Entrar Via

O Viúvo e a Babá romance Capítulo 191

O relógio da cozinha marcava 23h47 quando a porta da frente se abriu. Juan entrou sem muito barulho, tirou os sapatos e deixou o paletó sobre a cadeira mais próxima. O cheiro do jantar frio ainda pairava no ar, arroz grudado na panela, feijão endurecido na travessa. Na mesa, um prato coberto com filme plástico esperava por ele. O mesmo prato que esperava há semanas.

Ayla estava sentada no sofá, as pernas inchadas apoiadas numa almofada. A televisão ligada no mudo, só a luz piscando no rosto dela. Os olhos fixos em nada.

— Cheguei — ele disse baixo, quase automático, enquanto afrouxava a gravata.

Ela não respondeu. Apenas ajeitou a barriga enorme com a mão e virou o olhar para ele, devagar, com uma calma que doía mais que grito.

— Você chegou — repetiu, mas não era saudação. Era acusação.

Juan suspirou, passou a mão pelos cabelos e foi até a cozinha, tentando escapar da tensão. Abriu o prato, pegou um garfo, mas a comida já estava fria demais para enganar o estômago. Ele empurrou o prato para o lado.

— Eu tentei avisar que ia atrasar. Tive reunião até tarde, você sabe como é…

— Reunião. Sempre reunião. — A voz dela quebrou a sala inteira. — E eu? Eu sou o quê? Agenda vazia?

Ele fechou os olhos, respirou fundo. A paciência que tinha nos negócios parecia nunca caber em casa.

— Ayla, não começa, por favor.

— Não começa? Eu passo o dia inteiro sozinha, com essa barriga pesando, com Emma perguntando por que o pai não vem jantar. Você chega quase meia-noite e me pede pra não começar?

Ele largou o garfo na pia com força, o barulho metálico ecoou.

— Eu tô fazendo isso por vocês! Por essa casa, pelo bebê, por Emma! Você acha que eu gosto de sair de lá moído todo dia?

Ela se levantou devagar, com dificuldade, mas não perdeu a firmeza no olhar.

— O que eu acho, Juan, é que você não está aqui. Eu tô grávida, eu tô apavorada, eu tô cansada. E você só sabe dizer que faz tudo por nós. Eu não quero só as sobras do seu tempo. Eu quero você.

A palavra ficou no ar como pedra. Ele não soube responder de imediato. E nesse intervalo de silêncio, Ayla subiu as escadas. O barulho de zíperes começou logo depois.

— O que você tá fazendo? — ele perguntou, subindo atrás dela.

— Arrumando minhas coisas.

Juan parou na porta do quarto, vendo a mala aberta em cima da cama. As roupas dela, dobradas de qualquer jeito, as mãos trêmulas tentando pegar o que podia.

— Você tá louca? Vai sair assim, de madrugada? Grávida desse jeito?

Ela virou de frente, o rosto vermelho, as lágrimas escorrendo.

— Eu prefiro sair assim do que continuar aqui, me sentindo sozinha com você do lado.

A frase cortou mais fundo que qualquer ofensa. Juan caminhou até a cama, fechou a mala com força. O som do zíper engolindo a roupa foi duro, mas ele manteve a mão firme sobre a mala, não deixou que ela puxasse.

— Você não vai a lugar nenhum, Ayla.

— Me solta, Juan! — ela bateu no braço dele, mas sem força, mais raiva do que impacto. — Eu não quero ser a mulher que implora por atenção, que fica esperando prato frio na mesa. Eu não quero repetir a vida da sua mãe, da minha mãe, dessas mulheres que só sabiam esperar!

A respiração dele ficou pesada. A imagem do pai atrasado, da mãe encolhida na poltrona, voltou como uma lembrança suja. Ele sentiu o gosto amargo da herança que carregava.

— Eu não sou meu pai — disse entre os dentes.

— Então me prova! — ela respondeu, chorando, a barriga subindo e descendo com a respiração descompassada. — Porque do jeito que tá, eu tô me sentindo exatamente como minha mãe se sentia. E eu jurei que nunca passaria por isso.

O silêncio veio como murro. Ele olhou para ela, desarmado, as mãos ainda sobre a mala. O choro dela se transformou em soluços baixos, quase infantis.

Juan deixou a mala de lado e a puxou para si. Ela resistiu por um segundo, depois cedeu, o corpo pesado encostando no dele. Ele sentiu o cheiro familiar do cabelo dela, o calor da pele molhada de lágrimas.

— Me desculpa. — A voz dele saiu baixa, áspera. — Eu não sei fazer isso direito. Eu tô com medo, Ayla. Medo de não ser suficiente, de não saber ser pai, de errar com você…

Ela se agarrou nele, as mãos fechadas nas costas da camisa.

— Eu também tô com medo, Juan. Só que eu não posso carregar esse medo sozinha.

O nosso preço é apenas 1/4 do de outros fornecedores

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: O Viúvo e a Babá