As mãos de Juan nunca tremeram. Nem quando segurou a arma pela primeira vez, nem quando assinou contratos que mudariam destinos de famílias inteiras, muito menos quando enfrentou o próprio irmão em discussões que acabaram manchando de vez a memória da família deles. Mas agora, sentado na beira da cama, olhando o quarto iluminado pela luz amarela do abajur, ele percebeu que tremia. Não de frio, mas de medo.
Ayla dormia ao seu lado, o corpo cansado e pesado pela gravidez. A respiração dela tinha um ritmo irregular, às vezes curta, às vezes funda, como se cada suspiro fosse uma luta contra o próprio desconforto. A barriga enorme se erguia sob o lençol, e Juan, deitado de lado, estendeu a mão com cuidado, encostando os dedos naquele peso de vida. O bebê se mexeu, uma pequena onda percorrendo a pele de Ayla, e ele puxou o ar com força, como se não estivesse pronto para sentir aquilo.
Ele sempre foi o homem do controle. O que planejava, o que sabia como agir, o que media forças com todos à sua volta e quase sempre vencia. Mas agora… como se controla um coração que vai nascer? Como se garante que não vai falhar?
Levantou-se em silêncio e caminhou até a janela. A mansão, reconstruída depois do incêndio e da explosão, tinha cheiro de novo, mas nos cantos ainda existia uma lembrança amarga, um sussurro das paredes antigas. Ele olhou para o jardim, agora bem cuidado, e pensou em quantas vezes queria que seu pai tivesse ali, ensinando tudo que ele sabia sobre jardinagem. Juan jurou que jamais morreria e deixaria Emma e aquele bebê assim. Sentindo falta de um pai que se foi. Mas o juramento pesava.
Ele olhou para as próprias mãos. Grandes, firmes, as mesmas que já bateram na mesa em discussões, as mesmas que empurraram Ryan uma vez, anos atrás, numa briga que quase terminou em sangue. Essas mãos agora precisavam aprender outro ofício: o de segurar sem machucar, o de guiar sem dominar, o de proteger sem sufocar.
Um barulho suave fez com que ele se virasse. Emma estava parada na porta, de pijama, os cabelos bagunçados.
— Pai… — ela sussurrou. — Posso dormir aqui?
Ele assentiu de imediato, abrindo espaço na cama. A menina correu e se enfiou entre ele e Ayla, colando-se ao peito do pai. Juan a abraçou, sentindo a fragilidade daquele corpo pequeno.
— Não consegue dormir? — perguntou.
Emma deu de ombros, evitando olhar nos olhos dele.
— Fico pensando no bebê. Se ele vai gostar de mim.
Aquela frase atravessou Juan. Ele ajeitou o cabelo dela com a mão, sentindo os fios finos escorrerem entre os dedos.
— Emma, ouve bem. Quem tem que gostar somos nós. Ele é que vai aprender com você. Você vai ser a irmã mais incrível do mundo, vai ensinar tudo o que sabe.
Ela levantou o rosto, ainda desconfiada.
— E você… vai continuar me levando na escola?
Juan riu baixo, beijando a testa dela.
— Todos os dias. E se alguém falar alguma besteira, eu vou estar lá para te defender.
Emma suspirou, relaxando nos braços dele. E, pela primeira vez naquela noite, Juan sentiu que talvez estivesse fazendo alguma coisa certa.
Depois que ela adormeceu, ele ficou acordado, os olhos fixos no teto. Pensava na promessa que fizera a si mesmo: não ir embora como seu pai. Mas a sombra ainda o perseguia. Cada vez que erguia a voz, mesmo em pequenas discussões, o medo vinha: e se estivesse repetindo o ciclo?
No fundo, ele sabia que amar também era um risco. Amar era se colocar vulnerável, deixar que a vida arrancasse pedaços seus sem aviso. O bebê que estava prestes a nascer não só o faria pai de novo. O obrigaria a se reconstruir inteiro, sem máscaras, sem muros.
Quando o sol começou a nascer, iluminando a janela, Juan olhou mais uma vez para as próprias mãos. Firmes, fortes, calejadas de batalhas. Mas, agora, precisavam aprender a ser abrigo.
Ele fechou os olhos e prometeu em silêncio: não falharia. Não dessa vez.
***
Na manhã seguinte, o cheiro do café fresco invadiu o ar, e Juan se levantou da cama, ainda com a sensação de que precisava fazer mais. Ele se dirigiu à cozinha, onde Ayla já estava de pé, mexendo em uma panela.
— Bom dia, amor — disse Juan, aproximando-se e envolvendo-a em um abraço.
— Bom dia! — Ayla respondeu, sorrindo. — Dormiu bem?
— Melhor agora que estou acordado aqui com você — ele brincou, mas a preocupação ainda estava presente em seu olhar.
— O que foi? Você parece pensativo — Ayla notou, virando-se para ele.
— Só pensando em como ser um pai melhor. Como fazer tudo certo dessa vez — Juan confessou, olhando para as mãos novamente.

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