Por mais que Juan estivesse certo do sentimento que vinha queimando em seu peito nas últimas semanas, aquela pergunta de Ayla o deixou em alerta.
Havia algo no olhar dela, uma centelha de esperança, uma devoção silenciosa que o fez parar e refletir. Era como se ele visse em Ayla um reflexo de si mesmo, o tipo de confiança que ele compartilhara com Alison, o mesmo brilho nos olhos quando você entrega tudo de si para alguém e espera que ela faça o mesmo por você.
Era exatamente assim entre ele e Alison. O tipo de compreensão silenciosa e a ideia de um amor incondicional. Mas tudo não passou de ser apenas isso: uma ideia de algo. O final fora trágico e ele temia reviver aquele filme outra vez.
—Juan— chamou Ayla de repente, quebrando o silêncio que pairava entre eles —Você está bem?
Juan balançou a cabeça rapidamente, tentando voltar à realidade e afastar seus devaneios.
—Me desculpe, eu...— Juan pigarreou, parecendo confuso, exausto. —Ayla, você se incomodaria se eu fosse deitar?
Ayla entreabriu os lábios no mesmo instante, a testa franzida, um tanto desnorteada.
—O quê?— ela acabou por sussurrar.
Juan se levantou, pressionando os próprios olhos com força, sentindo sua covardia tomar conta dele mais uma vez.
—Foi um dia extremamente longo para nós dois— explicou, finalmente.
Ele era incapaz de encará-la nos olhos, porque sentia que se fizesse isso, ele cederia aos sentimentos que o queimavam o peito e se entregaria a outro abismo desconhecido.
—Você precisa descansar.— Juan volta a falar. —E amanhã, ligue para sua família e fique ciente do que está acontecendo.
Antes que Ayla pudesse responder qualquer coisa, Juan simplesmente saiu do seu anexo, deixando um vazio doloroso no espaço e dentro dela.
Ayla engoliu em seco, observando-o se afastar, sem poder evitar a sensação do fato de que ele não havia respondido à sua pergunta. Juan simplesmente se afastava dela, quando tudo que ela queria era a sua companhia.
—Está tudo bem— murmurou para si mesma, a voz embargada. —É só um dia difícil, vai ficar tudo bem.— Mas ela sabia que estava mentindo para si mesma.
A verdade era que não era apenas um dia difícil, era uma vida difícil. E ao revisitar cada lugar sombrio e doloroso do seu passado, Ayla desabou em lágrimas.
Lembrou do abandono silencioso que a seguira durante toda a infância, da traição da sua irmã, da decepção com seu ex noivo, a renegação de Ryan, o silêncio de Juan, o sequestro... O mundo de Ayla não se passava de um devaneio cruel e doloroso.
Por isso, seus soluços foram sua única companhia durante toda aquela madrugada.
E enquanto Ayla lentamente se despedaçava, Juan seguia em direção à mansão, um vazio doloroso ocupando todo o seu peito.
—O que diabos aconteceu aqui, Juan?— perguntou Ryan assim que Juan pisou em seu escritório. —E por que você está com essa cara?
Juan respirou fundo e em silêncio, encheu seu copo de uísque e se jogou no sofá após tomar o álcool puro que rasgou sua garganta.
—Ela sabe— foi tudo o que ele disse. —Contei a Ayla sobre a Alison.
Ryan se surpreendeu imediatamente com aquela revelação. Ele se sentou na poltrona em frente ao sofá e encarou seu irmão.
—E por que fez isso? Por que revelou algo tão íntimo a ela?
Juan bufou, sabendo exatamente o que Ryan queria ouvir, e odiando que seu irmão estivesse certo mais uma vez. Principalmente diante daquela situação.
—Ela estava apenas... perto de mim em um momento em que precisava desabafar— disse Juan, mas não havia verdade em suas palavras.
Ryan acabou sorrindo e então se jogou na poltrona, um sorriso no rosto.
—Por que diabos você está sorrindo?— perguntou Juan irritado, tentando esconder a verdade.
—Você sabe—, respondeu Ryan ainda sorrindo.
—O que você quer ouvir?— gritou Juan, seu temperamento explosivo vindo à tona. —Que você estava certo o tempo todo?
Ryan parou de sorrir de repente. Ele viu a raiva no seu irmão, mas também viu o medo, e disso, ele compreendia.
—Não quero estar certo, Juan—, disse seriamente. —Só quero que você me diga que vai arriscar dessa vez. Que vai se permitir seguir em frente.
Juan fechou os olhos com força, sentindo sua cabeça prestes a explodir.
—Eu não posso fazer isso— disse finalmente.
—Por que não? O que você tem a perder?— insistiu Ryan.
—Nada— Juan murmurou. —Não tenho nada a perder, porque tudo já foi tirado de mim.
—Juan, a Ayla não é a Alison— disse Ryan novamente.
Juan sorriu sem humor e se levantou do sofá, servindo-se mais uma dose de uísque.
—Você sabe disso. Não pode parar toda a sua vida porque uma pessoa não soube como valorizá-lo.
—Você não entende, não é?— explodiu Juan. —Não foi uma pessoa que não soube me valorizar, foi a pessoa.
Juan estava gritando a plenos pulmões, deixando toda a sua raiva e revolta saírem de dentro dele.

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