Juan se encontra completamente confuso ao encontrar, mais uma vez, e antes de vinte e quatro horas, aquela delegada.
Ele a encara em sua porta e a expressão que traz em seu rosto deixa Juan em alerta.
—O que está fazendo aqui?— ele pergunta outra vez, mesmo que soe um tanto rude.
Diana apenas levanta o queixo em sua direção e discretamente afasta o largo casaco em sua cintura, revelando também discretamente o seu distintivo.
—Senhor Barichello, descobrimos alguns assuntos adicionais sobre o seu caso. E eu gostaria de fazer algumas perguntas.— Diana fala.
—E não podia esperar até amanhã?— ele pergunta, irritado e não consegue esconder sua insatisfação.
—Temos um acordo, não temos? Você me ajuda e eu o ajudo.— Diana relembra a Juan a conversa anterior que tiveram.
Juan, ainda que relutante, se afasta e a convida a entrar.
—Delegada Diana, essa é a...— Juan começa a falar, mas no mesmo instante se cala.
Ele olha para ambos os lados procurando a Ayla, prestes a apresenta-la a sua conterrânea, mas Ayla simplesmente evaporou, deixando Juan extremamente confuso.
—O quê?— Diana pergunta quando percebe o silêncio de Juan.
—Minha casa.— Ele fala rapidamente, não desejando falar mais do que necessário. —Pode começar.
Juan apressa a delegada, enquanto aponta o sofá para que se sentasse. Diana faz o que ele pediu, mas antes o encara de cima a baixo.
—Senhor Barichello, você poderia pôr uma camisa, por favor. Não me sinto confortável falar com o senhor não vestido dessa maneira.
Juan a encara de cima a baixo também, e se segura pra não falar da ironia de vê-la invadindo sua casa e intimidade e dizendo como ele se portaria. No entanto, Juan apenas assente e pede licença enquanto sai em busca de uma camisa.
Durante toda aquela cena, Ayla se encontrava atrás das escadas e se posicionava discretamente onde poderia ouvir tudo e não ser vista nem um pouco. E ela quase cai na gargalhada quando ouviu Diana pedir aquilo. Como se ela tivesse alguma dignidade ou respeito.
Mas Ayla percebe que existe outra razão por trás daquele pedido, porque assim que Juan sai, Diana abre sua bolsa. E Ayla não tem tanta certeza, mas acredita tê-la visto implantar uma espécie de escuta por baixo da mesa de centro.
—Sua vadia.— Ayla murmura apenas, sabendo que iria arruinar seja lá o que Diana estivesse planejando.
—Então, podemos?— Juan anuncia sua volta e dessa vez, senta-se na poltrona próximo ao sofá em que Diana estava.
A delegada apenas assente, e então começa a perguntar:
—Você era pobre. Muito pobre. E ainda estou tentando entender como construiu tudo isso aqui.— Ela aponta pra mansão. —E eu já sei que você ganhou na loteria, mas ainda assim, existe algo que não b**e.
Juan se encosta na poltrona, despreocupadamente encara aquela mulher, lidando com a pergunta que ele já ouvira centenas de vezes.
—Não acha que eu conseguiria manter um padrão de vida bom pra mim, e pra minha família por tanto tempo, com apenas 350 milhões de dólares.— Juan afirma ainda que sarcasticamente. —Provavelmente, acredita que me envolvi com alguma máfia e tráfico e só assim meu dinheiro rendeu.
Diana percebe a ironia em sua voz e acaba reconhecendo a estupidez de sua pergunta.
—Mas você já parou pra pensar que eu possa ter simplesmente investido em algo? Já ouviu falar sobre a minha empresa, acredito.— Diana apenas assente. —Talvez se você for investigar os dados e todo setor financeiro da empresa, talvez assim, a história bata.
Diana assente e anota algo em seu bloco de notas.
—Eu só precisava saber de sua versão, senhor Barichello. E honestamente, eu não gosto do seu tom. Mas vamos continuar.
Juan precisa se esforçar pra não revirar os olhos e se pergunta realmente sobre a necessidade daquela visita em sua casa naquele horário.
—Você e a Alison construíram tudo isso juntos. E soube que viviam uma relação perfeitamente bem. Até mesmo quando tiveram sua filha, enquanto ainda estavam vivendo em situações carentes. No entanto, assim que ganhou na loteria, eu soube por testemunhas que algo entre a dinâmica de vocês mudaram. O dinheiro teve alguma coisa a ver com isso? Houve alguma ganância que não gostava da ideia de dividir tanto dinheiro com alguém?
Ouvir tudo aquilo, fez acender uma espécie de luz vermelha em Juan. Um gatilho intenso que o fez se agitar e lutar só pra não surtar e ser preso por desacato. No entanto, ouvir algo tão imbecil e desumano, fazia seu sangue esquentar. Como poderia, pessoas que jamais viveram algo em sua pele, tomar conclusões precipitadas sobre uma vida que jamais os pertencera?
—Delegada, existe realmente alguma coisa que a traz aqui esta noite?— Juan começa. —Porque discutir crises matrimoniais não fazem parte da sua alçada, eu acredito.
Cada segundo parecia mais difícil pra Juan conseguir se controlar diante daquela situação e Diana percebe. E é quase perceptível o pequeno sorriso que surge em seu rosto, como se aquela situação, de algum modo, a divertisse.
—Tudo bem. A novidade é que descobrimos mais sobre a causa da morte da Alison. Ou melhor dizendo, a ausência disso. Ainda estamos em dúvida sobre a sua etiologia. Portanto, a causa da morte continua sendo suspeita.— Diana explica.
—Isso não é novidade alguma.— Juan afirma, impassível. —Vocês me falaram exatamente a mesma coisa hoje de manhã.
—Mas o que não falamos foi que encontramos infecções do trato respiratório inferior da Alison através da autopsia.— Diana acrescenta. —O que me leva a pensar, o que Alison ingeriu ou foi forçada a ingerir horas antes que antecedeu sua morte.
Juan se forçou a não deixar que nada aquilo o afetasse. Não poderia se permitir sentir, ou reagir diante daquela nova informação. Porque a verdade era que o fantasma de Alison, de quem ela havia sido pra ele, o seguiria para sempre.
—Isso você deveria perguntar a ela.— Juan não evita responder de modo cruel. —Onde você quer chegar, delegada?
—Onde estava na noite de 18 de janeiro?— Diana pergunta.

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