Emma estava sentada no tapete fofo do quarto novo, abraçada ao ursinho de pelúcia que insistia em carregar por toda a casa. O quarto era bonito demais para ser real, parecia capa de revista: paredes em tom azul claro, nuvens pintadas no teto, móveis brancos impecáveis, cada detalhe escolhido com cuidado por Ayla e Juan. Mas, para Emma, aquilo tudo tinha gosto de ameaça.
Por mais que a garota tentasse tirar aquilo da mente, a sensação persistia.
Ela olhava para o berço como quem olha para um inimigo. Tinha certeza de que, quando aquele bebê chegasse, todo o riso, todo o colo, todo o “boa noite, princesa” que recebia antes de dormir seriam entregues a ele. Às vezes, sentia vontade de entrar no berço antes, só para marcar território. Outras, queria chutar forte o móvel, ver se aquele mundo planejado desmoronava.
Ayla entrou de mansinho, a barriga enorme ocupando o espaço antes dela. Carregava uma pilha de roupas minúsculas, dobradas com exagerado cuidado.
— Olha isso, Emma… tão pequenininho que parece de boneca.
Emma encolheu os ombros, sem olhar muito.
— Boneca eu já tenho.
Ayla riu, mas o riso saiu meio cansado, carregado.
— Não é a mesma coisa. Ele vai precisar de você, sabia? Vai precisar de uma irmã que ensine, que brigue, que proteja.
Emma virou o rosto, olhos marejados que se recusavam a desabar.
— E quem vai me proteger?
Ayla parou. Sentou-se no chão, as roupas ainda nas mãos, e respirou fundo.
— Eu vou. Sempre vou. E o papai também. Nada disso muda.
Emma balançou a cabeça devagar, a voz embargada.
— Mas eu sou filha do tio Ryan. Se for verdade… então eu já sou menos.
As roupas escorregaram do colo de Ayla. Ela levou as mãos ao rosto por um instante, como se precisasse se recompor rápido. Depois, puxou Emma para perto, abraçando com força.
— Ouve o que eu vou te dizer. Você é filha do Juan. Você é minha filha. Do jeito mais profundo que existe. Não importa quem foi teu pai, não importa o sangue. O que importa é que eu escolho você, todos os dias.
Emma deixou escapar um soluço, escondendo o rosto no peito de Ayla Havia raiva ali, havia medo, mas também um alívio silencioso.
Naquela tarde, Amanda apareceu com Miguel. Eles chegaram de mãos dadas, o que causou certo estranhamento a Juan. Não que ele julgasse, mas havia algo desconfortável em ver Amanda, antes tão quebrada pelo luto, agora tentando se reconstruir com outro.
Miguel foi logo puxado por Emma, que adorava a atenção dele. Ele fazia vozes engraçadas, mostrava truques bobos de mágica, tirava moedas de trás da orelha. A menina ria alto, riso verdadeiro, o tipo que não dava para fingir. Ayla assistia de longe, aliviada, aproveitando para descansar um pouco no sofá.
Amanda pediu um instante com Juan.
— Só nós dois. É rápido.
Ele assentiu, levando-a até o escritório da mansão. Era uma sala que ainda cheirava a tinta nova, os móveis escolhidos às pressas depois da reconstrução. Amanda fechou a porta devagar, as mãos trêmulas segurando um envelope grosso.
— Eu achei isso quando estava me desfazendo das coisas do Ryan. — Ela hesitou, mordendo o lábio. — Tinha cartas… várias entre ele e a Alison. Mas também tinha essas aqui.
Entregou o envelope. Juan o pegou com cuidado, como quem segura algo que pode queimar. O silêncio pesou entre os dois.
— Parecem quase uma confissão — Amanda continuou, a voz baixa. — Um pedido de desculpa. Quase um testamento escrito antes do tempo. Eu não tive coragem de ler tudo. Achei que devia ser você.
Juan respirou fundo, o peso do envelope latejando na mão. Por um instante, pensou em recusar. Depois, apenas assentiu.
— Obrigado.
Amanda se virou para sair, mas parou na porta.
— Juan… não deixa isso destruir você também.
Ele não respondeu. Quando ela saiu, ficou sozinho no escritório, apenas o barulho do relógio na parede preenchendo o espaço. Abriu a primeira carta com dedos trêmulos. Reconheceu de imediato a letra do irmão. Palavras de arrependimento, de culpa, de amor deturpado. Uma tentativa de se justificar e, ao mesmo tempo, confessar:
"Juan,
Não sei se algum dia você vai ler isso. Talvez rasgue antes de terminar, talvez jogue no fogo sem olhar duas linhas. Mas mesmo assim eu preciso escrever, porque o silêncio aqui dentro me mata mais do que qualquer sentença poderia.
Eu estraguei tudo. Não existe palavra que consiga limpar o que fiz, e ainda assim eu tento, porque a única coisa que me resta é pedir perdão. Não um perdão de conveniência, não um que apague o passado, eu sei que nada apaga. Mas um perdão que me permita acreditar que, de alguma forma, você ainda lembra quem eu fui antes de me perder.
Eu penso muito na gente criança, dividindo o mesmo quarto, brigando pelo cobertor, inventando códigos secretos para fugir das broncas do pai. Você sempre foi o melhor de nós dois, Juan. Sempre. Eu era a sobra, a sombra, o que ficava tentando acompanhar o seu passo. E no meio dessa corrida torta, eu tropecei. Fiz escolhas que queimaram tudo o que havia de bom entre nós.
O que aconteceu com Emma, com Amanda, com Alison… não tem defesa. Eu poderia escrever mil desculpas, culpar a fraqueza, a carência, a mania de querer provar que eu também merecia ser amado. Mas a verdade é que eu traí você, o único que nunca deveria ter traído.
E o pior é que, mesmo afundando, eu te amava. Te amava mais do que a própria vida. Cada vez que te vi sorrir, cada vez que te vi conquistar o que parecia inalcançável, parte de mim queria ser você. Mas a outra parte só queria estar ao seu lado, como no começo, quando bastava a gente contra o mundo.
Eu sei que o amor que eu senti se deformou, se tornou uma prisão. O ciúme me corroeu, a inveja me cegou. E ainda assim, embaixo dessa crosta podre, havia só o irmão que te olhava como herói. O irmão que, se pudesse voltar, daria tudo para que você nunca tivesse sentido a dor que eu causei.
Se eu pudesse trocar, eu trocaria. Pegaria sua dor para mim, carregaria no peito, mesmo que me destruísse. Porque nada me dói mais do que ter visto seus olhos me olhando como inimigo, quando por dentro eu só queria que você acreditasse que eu ainda era aquele garoto que ria do seu lado no quintal.
Não espero que me perdoe. Talvez me odeie até o fim, e eu vou merecer. Só precisava que você soubesse disso: eu te amei mais do que qualquer outra coisa. Mesmo errando, mesmo mentindo, mesmo caindo no pior de mim, o amor por você nunca deixou de existir.
Seu irmão, sempre,

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