Na manhã seguinte, o telefone de Cássio vibrou sobre o balcão da cozinha, interrompendo o silêncio da casa.
Helena, já vestida, mexia distraidamente a colher no café, enquanto ele se apressava para sair, ajustando a gravata diante do espelho.
— Quem era? — perguntou ela, sem tirar os olhos do líquido escuro e quente à sua frente, a voz calma escondendo a curiosidade.
— O pessoal do escritório. Temos uma reunião cedo — respondeu ele rapidamente, sem parar de mexer na agenda do celular, o tom carregado de pressa e impaciência.
Ele olhou para ela por um instante, o olhar distante, e continuou:
— Falando nisso, preciso do projeto da nova coleção. O evento de cinco anos da empresa está chegando, e precisamos ter os protótipos prontos para o showroom. Já está pronto?
Helena apenas assentiu, sem uma palavra.
Seus dedos empurraram levemente uma pasta de couro azul que repousava sobre a bancada, com o logotipo do Studio Cassiani, em baixo relevo dourado, refletindo a luz que passava pela Janela.
Ele pegou a pasta com um gesto apressado e saiu.
O clique seco da porta ao se fechar cortando o ar como um lembrete silencioso do fim da conversa.
Nenhum "obrigado" escapou de seus lábios, nenhum sinal de reconhecimento.
Nada além do eco de passos que se afastavam, deixando Helena diante do silêncio pesado, como se todo o esforço e dedicação depositados naquele trabalho tivessem evaporado no ar.
...............
Nos últimos seis meses, Helena se perdeu entre lápis, papéis e esquadros, inclinada sobre a mesa do escritório como se cada ferramenta fosse uma extensão de suas próprias mãos.
Os traços se acumulavam, se sobrepunham, se transformavam — uma coreografia silenciosa que apenas ela compreendia.
Era a décima coleção de móveis que criava para a empresa, mas havia algo de diferente nesta: ela seria lançada no quinto aniversário do Studio Cassiani, no mesmo dia em que completaria cinco anos de casamento. Um marco duplo, cheio de lembranças.
Enquanto os esboços dos novos móveis tomavam forma, Helena fazia breves pausas para analisar as proporções e o equilíbrio estrutural de cada peça. Observava o desenho sob diferentes ângulos, avaliando a coerência entre linhas de força e volumes. Corrigia uma curvatura, ajustava o ponto de fuga — pequenas intervenções que aprimoravam a ergonomia visual e o fluxo estético do conjunto. Aos poucos, cada traço parecia adquirir peso, textura e presença, como se o projeto deixasse de ser apenas uma ideia e começasse, de fato, a existir.
Helena era formada em Artes Plásticas e Visuais. A pintura sempre foi sua maior paixão, mas o desenho também fazia parte de suas habilidades. Ainda assim, para desenvolver os móveis, precisou se aprofundar sozinha em áreas que iam muito além do que aprendera na faculdade.
Cássio, sim, tinha formação em Desenho Industrial. No entanto, sempre que ela o procurava em busca de orientação, ele se esquivava com respostas vagas. Até que, certa vez, limitou-se a entregar-lhe os livros que havia usado na graduação.
Determinada, Helena passou noites em claro lendo cada um deles, complementando o estudo com pesquisas próprias e conversas com engenheiros e antigos professores. Mergulhou tão fundo que, ao final, aquilo que antes parecia um desafio intransponível tornou-se natural. Claro. Fluido.
Mas não se tratava apenas de desenhos. Cada página carregava o estudo dos materiais, a definição das cores, especificações técnicas e o planejamento de cada etapa do processo de fabricação.
Era a fusão entre arte e engenharia, entre criatividade e precisão.
Foram dias e noites entre xícaras de café e páginas amassadas que quase encontravam o caminho do lixo. Mas enfim, estava pronta: a Coleção Prisma.
O nome não era por acaso. Cada móvel funcionava como um prisma: uma mesma forma podia refletir diferentes nuances, mostrar múltiplas facetas dependendo do ângulo, da luz, da percepção de quem olhasse.
Assim como ela própria, cada peça revelava camadas de dedicação, sensibilidade e força.
E para que?
Qual era o sentido de todo aquele esforço se, no final, ela não recebia nem mesmo um “obrigado”? Nenhum reconhecimento, nenhum gesto que mostrasse que todo o seu empenho significava algo para ele.
Helena riu, um riso seco, carregado de ironia e amargura.
Havia dado tudo de si: cada hora, cada minuto, cada mísera grama de dedicação, cada ideia cuidadosamente moldada, cada traço que tirara do papel e tornara real.
E todo o amor que um dia acreditou ter valor, que achou que seria suficiente para preencher qualquer vazio, agora parecia se dissipar sem deixar vestígios.
Nos dias que seguiram, ela o observava de longe, com uma serenidade nova, quase assustadora.
O mesmo homem que antes dominava seus pensamentos agora parecia uma figura distante, recortada em papel, sem profundidade.
Ele falava sobre metas, contratos, projeções, e ela percebia que nenhuma daquelas palavras continha vida.
...............
Helena estava no escritório de casa, organizando alguns desenhos antigos, quando o noticiário da TV mencionou o Studio Cassiani em uma reportagem sobre tendências de design.
Na tela, Cássio aparecia ao lado de uma mulher jovem, de cabelos lisos e loiros soltos sobre os ombros, olhos castanhos vivos e expressivos, e um sorriso perfeitamente calculado.
O vestido vermelho ajustava-se com elegância à sua silhueta esguia, e cada gesto parecia pensado para impressionar.
— “A nova gerente de marketing, Sílvia Moretti, tem sido peça-chave na expansão internacional da marca” — dizia o repórter.
Helena largou os papeis. O mundo pareceu girar por um instante.
Silvia... ali estava, diante das câmeras, a mulher por trás das mensagens.
E Cássio, ao lado dela, irradiava orgulho. Não havia culpa em seu olhar, apenas vaidade.
Respirou fundo, desviando o olhar, tentando não deixar que a raiva ou a mágoa tomassem conta.
Mas, mesmo assim, não pôde deixar de reparar nos detalhes: a confiança com que Silvia se posicionava ao lado de Cássio, o leve inclinar da cabeça enquanto conversava com ele, o brilho nos olhos.
Helena percebeu que, por mais que tentasse, nada poderia apagar aquele retrato de uma intimidade que ela não tinha mais.
Mas ela não chorou. Já havia derramado lágrimas demais durante aqueles cinco anos — a cada briga, a cada cobrança, a cada tentativa de receber carinho e atenção que sempre terminava em culpa e reprovação.
Antes, seu coração era um mar agitado, revolto pelas ondas das decepções e das falsas promessas. Mas depois que leu aquela mensagem, tudo parecia seco, como se o oceano interno tivesse sido drenado sem aviso, deixando apenas um leito vazio, rachado e silencioso.
O furor, a dor, a esperança — tudo evaporara.
Restava apenas ela, sólida e contida, como uma concha abandonada na areia, olhando para o mundo com olhos claros e resolutos, finalmente despida da ilusão de que ainda havia algo ali para salvar.
Abriu a pasta onde guardava seus antigos esboços da faculdade e os espalhou sobre a mesa. As linhas, os traços, as cores — tudo aquilo que fora deixado de lado em nome de um amor — pareciam chamá-la de volta.
No fim da tarde, quando saia do banho, o celular vibrou sobre a bancada da pia.
Uma notificação nova, de um número desconhecido.
Helena pegou o aparelho e o sangue gelou.
“Você devia estar orgulhosa. Seu marido falou tanto de você hoje.”
Ela leu a mensagem três vezes antes de perceber o tom: não havia admiração ali, mas deboche.
Respirou fundo, bloqueou o número e deixou o celular sobre a mesa.
Mas não adiantou. As mensagens voltaram, de outro número, acompanhadas de uma foto.
“Cássio sempre fala que você é calma demais.
Acho que ele precisava de um pouco mais de emoção, sabe?”
“Ah! Adorei o colar que ele disse que você não usava mais. Ficou lindo em mim.”
Quando pensava ter suportado tudo, aquela foto lhe gelou o sangue.
Fechou as mãos com tanta força que as unhas machucaram a palma.



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