“Algumas feridas só cicatrizam quando decidimos pintar por cima.”
Silvia voltou para casa sem pressa alguma. Subiu os degraus um a um, como se cada passo fosse uma tentativa inútil de triturar a frustração que ainda lhe corroía o peito. Helena talvez não fosse um problema para Dante — mas continuava sendo para ela.
Parou ao lado da cama e ficou observando Cássio dormir. O corpo largado, vulnerável, alheio a tudo que se movia ao redor. A mente de Silvia, porém, não encontrava descanso.
Aquela mulher não sairia ilesa. Mesmo que fosse preciso esperar, mesmo que fosse preciso ser paciente, Helena pagaria. Ela se certificaria disso.
…
Lívia se despediu de Helena e Santiago ainda no saguão da Orsini Design, não sem antes lançar uma piscadela descarada na direção de Pedro, que fingiu não ver, mas não conseguiu esconder o canto da boca traindo um sorriso.
O dia seguinte prometia ser longo. E, embora quisesse comemorar a liberdade recém-conquistada da amiga, sabia que o corpo pedia descanso. O fim de semana estava próximo. Se tudo desse certo com o lançamento da coleção Prisma, haveria tempo — e motivos — de sobra para celebrar.
Pedro conduziu os dois de volta ao bairro antigo, o trajeto já tão decorado quanto uma oração repetida em silêncio. Assim que cruzaram a porta, Mabe veio correndo, o rabo abanando com tanta força que parecia querer derrubar o próprio corpo. Ergueu-se nas patas traseiras, buscando um abraço de Helena com entusiasmo.
— Ei, mocinha… vai com calma — Pedro advertiu, divertido. — Agora ela está esperando um bebezinho. Você vai ter que aprender a pegar leve.
Mabe inclinou a cabeça, como se entendesse — e então encostou o focinho na barriga de Helena, num gesto quase solene.
Helena sorriu acariciando a pastora.
_ Deixa ela!
Pedro já havia avisado Marcelo mais cedo que o acordo tinha sido fechado sem sobressaltos. Santiago, por sua vez, alinhara com os dois que voltariam a ocupar o sobrado ao lado — as pequenas reformas haviam transformado o espaço em algo mais do que digno. E, acima de tudo, ele e Helena precisavam de privacidade. De silêncio. De tempo.
Marcelo aguardou a empolgação de Mabe diminuir um pouco antes de se aproximar de Pedro.
— Vamos embora, bombonzinho?
Pedro assentiu, como quem já conhecia o roteiro.
Helena franziu o cenho, confusa.
— Ué… para onde vocês vão?
Marcelo respondeu, tranquilo:
— A gente sabe que o principal motivo pra você querer que ficássemos aqui era não aguentar nos ver em um ambiente tão precário quanto aquele sobrado estava. — Sorriu de canto. — Mas isso já não é mais um problema. Meu amigo aqui… — deu um tapinha no ombro de Santiago — deixou o lugar confortável pra gente agora. Vocês passaram por coisa demais em pouco tempo. Merecem e precisam se curtir um pouco.
— Além disso — completou Pedro — a casa agora está bem protegida. Câmeras, alarmes em todas as entradas… e essa grandona aqui — afagou a cabeça de Mabe — vale mais do que qualquer sistema de segurança.
— Sem contar que estamos apenas a um muro de distância — finalizou Marcelo. — Vocês não têm com o que se preocupar.
Mesmo assim, Helena ainda parecia hesitante.
— Vocês têm certeza de que vão ficar bem lá?
— Depois você pode conferir com seus próprios olhos — Marcelo se apressou em dizer. — Mas não hoje. — Abriu um sorriso sugestivo. — Preparei algo especial pra vocês.
E, antes que ela pudesse perguntar qualquer coisa, ele já empurrava Pedro em direção à saída.
— Aproveitem!
A porta se fechou. Helena permaneceu parada por um segundo, tentando entender o que ele quisera dizer com algo especial. Só quando sentiu a mão de Santiago tocar de leve seu ombro é que se virou.
O que viu a fez prender a respiração.
A mesa estava posta para dois. Uma travessa ao centro, velas acesas, flores simples.
Helena levou a mão à boca, os olhos marejados.
— Isso é coisa sua, não é?
Santiago sorriu daquele jeito calmo que sempre a desmontava.
— Achei que a gente precisava, nem que fosse só um pouco, de normalidade.
Santiago a conduziu até a mesa e puxou a cadeira para ela com um gesto cuidadoso, sentou-se ao seu lado em seguida, acendeu as velas com calma e destampou a travessa. O aroma envolvente do ravioli de burrata com manteiga e sálvia se espalhou pelo ambiente.
Helena o observava em silêncio, admirada. Era impossível não contrastar a vida de submissão que tinha antes com Cássio, com a parceria serena e equilibrada que agora dividia com aquele homem incrível ao seu lado.
Sentiu o peito se expandir, tomado por gratidão e um carinho não contido.


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