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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 100

Cap.100

A manhã tinha sido agitada; ainda assim, Selene tinha suas obrigações.

Após Adon ir embora — ou ser arrastado embora — agora ela estava em frente ao espelho tentando disfarçar a mancha vermelha, além de alguns machucados no braço por causa da agressão de Mathias.

Logo após, saiu às pressas, com o curto tempo que tinha para chegar ao Grupo Felix.

O Grupo Felix funcionava como um relógio suíço: impessoal, eficiente, completamente alheio às tempestades pessoais que agitavam a vida daqueles que ocupavam seus andares superiores.

Adon estava ausente. O rumor não oficial entre os assessores mais próximos dizia que o presidente estava “indisposto” e trabalhando de casa.

Selene atravessava o saguão do RH, sentindo o peso de cada olhar que pousava, mesmo que por uma fração de segundo, em sua bochecha discretamente inchada.

Ela mantinha a cabeça baixa; a cortina de seus cabelos soltos servia como uma barreira frágil entre ela e o mundo.

Ela suspirou, aliviada ao perceber que aquele dia estava estranhamente quieto.

Foi então que um par de sapatos caros, de couro envernizado, parou em seu campo de visão.

Ela ergueu os olhos e encontrou Axel. Ele não usava a expressão descontraída nem o sorriso maroto do dia anterior. Seu rosto estava sério; seus olhos — tão parecidos com os de Adon quando o humor mudava — pareciam tão concentrados quanto os do próprio Adon. Era como ele se mostrava quando não estava com o irmão mais velho: uma aura lúcida, mas com uma luz diferente. Ele analisava o ferimento com uma intensidade que fez Selene querer virar o rosto.

— Você está bem? — A pergunta dele foi direta.

Selene fez um pequeno aceno, um movimento quase imperceptível.

— Estou. E… obrigada. Por terem me encontrado. Por terem me tirado de lá. — A gratidão era genuína, mas sua voz saiu cansada, como se cada palavra exigisse esforço.

Um canto da boca de Axel se ergueu — não um sorriso completo, mas algo mais suave.

— Parece que você tem um talento nato para atrair problemas, Selene. Precisa parar de deixar as pessoas te provocarem até você explodir e sair por aí como um furacão de mágoa. — Ele fez uma pausa, estudando-a. — Se quiser, posso te ensinar a dar uns socos. Para você explodir de um jeito mais… produtivo.

Ela o olhou, confusa por um instante.

— Você está falando da Mima?

— Da Mima, da Rose, de qualquer um que pense que pode te fazer de capacho — respondeu ele, a voz baixa, mas firme. — Você não precisa aceitar.

— É… complicado. Não quero me meter mais do que já estou. Nas… coisas dele. — O “dele” não precisava de nome.

Axel deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Sua expressão era séria.

— Olhe para mim, Selene. Você já está metida. Até o pescoço. E, por causa disso, você tem todo o direito do mundo de se meter, de se defender, de exigir respeito. Entendeu?

A firmeza dele era algo novo. Diferente da possessividade feroz de Adon ou da frieza calculista de Átila. Era uma proteção sólida, de irmão mais velho. Selene sentiu um nó na garganta.

— E ele… — ela começou, hesitante. — O Adon. Ele está… bem?

Axel soltou um suspiro misturado com um quase riso abafado.

— “Bem” é uma palavra forte. Ele está em casa, aplicando compressas de gelo em… áreas estratégicas. Acredite, ele vai sobreviver. Mas está de humor particularmente negro. — Ele fitou Selene. — E você riu quando eu disse isso. Vi o sorriso.

Ela corou, desviando o olhar.

— As meninas… a Katleia e a Gildete… elas estão furiosas. Querem linchá-lo. Nem querem ouvir minha explicação.

Ele não a olhava diretamente, mas seu reflexo na porta espelhada pesava sobre ela.

— Acidente de trabalho, jovem? — A voz de Alex finalmente rompeu o silêncio: gelada, educada e completamente desprovida de calor. Ele não olhava para ela, mas para o próprio reflexo.

Selene estremeceu.

— N-não, senhor. Foi… uma queda. Em casa.

— Parece doloroso — ele continuou, a voz um fio de navalha. — É impressionante como algumas pessoas são… frágeis. Como situações domésticas banais podem deixar marcas tão profundas.

Havia uma insinuação, uma armadilha invisível. Selene sentiu o pânico crescer. Apertou os braços ao redor do corpo, sem responder.

O elevador parou. As portas se abriram para o salão privativo do andar da presidência, um espaço vazio e silencioso.

Alex finalmente se virou para ela. Desta vez, o olhar foi direto, penetrante. Ele a avaliou por uma eternidade de dois segundos: o rosto machucado, os olhos que tentavam — sem sucesso — esconder o medo.

— Tome mais cuidado, menina — ele disse, e cada palavra parecia gravada em gelo. — Acidentes têm o hábito desagradável de se repetir. E nem sempre há… intervenção oportuna.

— Acidentes sempre acontecem… — ela comentou, analisando-o, estranhando o tom. Quase travou ao reconhecê-lo. — O senhor… não é o antigo chefe do Adon? O mesmo do restaurante?

— Eu sei. Eu também lembro de você com o Adon, certo?

— Sim, senhor! O senhor é o antigo chefe dele, não é?

— E você, menina — começou Alex, a voz um baixo contínuo de ameaça polida — o que exatamente você tem com o Adon?

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