Cap.162
Os três homens permaneceram no saguão silencioso, a atmosfera carregada pela decisão tomada por Alex. Foi Axel quem quebrou o silêncio, voltando a um assunto mais prático, mas não menos espinhoso.
— E o jantar? — perguntou, cruzando os braços. — O tal banquete de gala para anunciar o casamento deles para a alta sociedade e… para a Máfia. Como vai ser? Você realmente vai fazer isso, sabendo de… tudo?
Alex respirou fundo, como se estivesse se preparando para mais uma batalha.
— O jantar acontecerá. É necessário para consolidar a proteção dela perante as famílias. Mas… — ele fechou os olhos por um segundo, lutando contra a lógica do próprio mundo. — Meu novo objetivo é convencer o Adon a anular esse casamento secreto. Antes que ele descubra a verdade.
Átila franziu a testa.
— Anular? Mas é justamente o casamento que a protege. Você mesmo arquitetou isso.
— Foi um erro! Selene não pode descobrir que ele a obrigou a assinar um acordo que, nas sombras, era uma certidão de casamento. Não assim. Ela precisa ter uma escolha. Em meio a tudo isso, se ela quiser seguir com isso, ela segue, mas o casamento deles não pode permanecer. E ele… ele precisa poder se casar com ela da forma certa. Com cerimônia, com testemunhas que importam, com a consciência limpa. Não com um contrato frio, nascido de um jogo de poder.
Ele olhou para os dois filhos, os olhos suplicando compreensão.
— Mas até lá, não podemos deixar que essa… proximidade deles se intensifique. O risco é grande demais.
Axel soltou um assobio baixo.
— Então você quer que a gente… atrapalhe? Que seja o cupido ao contrário?
— Quero que vocês interfiram — Alex confirmou, o rosto sério. — O máximo possível. Inventem reuniões urgentes, crises que exijam a atenção dele, qualquer coisa. Mantenham-nos ocupados. Impedem que fiquem muito tempo sozinhos. Não podemos dar chance para que eles.
Ele fez uma pausa e, pela primeira vez em suas vidas, Átila e Axel viram algo parecido com vulnerabilidade absoluta no olhar do pai: o desespero de um homem que havia perdido o controle da única coisa que realmente importava.
— E… há outra coisa — Alex disse, a voz ficando mais baixa, quase hesitante. — Preciso que vocês me ajudem a… encontrar jeitos. Jeitos de fazer com que a Selene… precise se encontrar comigo. Situações em que ela não possa recusar minha presença. Em que eu possa… começar a me apresentar.
Átila e Axel ficaram atônitos. Alex Felix, o homem que nunca pedia, apenas ordenava, estava pedindo ajuda. Suplicando, na verdade.
— Pai… — Átila começou, a voz carregada de uma emoção incomum.
— É a primeira vez — Alex interrompeu, como se lesse seus pensamentos. — A primeira vez que peço algo assim a vocês. Não como um comando do Grupo Felix. Como um pedido de… de um pai, porque vocês já são próximos dela.
A palavra “por favor”, saindo da boca de Alex Felix, teve o peso de um juramento.
Axel e Átila trocaram um olhar. Era impossível negar. Aquele homem estava se despedaçando e tentando, da única forma torta que conhecia, remendar os próprios cacos.
— A gente… a gente pensa em algo — Axel disse, finalmente, assentindo com a cabeça.
Alex apenas inclinou a cabeça em agradecimento mudo, o olhar perdido em algum ponto distante, já planejando o próximo movimento impossível.
No escritório de Adon, minutos depois.
Selene entrou, a pequena caixa de veludo azul parecendo uma brasa em suas mãos. Adon estava de costas, olhando a cidade.
— Teve uma visita — ela disse, com a voz neutra.
Ele se virou.
— Quem?
— Seu pai.
A expressão de Adon endureceu instantaneamente.
— O que ele quis? Intimidou você pelas minhas costas?
— Não. Ele… me deu isso. — Ela estendeu a caixa, mas não a entregou diretamente. Colocou-a sobre a mesa, como se fosse um artefato perigoso. — Eu não olhei o que é, achei melhor entregar a você.
Adon se aproximou, os olhos fixos na caixa como se ela contivesse uma cobra. Com movimentos deliberados, ele a abriu.
Dentro, repousando sobre o veludo escuro, estava um colar. Não era uma peça ostensivamente cara.
Um fio de platina finíssimo sustentava um pingente: uma única esmeralda lapidada em forma de lágrima, do tamanho de uma unha, com um brilho profundo e ancestral. Em volta da esmeralda, finíssimos fios de ouro branco se entrelaçavam, formando uma espécie de proteção, como galhos protegendo uma fruta preciosa. Era antigo, singular e emanava uma aura de imensa importância.
A expressão de Adon escureceu. Ele ficou pálido. Os dedos, ao segurar a caixa, tremiam levemente.
— Ele… realmente te deu isso? — a pergunta saiu rouca, incrédula.
— Deixou na mesa da cozinha. Eu trouxe. Não aceitei, mas trouxe — Selene explicou, observando a reação dele com crescente perplexidade.
Antes do fim da tarde, eles seguiram para o apartamento. Naquele momento, pareciam inseparáveis: onde Selene ia, Adon era sua sombra; onde Adon ia, Selene era a dele.
A água quente do chuveiro caía em cascata, envolvendo-os em um véu de vapor.
Selene estava de costas contra o peito de Adon, os olhos fechados, enquanto os lábios dele percorriam o arco úmido de seu pescoço com uma lentidão que fazia o corpo inteiro dela vibrar.
As mãos dele, ensaboadas, deslizavam por seus braços e sua cintura, numa posse tranquila e absoluta.
— Que jantar é esse hoje? — ela perguntou, a voz um suspiro rouco abafado pela água.
— Negócios. Encontro com alguns acionistas importantes do Sudeste Asiático. São formais, tradicionais. — Os lábios dele tocaram sua orelha. — E você virá comigo. Como minha assessora executiva.
— Está bem — ela concordou, virando-se dentro de seus braços para beijá-lo.
O vestido era uma declaração silenciosa e poderosa. De veludo negro, tão denso que parecia absorver a luz, com um brilho sutil de pérola negra ao se mover.
O caimento era impecável, desenhando cada curva de seu corpo — os ombros descobertos, a cintura marcada, o quadril arredondado — sem ser vulgar. Era elegância pura e sensualidade bruta. O olhar de Adon, quando ela saiu do quarto, foi de posse feroz e admiração genuína.
— Você vai causar um tumulto diplomático — ele murmurou, aproximando-se para ajustar uma pulseira em seu pulso, os dedos demorando em sua pele.
— Ótimo. Assim eles se lembram com quem estão lidando — ela respondeu, com um sorriso que não chegou totalmente aos olhos.
O restaurante ficava no topo de um hotel de cinco estrelas, um lugar de vistas panorâmicas, luzes baixas e o som abafado de talheres de prata contra porcelana fina.
Adon a apresentou aos três acionistas como “Sra. Selene, minha assessora-chefe e braço direito”. O tom dele e o olhar que lhe dirigiam deixavam claro que “braço direito” era um eufemismo. Ela era brilhante, articulada, e conquistou-os com facilidade, falando de logística e projeções de mercado com uma clareza que fazia Adon se orgulhar.
Em um momento de pausa, ele se inclinou e sussurrou no ouvido dela.
— Os quartos de luxo aqui… são feitos para casais. Têm uma banheira de hidromassagem do tamanho de uma piscina pequena. Você vai amar. Vamos ficar e nos divertir um pouco, ok?
Ela sentiu um calor percorrer o corpo, uma promessa de fuga.
— Vamos — concordou, o olhar encontrando o dele, buscando na paixão dele um antídoto para a dor confusa que carregava.
Foi então que o universo, na forma de três homens Felix, decidiu intervir.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!