Entrar Via

Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 179

Cap.178

Quando ele saiu da mansão Felix, o ar noturno do jardim estava frio e silencioso, interrompido apenas pelo farfalhar das folhas e pelo som abafado dos passos.

William estava encostado no carro, o rosto iluminado pelo brilho pálido de uma lua escondida por nuvens. Parecia ter esperado por horas; a postura permanecia impecável, mas os olhos refletiam a mesma exaustão que consumia a todos.

Assim que o viu, ele se endireitou.

— E então? — perguntou, dispensando saudações. — O que ele disse?

Ele parou ao lado de William, fitando a escuridão além dos portões. A conversa com Alex ainda ecoava em sua mente, um turbilhão de verdades horríveis que, no fim, não mudavam nada — apenas o faziam desprezar ainda mais o homem que sempre rejeitara como pai.

— Omar está escondendo Selene, mas não para machucá-la. Para legitimá-la. Ele quer forçar o casamento com Mathias antes que ela descubra a verdade completa. Usá-la como um selo de aprovação da realeza criminosa dele.

William franziu a testa, o estrategista jurídico dentro dele já processando as informações.

— Então é só contar a ela a verdade. Desmontar a narrativa dele. Se ela souber quem é, quem ele é, e que você não é irmão dela de verdade…

— Não estamos conseguindo qualquer contato com ela, William — interrompeu, a frustração tornando sua voz áspera. — Ele a isolou completamente. Telefone, internet… tudo deve estar monitorado ou simplesmente não existir. Ele sabe que, para o plano dele dar certo, precisa manter Selene ignorante.

A porta do carro se abriu, e Átila saiu, a silhueta larga emergindo da escuridão do interior do veículo. Devia estar ouvindo tudo; a distração fora tanta que ninguém percebera sua presença.

— Então como você pretende alcançá-la? Telepatia? — a voz grave veio sem ironia, apenas pragmática.

Ele se virou para Átila.

— Selene pode não querer falar comigo. Pode sentir nojo de mim, achando que sou irmão dela, odiar Alex, odiar todos nós. Mas ela não cortaria contato com as amigas. Se há uma coisa que eu sei é que ela sempre avisa a elas quando está bem, para que não fiquem preocupadas. Se existe uma brecha que Omar permitiria — ou não conseguiria bloquear totalmente — seria um contato com elas. Para dizer que está bem.

Átila cruzou os braços, ponderando.

— Você quer usar as meninas como isca?

— Não como isca — corrigiu, firme. — Como aliadas. Elas merecem saber a verdade. Toda a verdade. E, se Selene entrar em contato, elas precisam estar preparadas para passar a mensagem certa.

— Amanhã de manhã é o velório — comentou Átila, o olhar penetrante. — Do policial que elas chamam de tio Arthur e da Madre principal. As meninas devem estar destruídas. É realmente a hora certa?

— É exatamente por isso. Selene vai ficar devastada quando descobrir que a Madre foi morta. E tenho quase certeza de que Omar vai usar isso de alguma forma. Para pintar Alex como o monstro ou para fragilizá-la ainda mais. Precisamos que a verdade chegue até ela primeiro, ou ele vai jogar isso contra os Felix. — Ele olhou diretamente para Átila. — Você e Axel vão até a casa delas. Contem tudo. Sobre quem é Omar. Sobre ele ser o responsável pela morte da Madre e do tio Arthur. Sobre a minha… sobre a nossa verdadeira relação. Não deixem nenhum detalhe de fora. Elas precisam entender a guerra em que estão metidas.

Átila manteve-se imparcial, mas depois assentiu lentamente. Era uma ordem difícil, mas ele compreendia a lógica implacável por trás dela.

— E as meninas? Como vamos garantir que elas vão cooperar? Elas têm todo o direito de nos expulsar pela porta depois de saber a verdade.

— Elas amam Selene — disse ele, com a única certeza em meio ao caos. — Elas vão fazer o que for preciso para tirá-la das garras do homem que matou quem cuidou delas. Confie nelas. E… seja gentil. Só converse.

— Acha que sou um monstro.

— Por mais que Guilhermina merecesse, até hoje ela está traumatizada. Espero que você não tenha ido longe demais…

— Mas que merda, o que você está sugerindo?

Um músculo se moveu na mandíbula de Átila, mas ele não contestou.

Quando a manhã chegou, eles seguiram bem cedo para a casa das amigas de Selene. A atmosfera no pequeno apartamento era de luto. O ar parecia mais pesado, carregado pelo cheiro de café forte e pela dor silenciosa.

Átila bateu suavemente na porta.

Foi Katleia quem abriu.

A visão dela quase fez Átila recuar um passo. Seus olhos, normalmente tão alertas e astutos, estavam vermelhos e inchados, cercados por sombras profundas.

O rosto, sempre pálido, estava lavado por uma tristeza crua. Ela vestia um simples vestido preto, que parecia engolir sua figura franzina. Por trás dela, Gildete estava sentada no sofá, igualmente abatida, e Mima observava de longe, com os próprios olhos vermelhos.

Maju estava encolhida em um canto, parecendo ainda menor e mais assustada.

— Átila — Katleia disse, a voz rouca de tanto chorar.

— Katleia — ele respondeu, a própria voz soando anormalmente suave. Um sentimento estranho e pontiagudo moveu-se em seu peito ao vê-la daquela forma — uma mistura de pena, de uma culpa remota e de algo mais… protetor. Ele abafou o sentimento. — Posso entrar? Precisamos conversar. É sobre Selene.

O nome fez um brilho de esperança imediata acender nos olhos de Katleia. Ela se afastou, permitindo que ele entrasse.

— Tantas coisas ruins… — murmurou, fechando a porta. — Eu sei que vocês não têm nada a ver com… com o que aconteceu com o tio Arthur e a Madre. Mas… por que ainda não a encontraram? Por que não a trazem para casa?

Átila entrou e sentou-se pesadamente em uma cadeira, convidando-as com um gesto para que se sentassem também.

— Nós faremos — Katleia afirmou, a voz firme. — Ela não vai passar por isso sozinha. Vai saber toda a verdade.

Átila assentiu, sentindo um peso sair de seus ombros. Ele se levantou.

— O velório é em uma hora. Vou levá-las. Já está tudo organizado, como eu havia dito. Axel está lá fora com o carro. Vamos nos dividir e seguir até o local.

— Ok… já estamos prontas há algum tempo, só esperando a hora — Katleia avisou, desanimada.

— Vocês duas vêm comigo. É melhor dividir. Vou avisar Axel para que ele leve a Mima e a Maju — anunciou, já sabendo que Mima não respiraria o mesmo ar que ele depois do que aconteceu.

Quando saíram do apartamento, o ar da manhã estava frio e cinzento, combinando com o clima sombrio.

Axel estava encostado no segundo carro, os braços cruzados, um olhar impaciente no rosto.

Átila dirigiu-se a ele.

— Vou levar a Gildete e a Katleia. Você leva a Mima e a Maju.

Axel ergueu uma sobrancelha, o olhar caindo sobre as meninas.

— Por que eu tenho que levar a Maju? — reclamou, o tom áspero. — Ela não é minha obrigação, e ela cabe no seu carro!

A frieza na voz de Átila foi glacial quando respondeu, sem olhar para o irmão, mas com uma autoridade que não admitia discussão:

— Porque ela é sua responsabilidade. Ou quer que eu diga o motivo para todos ouvirem? Entre e espere por elas. Temos um funeral para comparecer… e uma guerra para começar.

A tensão entre os irmãos pairou no ar por um segundo, antes de Axel resmungar algo inaudível e abrir a porta traseira do passageiro com um movimento brusco.

— Onde está ela?

— As meninas disseram que ela ainda está se arrumando. Vou levá-las a um café próximo para comerem algo enquanto esperamos, assim podemos ir todos juntos — respondeu Átila.

Ele observou por um momento, a expressão impenetrável, antes de conduzir Katleia e Gildete até seu próprio carro.

— Aposto que fez de propósito! — Axel resmungou, quando o carro de Átila arrancou.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!