Leonardo
O peso das últimas palavras do médico ainda me esmagava quando ele limpou a garganta e perguntou:
"Senhor Martinucci, deseja ver suas filhas?"
Minha boca ficou seca. Meus pulmões pareciam ter sido esvaziados de todo o ar. Eu não conseguia falar, apenas assenti.
Minhas filhas.
Francesca. Sophie.
Tão pequenas, tão frágeis.
Me despedi dos meus pais com um olhar cansado e segui o médico pelo corredor. A cada passo, meu peito apertava mais. O medo rastejava pelo meu corpo como um veneno silencioso, me deixando mais pesado, mais tenso.
Paramos em frente a uma porta, e ele olhou para mim antes de continuar:
"Antes de entrarmos, preciso saber se já decidiram os nomes para a identificação."
Demorei um momento para entender.
Os nomes.
As pulseiras de identificação das minhas filhas estavam apenas com o nome de Amber.
Engoli em seco, minha voz saindo fraca, mas firme:
"A primeira a nascer é Francesca. A segunda, Sophie."
O médico assentiu com um pequeno sorriso. "Lindos nomes."
Ele passou as informações para uma enfermeira, que se afastou para fazer as identificações, e então me conduziu para uma pequena sala de esterilização.
"Precisamos minimizar ao máximo qualquer risco de infecção," explicou. "Bebês tão prematuros não têm defesas naturais. Todo cuidado é essencial."
Assenti novamente, embora minha mente estivesse longe dali.
Minhas mãos tremiam enquanto vesti a roupa esterilizada, ajustando a máscara sobre o rosto. Meu coração batia descompassado, carregado de um peso insuportável. Eu queria vê-las, precisava vê-las, mas ao mesmo tempo…
Eu não queria que fosse assim.
Minhas filhas não deveriam ter chegado ao mundo assim. Elas deveriam estar seguras na barriga de Amber, crescendo fortes, esperando o momento certo para nascer. Não agora. Não nesse caos.
Respirei fundo, tentando encontrar alguma força dentro de mim.
"Está pronto?" O médico perguntou.
"Não." Minha voz saiu honesta. "Mas eu preciso estar."
Ele apenas assentiu e abriu a porta para mim.
A UTI Neonatal era silenciosa, mas cheia de sons ao mesmo tempo. O bip dos monitores, o sussurro das enfermeiras, o zumbido baixo das máquinas de suporte à vida.
E então, eu as vi.
Duas incubadoras.
Meu peito apertou. Meu coração parou.
Me aproximei devagar, sentindo as pernas quase falharem. Meu corpo estava travado, como se minha mente tentasse me impedir de ver o que estava diante de mim. Mas eu continuei.
Francesca e Sophie eram… minúsculas.
Não chegavam nem a um quilo.
O corpo coberto por uma pele tão fina que parecia translúcida, os bracinhos frágeis, o peito subindo e descendo de forma irregular. Os pequenos rostos estavam cobertos por tubos, fios, sensores. Os olhos cobertos por uma máscara para impedir a claridade.
Meu Deus.
Minhas mãos se apertaram ao lado do corpo. O nó na minha garganta ficou mais forte.
Eu me aproximei mais e encostei a mão trêmula na incubadora.
"Oi, minhas pequenas." Minha voz falhou. "Aqui é o papai."
Elas não podiam me ouvir direito. Mas eu precisava falar.
"Eu queria tanto que as coisas fossem diferentes. Eu queria tanto que vocês estivessem seguras, dentro da mamãe, crescendo fortes. Mas agora vocês precisam ser fortes aqui fora, tá?"
Minha visão ficou turva com as lágrimas.
"A família inteira já ama vocês tanto. Bella está esperando para conhecer as irmãs, Louis quer carregá-las em seu carro elétrico, a nonna Rosa já deve estar planejando contar histórias para vocês. E a mamãe…"
"Me solta!" Gritei, me debatendo. "Ela precisa de mim! Minha filha precisa de mim!"
Os braços ao meu redor ficaram mais firmes, me puxando para trás enquanto eu tentava me libertar. Meus músculos estavam tensos, cada fibra do meu corpo me ordenava a lutar contra aqueles que me impediam de chegar até ela.
"Você não pode fazer nada agora!" Uma voz masculina irrompeu, mais firme, mais dura.
"O caralho que não posso!" rugi, tentando me livrar das mãos que me seguravam. Meus pés arrastaram contra o chão, meu peito arfava, minha visão estava turva de ódio, desespero, medo. "Me deixem entrar! ME DEIXEM ENTRAR!"
Mas ninguém me deixou.
Eu fui empurrado contra a parede, meus punhos batendo contra o concreto frio, um rugido de frustração explodindo da minha garganta.
Minha cabeça bateu contra a parede atrás de mim, minhas mãos deslizando pelo rosto, puxando meus cabelos, minha respiração errática. O ar parecia denso demais, pesado demais para ser puxado para dentro dos meus pulmões.
Minha filha estava morrendo.
Minha bebê.
A visão diante de mim ficou distorcida, minha mente me traindo, mostrando imagens de um caixão pequeno, de um enterro silencioso, de Bella perguntando por que a irmãzinha não voltava para casa.
Não.
NÃO!
Meu punho se fechou, e antes que qualquer um pudesse me impedir, acertei a parede com toda minha força. A dor explodiu pelos meus dedos, subindo pelo meu braço, mas eu não me importei.
Porque nada doía mais do que aquilo.
Nada doía mais do que não poder salvar minha filha.
Então, a porta da UTI se abriu.
O médico tirou a máscara devagar, seus olhos carregados de algo que eu não queria ver.
E então ele disse.
"Sinto muito."
O mundo ficou escuro.

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