Ava moura
A campainha tocou, e por um instante, fiquei parada no meio da sala, sentindo o peso daquele som. Eu sabia quem era. Sabia que essa conversa era inevitável, mas isso não tornava mais fácil encará-la. Suspirei, tentando acalmar o turbilhão de emoções antes de abrir a porta.
Hugo estava ali, parado na soleira, parecendo diferente como se um peso tivesse saído de seus ombros. Não porque o tempo o tivesse mudado fisicamente, mas porque havia algo em sua postura, em seu olhar, que eu não via há anos. Uma espécie de cansaço misturado com arrependimento. E, talvez, esperança.
— Oi, Ava — ele disse, com a voz mais suave do que eu esperava.
Assenti, dando um passo para o lado para que ele entrasse. Fechei a porta atrás de nós e me virei para encará-lo. Por um momento, o silêncio se instalou. Não um silêncio desconfortável, mas um que carregava histórias, mágoas e tudo o que nunca foi dito. Mas também havia alívio, por tudo que já ficou para trás.
— Aceita um café? — perguntei, quase sem pensar. — precisa relaxar um pouco.
Ele sorriu de leve.
— Eu aceitaria. Mas acho que precisamos conversar antes disso.
Me sentei no sofá, e ele fez o mesmo, mantendo uma certa distância. Nossos olhares se encontraram, e percebi que esse momento seria difícil. Mas é necessário. Ele precisava desabafar tirar o peso de seus sentimentos. De um muro que ele construiu e agora ele está deixando ruir.
— Falei com Heloísa hoje — ele começou, os olhos cheios de emoção. — Ela me perdoou, Ava. Eu ainda não acredito, mas ela realmente me deu uma segunda chance.
Meu coração apertou. Eu sabia o quanto essa reconciliação significava para ele. E, de certa forma, para mim também.
— Fico feliz por isso — respondi com sinceridade. — Heloísa sempre quis ter o pai por perto, mesmo quando estava magoada. Ela só precisava que você enxergasse isso.
Ele abaixou a cabeça por um instante, respirando fundo. — Eu fui um idiota. Por tanto tempo, me prendi ao meu orgulho, à minha necessidade de controle. Achei que sabia o que era melhor para ela, para nós... E no fim, só afastei as pessoas que mais importavam. Afastei minha filha, meu melhor amigo e estava afastando você, que mesmo não tendo se separado de mim e ficado ao meu lado neste tempo, sentia como se a decepção fosse maior que o amor que sentíamos.
Suas palavras ressoaram fundo em mim. Não era fácil admitir erros, e vê-lo ali, vulnerável, trazia uma nova perspectiva sobre tudo o que havíamos vivido.
— Nós dois erramos, Hugo — murmurei. — Durante muito tempo, fiquei presa na dor e talvez também na decepção que o Vittorio nos causou. Quis acreditar que a culpa era só sua, mas talvez eu também tenha me fechado. Talvez tenhamos parado de nos ouvir. E de ouvir o que a Heloísa e o Vittorio tinham a falar.
Ele ergueu os olhos para mim, e pela primeira vez em muito tempo, senti que estávamos realmente nos vendo. Não como inimigos ou como sombras do passado, mas como duas pessoas que compartilharam uma história intensa e que, de alguma forma, ainda se importavam uma com a outra.
— Sinto muito, Ava — ele disse, e sua voz carregava sinceridade. — Por todas as vezes que fiz você se sentir sozinha. Por todas as palavras duras. Eu deveria ter tentado mais. Deveria ter escutado você, entendido o que precisava. Eu falhei com você, e isso é algo que sempre vou carregar.
Fechei os olhos por um instante, absorvendo suas palavras. Por anos, esperei ouvir isso. Mas agora que finalmente aconteceu, percebi que não precisava mais daquelas desculpas para seguir em frente. Porque, no fundo, eu já tinha perdoado.
— Eu também errei, Hugo — admiti, olhando para ele. — E não quero mais carregar essa mágoa. Quero que possamos ser a família, que éramos. Por Heloísa. Pelo nosso neto. E por nós também.
Os olhos dele brilharam com um misto de surpresa e alívio. Ele assentiu, um pequeno sorriso se formando em seus lábios.
— Acho que esse é o começo de algo novo, então — ele disse.
— Sim — concordei, sentindo um peso enorme sair dos meus ombros. — Um começo melhor.
Ele riu de leve, e pela primeira vez em anos, o riso dele não me trouxe lembranças amargas. Apenas uma sensação de paz.
A dor que essas palavras traziam era familiar. Eu as sentia há anos, mas ouvir Hugo reconhecê-las era diferente. Algo dentro de mim vacilou.
— Durante muito tempo, eu te odiei. — Admiti, sem rodeios. Ele precisava ouvir isso. — Eu te culpei por tudo, pela distância entre nós, pelo afastamento da Heloísa. Mas agora… acho que só estou cansada de carregar esse rancor. Ele não muda o passado, e definitivamente não melhora o presente.
Ele assentiu, como se entendesse exatamente o que eu queria dizer. Como se estivesse tão cansado quanto eu.
— Eu não espero que me perdoe de uma hora para outra, Ava. Mas quero tentar. Não só por Heloísa, não só por Lorenzo, mas por nós. Para que possamos, pelo menos, olhar um para o outro sem a sombra do passado nos consumindo.
Havia sinceridade em sua voz. Eu conhecia bem Hugo para saber quando ele estava apenas dizendo o que queria ouvir, e quando realmente acreditava em suas próprias palavras. Dessa vez, ele acreditava. E, talvez, parte de mim quisesse acreditar também.
Suspirei, sentindo meu coração mais leve do que esperava.
— Não sei como seguir em frente sem lembrar do que ficou para trás, Hugo. Mas estou disposta a tentar.
Um pequeno sorriso se formou em seu rosto, tímido, quase hesitante. Mas estava lá.
— Isso já é mais do que eu poderia pedir.
Nos entreolhamos por um momento, e naquele silêncio, senti que, pela primeira vez em anos, algo dentro de nós estava mudando. Ainda havia um longo caminho a percorrer, mas finalmente, estávamos dando o primeiro passo. E, dessa vez, estávamos dispostos a caminhar juntos, mesmo que fosse apenas como amigos, como pais de Heloísa, como avós de Lorenzo.
Talvez, só talvez, ainda houvesse esperança para nós.

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