Leonardo
O primeiro sentido que voltou foi a audição.
Não o tato, nem a visão. Apenas o som.
A princípio, era um zumbido distante, uma estática baixa que me envolvia como um peso invisível. Mas, conforme minha mente emergia do torpor, as vozes começaram a se destacar.
Vozes conhecidas.
"Por quanto tempo ele ainda vai ficar assim?"
Amber.
Seu tom era fraco, quebradiço. Nunca a ouvi falar assim. Parecia destruída.
"O médico disse que depende. A droga que usaram nele não era comum, pode levar mais algumas horas para o efeito passar completamente."
Magnus.
A voz dele estava mais grave do que o normal, carregada de cansaço e preocupação.
"Mas ele está estável, não está?"
Tomaso.
"Está." Magnus suspirou. "Mas ainda não sabemos todos os efeitos colaterais. Ele ficou muito tempo desacordado, pode haver sequelas neurais. Martina não estava pronta para perder."
"Ah meu Deus!" Meu pai parecia destruído. O que será que aquela vagabunda fez a mais.
"Mas ele pode ficar completamente bem, não é?" Amber dizia em um fiapo de voz e aquilo me destruirá ainda mais. Eu não queria que ela se sentisse assim.
"Só quando ele acordar que saberemos, Amber. Agora depende exclusivamente dele."
"Por favor, Leo. Volta pra mim." A voz de Amber veio embargada. "Você precisa acordar."
Senti um peso sobre minha mão.
Ela estava segurando meus dedos, seus toques trêmulos, como se tivesse medo de me soltar.
Eu precisava abrir os olhos. Precisava falar com ela.
Mas meu corpo não obedecia.
Meus músculos estavam pesados, minha cabeça latejava, e os resquícios da droga ainda corriam pelo meu sistema como correntes invisíveis.
Respirei fundo, forçando os dedos a se moverem. A ponta do meu indicador mexeu levemente.
Amber não percebeu.
"Ele parece tão pálido…" Ela sussurrou, e sua voz falhou no final.
"Amber, você precisa descansar." Magnus insistiu.
"Eu não vou sair daqui."
"Você já tomou dois sedativos. Sua pressão não está normal, seu corpo está sobrecarregado."
"Eu não me importo."
Mas eu me importava. Minha condição estava afetando a mulher que eu amava e consequentemente nossos pequenos que cresciam em seu ventre.
Minha Amber… minha mulher estava no limite.
Por minha culpa.
Me obriguei a mover os lábios, a soltar qualquer som. Não consegui.
"Leonardo…"
A voz dela ficou ainda mais fraca, e a dor em seu tom perfurou meu peito como uma faca.
Eu precisava reagir.
Forcei minha mão a se fechar em torno da dela.
Ouvi o som de um suspiro engasgado.
"Magnus!" A voz dela explodiu. "Ele… ele se mexeu!"
O barulho das cadeiras arrastando o chão me atingiu, seguido da presença intensa de pessoas se inclinando sobre mim.
"Leonardo?"
A voz de Amber estava desesperada.
Pisquei novamente, forçando minha visão a focar. O teto branco já não parecia mais uma mancha disforme. As luzes eram fortes, mas não o suficiente para me cegar.
Minha cabeça pesava, como se estivesse submerso em algo espesso, mas aos poucos os sons começaram a fazer sentido, os rostos ao meu redor ficando mais nítidos.
Amber.
Seus olhos estavam vermelhos e inchados, seu rosto pálido, mas ainda assim, ela era a coisa mais bonita que eu já vi. Ela apertava minha mão com força, os dedos frios em contraste com minha pele quente.
Virei um pouco o rosto, piscando mais algumas vezes. Mais figuras se formaram à minha frente.
Magnus. De braços cruzados ao lado da cama, seu olhar duro, mas com um traço de alívio evidente.
"Quando seus batimentos cardíacos se alteraram, nós entramos." Magnus respondeu. "Chegamos pouco depois de Martina ter te dopado."
"Onde ela está?"
Amber desviou o olhar.
Magnus respirou fundo.
"Ela fugiu."
A fúria me atingiu como fogo puro.
"O quê?"
Tentei me erguer novamente, dessa vez com mais força, mas Magnus me segurou pelo ombro.
"Calma."
"Não me diga para ter calma!"
Amber me segurava pela mão com mais força agora, tentando me manter no lugar.
"Leonardo, por favor." Sua voz era suplica pura. "Você está apagado há três dias. Vá com calma."
Respirei fundo, fechando os olhos por um segundo.
"Três dias? Como isso aconteceu?"
Magnus bufou. "Ela sempre tem uma saída. A mulher é como um maldito fantasma. Quando invadimos o local, ela já tinha sumido. Nenhum rastro, nenhuma pista. Foi como se tivesse evaporado. Deve ter percebido nossa movimentação e aproveitou para correr."
Meu peito subia e descia rápido demais.
"Isso significa…" minha voz saiu cortante. "Que ela ainda está lá fora."
Ninguém respondeu.
Não precisavam.
Amber apertou minha mão com força.
E então o medo verdadeiro me atingiu.
Se ela ainda está livre… Amber e as crianças continuam em perigo.
Nada acabou.
O inferno estava ainda mais quente do que antes.

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