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Quadros de um divórcio romance Capítulo 151

"Se você ouvir uma voz dentro de você dizendo 'você não pode pintar', então pinte, e essa voz será silenciada." Vincent Van Gogh

O comercial iniciou sobre um fundo claro, quase neutro, linhas finas surgiram lentamente, como traços técnicos desenhados no ar. Apareciam, cruzavam-se, interrompiam-se num ritmo rápido e calculado.

Algumas linhas desapareciam antes mesmo de se completarem. Outras permaneciam, criando planos, volumes, perspectivas. Nada era orgânico. Nada era aleatório.

Então, num movimento sutil, as linhas restantes se condensaram. Simplificavam-se. Até que, com uma precisão quase cirúrgica, se fundiram em uma marca.

A logo da Orsini Design surgiu limpa, sólida e definitiva.

E então a trilha começou, discreta, sofisticada, anunciando que o que viria a seguir.

Em close, uma mão delicada surgiu em cena, deslizando lentamente pela superfície da madeira. Os dedos acompanhavam o veio com atenção quase reverente, iluminados por um reflexo natural que parecia nascer do próprio material.

O coração de Cássio falhou uma batida.

Ele conhecia aquelas mãos.

Mas foi a voz que veio em seguida — suave, segura — que lhe tirou qualquer resquício de dúvida. Era ela.

“Prisma nasce da luz. Mas não da luz perfeita.”

A imagem se dissolveu em um feixe de luz natural atravessando uma peça de vidro. O reflexo se espalhou pelo ambiente, multiplicado, instável, vivo.

Então os móveis surgiram. Familiares — e ainda assim diferentes. Pequenas alterações, quase imperceptíveis, projetavam sombras desenhadas no chão, como se cada peça tivesse aprendido algo novo.

“Cada móvel desta coleção carrega múltiplas faces. Linhas que se encontram. Arestas que definem.”

Helena apareceu desenhando à mão. O lápis riscava o papel com precisão. A câmera se aproximava, lenta, até capturar um único traço em close.

Cássio não piscava.

“Assim como nós. Nada aqui é apenas forma. A estrutura importa. A base que sustenta. Os limites que moldam.”

A cena voltou ao vidro — agora em movimento. A luz mudava, os reflexos também. Nada permanecia igual por muito tempo.

“Um prisma só revela suas cores quando a luz o atravessa. A vida faz o mesmo conosco.”

Não.

Não, não, não.

A mente de Cássio se recusava a aceitar o que via.

A imagem cortou para a mão de um funcionário apertando um parafuso. O gesto era firme.

“É o que permanece depois do atrito que define valor.”

Aquilo não era apenas um conceito. Era uma acusação silenciosa.

Ele havia sido o atrito na vida dela.

Helena surgiu caminhando pelo ambiente caseiro montado com a coleção. Observava as peças com olhar atento, quase íntimo, como quem reconhece algo que finalmente encontrou seu lugar.

“Prisma une matéria e emoção. Design e essência. Força e sensibilidade.”

O plano se abriu, revelando toda a coleção. A luz suave preenchia o espaço com equilíbrio, sem excessos, sem ruído.

“Porque beleza não está no brilho uniforme… mas na forma como cada peça, e cada pessoa, aprende a refletir a própria luz.”

Por fim, o rosto de Helena ocupou a tela. Um sorriso leve, sereno. reconhecendo ali o coração da coleção.

O fundo foi se tornando branco, enquanto sua imagem se desfazia lentamente.

No lugar, surgiu novamente a marca da Orsini Design e logo abaixo o nome dela como um decreto — Helena Duarte.

O comercial terminou tão abruptamente quanto havia começado, deixando Cássio imóvel no sofá. A boca entreaberta, o olhar perdido em ponto algum, como se o corpo tivesse ficado para trás enquanto a mente ainda tentava alcançar o que acabara de assistir. Ele não se mexia. Apenas existia ali — inerte — com a sensação de que algo definitivo tinha acabado de atravessá-lo.

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