Lorenzo Bianchi
Fiquei ali parado por longos minutos depois que a porta se fechou atrás do tio Matheu. O som ecoou dentro de mim como um veredito. E talvez fosse. Um julgamento necessário. Um pai defendendo sua filha, do jeito que eu deveria ter feito por nós dois desde o começo.
Meu pai voltou a sentar-se, mas percebi que ele não esperava mais nada de mim naquele momento. Não conselhos, nem justificativas. Só um movimento — qualquer sinal de que eu não ia continuar preso nesse mesmo ciclo de desculpas e omissões.
Levantei-me, ainda com os músculos tensos, e fui até a janela. A paisagem do jardim parecia a mesma de sempre, mas agora carregava outro peso. Como se tudo à minha volta estivesse em pausa, esperando a minha decisão. Esperando que eu deixasse de ser o garoto que fugia e virasse o homem que ficava. Que enfrenta. Que cuida.
Camille. Aurora. Duas mulheres tão diferentes. E, de certa forma, vítimas da minha covardia.
Camille não merecia o lugar de sombra onde eu a coloquei. Ela entrou na minha vida sem pedir espaço, mas eu abri a porta para ela num momento de desespero, querendo preencher o vazio sem encarar a dor. E isso… isso também era injustiça. Com ela. Comigo. Com a própria Aurora.
Eu sabia que precisava conversar com Camille. Ser honesto, mesmo que doesse. Porque agora eu entendia: amar alguém exige coragem. E coragem não é apenas lutar pelo que se quer — é também saber deixar ir o que não deve ser nosso.
Me virei para meu pai e assenti.
— Obrigado. Por… tudo. — foi tudo o que consegui dizer, mas ele entendeu. Apenas me olhou de quem viu um filho dar seu primeiro passo tarde, mas firme.
Subi as escadas sentindo o peso de cada degrau. A casa parecia cada dia mais silenciosa. Quando cheguei ao corredor, a porta do meu quarto estava entreaberta. Bati de leve antes de empurrá-la. Camille estava ali, colocando suas coisas de volta na mala.
Ela nem chorava. E isso me doeu mais do que qualquer lágrima.
— Camille…
Ela levantou os olhos. Séria. Cansada.
— Não precisa dizer nada, Lorenzo. Eu já entendi. Você a escolheu. Sempre foi ela.
— Mas eu preciso. Porque você merece isso. Merece respeito. Merece alguém inteiro. — respirei fundo, sentindo o nó na garganta. — E eu… eu não estou inteiro. E talvez nunca tenha estado, desde que deixei a Aurora. Desde que cheguei em Nova Iorque, uma parte de mim ficou aqui na Itália, com ela.
Ela sorriu com tristeza, fechando o zíper da mala.
— Eu sabia. Desde o começo. Mas fui teimosamente me enganando. Porque você era bom para mim, no seu jeito quebrado. Só que agora, eu não quero mais metades. — ela se aproximou e tocou meu rosto com uma leveza inesperada. — Espero que encontre um jeito de ser inteiro.- E, se não for com ela, que seja com você mesmo. Não espere que ela vá te receber de braços abertos, percebi que ela é uma mulher forte e vai rejeitar você pela metade ou por pensar que voltou para ela por sentir que tem algum tipo de obrigação.
— Lorenzo. O que faz aqui?
— Eu não vim te pedir nada. Nem perdão. Nem resposta. Nem uma chance. — falei, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. — Só vim dizer que… você estava certa. Sobre tudo. Que eu te amei errado. Que fugi. Que fiz escolhas ruins. E que magoei pessoas boas. Mas também vim dizer que quero mudar. Por mim. E se um dia você me deixar tentar de novo, eu quero estar pronto. Ser digno. Ser melhor. Ser o certo para você.
Ela não respondeu de imediato. Só me olhou. Um olhar profundo, calado, como quem avalia não as palavras, mas os passos. E eu sabia que não era o momento de forçar nada.
— Obrigada por vir até aqui. — foi tudo o que ela disse. — Mas não quero um relacionamento, próxima semana volto para Veneza, tenho alguns quadros para entregar na Madson d'Art. e tenho que finalizar. O Pietro, ficou de me ajudar, mas como os professores acharam melhor que descansasse. Aqui estou ainda entre telas e aquarelas, você me conhece, não consigo ficar longe dos meus desenhos.
— Quem é Pietro? — Ela sorri.
— Pietro Madson, é um colega da minha turma em Veneza, seus pais têm uma galeria muito famosa em Milão e pediram alguns quados e esculturas para próxima exposição e tenho que finalizar, faltam apenas alguns retoques.
— A Promessa Incompleta, também vai para essa galeria? Aurora, ela é nossa história.
— Lorenzo, aquele quadro não é nossa história, aquele quadro é as palavras não ditas, as mensagens não respondidas, as ligações não atendidas e enfim, é a ilusão quebrada quando você voltou com outra enquanto eu ainda te esperava. Então não o chamaria de a nossa história, chamaria da história que poderia ter sido.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Proibida para Mim: Apaixonado pela filha do meu amigo