondido atrás de uma cortina de aparências. Lembrou de noites em que fingia dormir, mas escutava a mãe chorando sozinha na sala, reclamando da vida que tinha virado uma prisão. E, mesmo assim, nunca houve abraço. Nunca houve colo.
Encostou-se na pia. As lágrimas vieram sem aviso.
— E se eu não souber... — murmurou para si mesma, a voz engasgada.
Juan se mexeu no quarto, talvez tivesse sentido a ausência dela. Mas não levantou.
Ayla puxou uma cadeira, sentou-se com dificuldade e ficou encarando a parede. Pequenos detalhes da casa a lembravam do passado, mesmo que essa fosse uma casa diferente. Não era o mesmo banheiro com as paredes descascadas da infância, mas a cor do piso era suficiente para abrir a porta de memórias que ela tentava trancar.
Pensou no bebê. Pensou nos olhos que viriam, nos braços frágeis, no choro que invadiria a madrugada. Será que conseguiria acolher? Ou viria nela a mesma frieza que um dia recebeu?
De repente, Emma apareceu na porta da cozinha, sonolenta, arrastando uma coberta.
— Ayla? Tá tudo bem? — perguntou, com a voz sonolenta.
Ayla limpou o rosto rápido com a manga da camisola.
— Tá sim, amor. Volta pra cama.
Mas Emma não voltou. Sentou-se no colo dela, mesmo com a barriga atrapalhando. Encostou a cabeça no peito dela e ficou ali. O calor da criança contra o corpo dela fez Ayla respirar fundo, como se tivesse voltado ao eixo.
— Você tem medo? — Emma perguntou de repente, sem abrir os olhos.
Ayla engoliu seco.
— Tenho.
— De quê?
— De não saber amar direito.
Emma abriu um olho, semicerrado, e falou baixinho:
— Mas você já ama. Eu sinto.
Essas palavras atravessaram Ayla como faca e como cura ao mesmo tempo. Apertou a menina contra si, sentindo o cheiro do cabelo dela, aquele cheiro de shampoo infantil misturado ao suor da noite. Ficaram assim por longos minutos, até Emma pegar no sono de novo.
Quando Juan apareceu na porta, coçando a cabeça e com expressão confusa, Ayla apenas fez um gesto para ele ficar quieto. Ele entendeu. Pegou Emma no colo, levou-a de volta para a cama. Ayla ficou sozinha outra vez, mas algo tinha mudado.
Foi até a janela da sala, abriu as cortinas. A rua estava silenciosa, só um cachorro latia ao longe. Encostou a mão na barriga e falou em voz baixa, quase como uma confissão:
— Eu vou errar, eu sei que vou. Mas não vou virar ela. Nunca vou ser ela.
O bebê respondeu com um chute forte. Ayla riu sozinha, um riso cansado, cheio de medo, mas também de promessa.
No quarto, deitou-se de volta ao lado de Juan. Não conseguiu dormir por horas. As imagens vinham, misturadas: a mãe adotiva batendo a porta, o pai fingindo não ver, os jantares silenciosos em que ninguém perguntava nada sobre o dia dela. E depois Emma, o desenho com o coração, o peso da menina no colo naquela madrugada.

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