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Quadros de um divórcio romance Capítulo 144

“Algumas feridas só cicatrizam quando decidimos pintar por cima.”

Silvia voltou para casa sem pressa alguma. Subiu os degraus um a um, como se cada passo fosse uma tentativa inútil de triturar a frustração que ainda lhe corroía o peito. Helena talvez não fosse um problema para Dante — mas continuava sendo para ela.

Parou ao lado da cama e ficou observando Cássio dormir. O corpo largado, vulnerável, alheio a tudo que se movia ao redor. A mente de Silvia, porém, não encontrava descanso.

Aquela mulher não sairia ilesa. Mesmo que fosse preciso esperar, mesmo que fosse preciso ser paciente, Helena pagaria. Ela se certificaria disso.

Lívia se despediu de Helena e Santiago ainda no saguão da Orsini Design, não sem antes lançar uma piscadela descarada na direção de Pedro, que fingiu não ver, mas não conseguiu esconder o canto da boca traindo um sorriso.

O dia seguinte prometia ser longo. E, embora quisesse comemorar a liberdade recém-conquistada da amiga, sabia que o corpo pedia descanso. O fim de semana estava próximo. Se tudo desse certo com o lançamento da coleção Prisma, haveria tempo — e motivos — de sobra para celebrar.

Pedro conduziu os dois de volta ao bairro antigo, o trajeto já tão decorado quanto uma oração repetida em silêncio. Assim que cruzaram a porta, Mabe veio correndo, o rabo abanando com tanta força que parecia querer derrubar o próprio corpo. Ergueu-se nas patas traseiras, buscando um abraço de Helena com entusiasmo.

— Ei, mocinha… vai com calma — Pedro advertiu, divertido. — Agora ela está esperando um bebezinho. Você vai ter que aprender a pegar leve.

Mabe inclinou a cabeça, como se entendesse — e então encostou o focinho na barriga de Helena, num gesto quase solene.

Helena sorriu acariciando a pastora.

_ Deixa ela!

Pedro já havia avisado Marcelo mais cedo que o acordo tinha sido fechado sem sobressaltos. Santiago, por sua vez, alinhara com os dois que voltariam a ocupar o sobrado ao lado — as pequenas reformas haviam transformado o espaço em algo mais do que digno. E, acima de tudo, ele e Helena precisavam de privacidade. De silêncio. De tempo.

Marcelo aguardou a empolgação de Mabe diminuir um pouco antes de se aproximar de Pedro.

— Vamos embora, bombonzinho?

Pedro assentiu, como quem já conhecia o roteiro.

Helena franziu o cenho, confusa.

— Ué… para onde vocês vão?

Marcelo respondeu, tranquilo:

— A gente sabe que o principal motivo pra você querer que ficássemos aqui era não aguentar nos ver em um ambiente tão precário quanto aquele sobrado estava. — Sorriu de canto. — Mas isso já não é mais um problema. Meu amigo aqui… — deu um tapinha no ombro de Santiago — deixou o lugar confortável pra gente agora. Vocês passaram por coisa demais em pouco tempo. Merecem e precisam se curtir um pouco.

— Além disso — completou Pedro — a casa agora está bem protegida. Câmeras, alarmes em todas as entradas… e essa grandona aqui — afagou a cabeça de Mabe — vale mais do que qualquer sistema de segurança.

— Sem contar que estamos apenas a um muro de distância — finalizou Marcelo. — Vocês não têm com o que se preocupar.

Mesmo assim, Helena ainda parecia hesitante.

— Vocês têm certeza de que vão ficar bem lá?

— Depois você pode conferir com seus próprios olhos — Marcelo se apressou em dizer. — Mas não hoje. — Abriu um sorriso sugestivo. — Preparei algo especial pra vocês.

E, antes que ela pudesse perguntar qualquer coisa, ele já empurrava Pedro em direção à saída.

— Aproveitem!

A porta se fechou. Helena permaneceu parada por um segundo, tentando entender o que ele quisera dizer com algo especial. Só quando sentiu a mão de Santiago tocar de leve seu ombro é que se virou.

O que viu a fez prender a respiração.

A mesa estava posta para dois. Uma travessa ao centro, velas acesas, flores simples.

Helena levou a mão à boca, os olhos marejados.

— Isso é coisa sua, não é?

Santiago sorriu daquele jeito calmo que sempre a desmontava.

— Achei que a gente precisava, nem que fosse só um pouco, de normalidade.

Santiago a conduziu até a mesa e puxou a cadeira para ela com um gesto cuidadoso, sentou-se ao seu lado em seguida, acendeu as velas com calma e destampou a travessa. O aroma envolvente do ravioli de burrata com manteiga e sálvia se espalhou pelo ambiente.

Helena o observava em silêncio, admirada. Era impossível não contrastar a vida de submissão que tinha antes com Cássio, com a parceria serena e equilibrada que agora dividia com aquele homem incrível ao seu lado.

Sentiu o peito se expandir, tomado por gratidão e um carinho não contido.

Capítulo 144 - Pigmento sobre cicatriz 1

Capítulo 144 - Pigmento sobre cicatriz 2

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