O carro estacionou na frente da mansão e Emma ficou olhando pela janela por alguns segundos antes de sair. A fachada era diferente, muito mais clara agora, pintada de um branco que refletia o sol da tarde. O portão de ferro novo brilhava como se tivesse saído da embalagem naquela manhã. Mas o que chamava atenção dela era o cheiro. Antes, sentia que a casa tinha um odor velho de madeira úmida misturado com perfume barato, sempre impregnado no ar. Agora cheirava a tinta fresca e móveis novos. Não parecia a mesma casa.
Juan abriu a porta para ela e estendeu a mão. Emma desceu devagar, arrastando os tênis no piso de pedra. Ayla vinha logo atrás, com a barriga enorme, uma das mãos apoiada nas costas. Emma observava cada movimento dela, a respiração curta, os pequenos suspiros. Queria ajudar, mas não sabia como.
— Você está bem, Ayla? — Emma perguntou, preocupada.
— Estou sim, querida. Só um pouco cansada — Ayla respondeu, forçando um sorriso.
Entraram juntos. O hall estava iluminado demais, lustres novos pendendo do teto. Tapetes sem manchas, paredes sem rachaduras. Emma olhou para eles e sorriu, tentando parecer feliz também. Mas, por dentro, sentiu um aperto estranho. Como se aquela casa não fosse dela, como se tivesse sido reconstruída para o bebê que ainda nem tinha nascido.
Subiram as escadas. No segundo andar, Ayla parou em frente a uma porta pintada de azul claro. Girou a maçaneta com cuidado, como se estivesse abrindo um cofre precioso. Emma entrou atrás deles.
O quarto do bebê.
As paredes eram decoradas com adesivos de pequenas nuvens. Um berço branco ocupava o centro, coberto por um mosquiteiro leve, quase transparente. Havia bichinhos de pelúcia cuidadosamente arrumados em uma prateleira, uma cômoda cheia de roupinhas dobradas, um tapete macio em formato de estrela. Até o cheiro era diferente: talco misturado a madeira nova.
Emma mordeu o lábio. Sentiu que aquele quarto tinha mais carinho do que o dela. O quarto dela era bonito, sim, mas não tinha sido montado assim, com tanto cuidado. Ninguém havia escolhido a cor da parede pensando nela, nem comprado cortinas novas só para recebê-la.
— O que você acha, Emma? — Juan perguntou, olhando para a filha.
— É bonito — ela respondeu, mas a voz saiu baixa, quase um sussurro.
Ayla, emocionada, acariciou o berço. Juan, ao lado, sorriu com os olhos úmidos.
— Vamos fazer um ótimo quarto para o seu irmão — Ayla disse, tentando transmitir entusiasmo.
Emma não disse nada. Ficou parada, mexendo na ponta da blusa, fingindo observar os detalhes. Mas por dentro a pergunta já pulsava: “Será que ainda vou caber aqui?”.
À noite, no jantar, o assunto voltou à tona dentro dela. A mesa estava farta, Ayla tinha insistido em preparar algo simples, mas gostoso: arroz soltinho, frango assado com batata e uma salada colorida. Emma comeu em silêncio, o garfo batendo de leve no prato. Juan puxava conversa, contava alguma história do trabalho, mas Emma só ouvia metade.
— E então, Emma, você se lembrou de como foi a nossa última viagem? — Juan perguntou, tentando animar a filha.
— Hm, sim... — Emma respondeu distraidamente, olhando para o prato.
De repente, soltou sem pensar:
— Vocês vão gostar menos de mim quando o bebê nascer?
O garfo de Ayla caiu no prato, fazendo um barulho metálico. Juan engasgou com a água, tossiu.
— Como assim, filha? — ele perguntou, tentando soar tranquilo.
Emma apertou as mãos no colo.
— É que... ouvi as pessoas falando. Dizem que eu não sou sua filha de verdade, que eu sou filha do tio Ryan.
Um silêncio pesado tomou a sala. Ayla fechou os olhos devagar, como se uma faca tivesse atravessado seu peito. Juan respirou fundo, encostou o garfo no prato, tentando encontrar as palavras.
— Emma — disse, a voz firme mas baixa. — Quem te disse isso?
— Não importa. Eu só... eu só queria saber se você gosta menos de mim por causa disso.
O coração de Juan bateu descompassado. Por dentro, um nó se formava. Os olhos claros de Emma, os cabelos loiros que lembravam tanto o irmão... tudo era um lembrete cruel. Mas nada, absolutamente nada, diminuía o amor que sentia por ela.
Ele se levantou, deu a volta pela mesa e se ajoelhou ao lado da filha. Segurou as mãos dela com força.
— Ouve bem, minha menina. Você é minha filha. Sempre foi. Não existe gostar menos, entende? Eu te amo do mesmo jeito que amo o bebê que vai chegar.
Emma olhou para ele, os olhos cheios de lágrimas.
— Mas parece que vocês amam mais ele... o quarto dele é mais bonito, a casa foi toda arrumada...
Juan respirou fundo. Sentiu uma pontada de culpa. Olhou para Ayla, que chorava em silêncio.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O Viúvo e a Babá