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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 175

Cap.174

— Eu vou fazer a ronda pela cidade. Melhor do que ficar parado. Vou averiguar de longe os locais que William encontrou e vou atualizando vocês. — Adon avisou, saindo da sala.

Seu telefone vibrou. Um número desconhecido — que ele já podia imaginar de quem era.

O aparelho em sua mão pareceu ganhar peso, transformando-se em um bloco de gelo contra seu ouvido. A voz de Omar, do outro lado da linha, era suave, quase cordial, o que a tornava infinitamente mais ameaçadora.

— Já viu o seu e-mail? — perguntou Omar, como se indagasse sobre o clima.

Adon não respondeu à pergunta. O sangue latejava em suas têmporas, mas sua voz, quando saiu, foi contida, acompanhada de um suspiro pesado.

— Onde está Selene?

Omar deu uma risadinha baixa, um som que roçava a obscenidade.

— Direto ao ponto. Sempre prático. Ela está… sob nova gestão. E você deveria me agradecer. Se não fosse por mim e meu… intervencionismo, a preciosa Simone já estaria espalhada no asfalto. Uma tragédia grega moderna, não acha? Como vai me compensar por este serviço?

— Compensar? — a palavra saiu como um cuspe. — Você não terá um centavo de mim. Sei muito bem o que você quer. E não vai conseguir.

— Ah, é? — o tom de Omar permaneceu divertido. — Então sugiro que olhe seu e-mail. A resposta sobre se já consegui ou não o que quero está bem ali, em formato P*F, devidamente assinado. Boa leitura.

A linha caiu antes que Adon pudesse responder. Um silêncio abrupto e insultuoso. Seus dedos, trêmulos de uma raiva contida que ameaçava explodir, navegaram até o aplicativo de e-mail em seu celular.

Dois novos itens destacavam-se na caixa de entrada.

O primeiro, com o assunto formal: “NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL – PEDIDO DE ANULAÇÃO DE CASAMENTO – Adon Felix e Selene Jacksom.”

O segundo, um convite digital: “Convite para Celebração de União Civil – Mathias & Selene.”

O mundo de Adon inclinou-se violentamente.

Ele abriu o primeiro documento. A linguagem era jurídica, seca, mas o significado era uma faca torcida em suas entranhas. Com base em vício de consentimento e erro essencial sobre a identidade, pedia-se a anulação do casamento que ele, em um ato de posse desesperada, havia forjado — com o pretexto de sair de um casamento por obrigação, mas que, na verdade, fora para salvar Selene.

Mas foi o segundo arquivo que lhe arrancou o ar dos pulmões.

Um convite. Elegante. Simples. Uma data para dali a uma semana. Os nomes.

Mathias & Selene.

A imagem de fundo, talvez digitalmente manipulada, mostrava duas silhuetas de costas, de mãos dadas.

Um rugido baixo, animal, escapou-lhe da garganta. Seus dedos cerrados em volta do telefone branquearam os nós. Ele discou o número de volta, cego de fúria.

Omar atendeu na primeira chamada, como se estivesse à espera.

— O que é isso? — a voz de Adon saiu distorcida, rouca, cada palavra lascada de ódio.

— Exatamente o que parece — respondeu Omar, agora sem a cortesia anterior, carregado de uma posse triunfante. — Uma correção de rota. Você a teve, Adon. Mentiu para ela. Casou-se com ela no papel como um colecionador egoísta. E quase a levou à morte. Eu a resgatei. E agora ela fará a escolha racional. Uma aliança limpa, sem o… estigma doente que você impôs a ela. Selene agora pertence a um futuro mais lógico. Pertence a mim.

— Você sabe que Selene é minha! — Adon explodiu, a contenção se rompendo. — Em todos os sentidos que importam! Apenas conte a ela a verdade! Diga que não somos irmãos! Pare com esse jogo nojento! Pare de assustá-la!

O silêncio do outro lado foi intencional. Quando Omar falou novamente, sua voz trazia um desdém glacial.

— E perder minha oportunidade de me juntar aos Felix por bem? Ou por mal? Pense, Adon. Eu tenho a filha perdida de Alex em minhas mãos. A peça de xadrez que ele mais venera e mais teme. É poético, não acha? Ele tomou o que era meu há tantos anos. Agora, estou apenas nivelando o tabuleiro. Estamos de igual para igual. Melhor ainda: eu tenho a rainha. A rainha das duas famílias mais poderosas que já viveram em Monselha. Está na hora de tomar meu lugar.

Adon forçou uma respiração, tentando recuperar o controle da conversa. Do jogo. A raiva era um luxo que ele não podia se permitir.

— Fala como se importasse com o que perdeu, sua paixão doentia pela própria irmã — disse Omar, a voz baixando para um sussurro perigoso. — Como se fosse um homem de honra buscando restituição. Mas nós sabemos a verdade, não sabemos, Adon?

— Toda joia precisa de um ourives paciente — disse Omar, e agora sua voz transbordava uma satisfação profunda e doentia. — E todo plano de vingança precisa da peça central no lugar certo, na hora certa. Alex me roubou algo, e você sabe disso. Mas… por que não pergunta a ele o início de toda essa história? Tudo o que veio antes de Simone. Agora que não posso ter o que quero, tomei o que era dele e o moldei à minha imagem. E, finalmente, vou recolher o que é meu. A anulação e o novo casamento não são apenas negócios, Adon. São uma cerimônia de coroação. A hora de os Felix pagarem a dívida inteira chegou. E a moeda de troca… está usando um vestido de seda e odiando o nome que carrega, graças a você.

— Você… sempre planejou isso…

— Nem tudo saiu exatamente como eu queria. Algumas coisas deram errado — admitiu Omar, com frieza. — Mas, no fim, foi ainda melhor do que eu esperava. Havia um plano para aquela noite na boate. Um erro seu, uma falha moral irreversível, algo que a faria odiá-lo para sempre. Algo que, quando viesse à tona, destruiria você diante de Alex e do mundo. Teria sido perfeito. O filho favorito de Alex arruinado pelo próprio passado, manchando a filha perdida. Ali, Simone seria revelada. E você voltaria ao seu devido lugar.

— Achou mesmo que isso daria certo? — Adon rebateu, a voz carregada de incredulidade. — Que eu seria capaz de algo tão desprezível?

— Por que não? — Omar retrucou. — Seu histórico não inspirava confiança. Ainda assim, você me surpreendeu. Mesmo naquela noite, fora de si, conseguiu manter o controle. Não sei de onde tirou tanta força de vontade.

— Eu devia ter imaginado — murmurou Adon. — Eu sabia que era uma armadilha. Por isso não cedi, nem mesmo naquele estado. Só não sabia que tinha sido você quem havia armado tudo.

— Adon… — a voz de Omar soou quase indulgente. — Eu sei cada passo que você dá. Por que acha que Alex queria tanto te ver casado? Ele sempre esteve observando. Admito que me enganei a seu respeito. Poucos teriam resistido depois daquela garrafa de vinho.

A linha caiu novamente, desta vez com uma finalidade que ecoou como a porta de uma tumba se fechando.

Adon permaneceu imóvel, o telefone mudo apertado com tanta força que a tela rachou sob seus dedos. As luzes dos monitores ao redor pareciam bruxulear, a sala de controle transformando-se em uma câmara de eco de suas próprias falhas catastróficas.

Omar não era apenas um inimigo. Era um arquiteto perverso. Ele não reagia ao jogo dos Felix — ele o escrevera, linha por linha, fogo por fogo, havia mais de uma década. E Selene… Simone… não era uma vítima aleatória apanhada no fogo cruzado.

E Adon, ao esconder a verdade, ao se casar com ela, ao quase levá-la ao abismo, havia sido o melhor aliado involuntário que Omar poderia ter desejado.

Mas tudo o que se passava em sua mente era uma única pergunta:

O que realmente tinha acontecido entre aqueles homens?

O que Alex fizera no passado para dar origem a tudo aquilo?

— O que foi que você fez, afinal, Alex… — murmurou Adon, tenso, vasculhando as próprias memórias.

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