Cap.180
No cemitério, o céu estava da cor de pérola suja, prometendo uma chuva fina que ainda se segurava, como se respeitasse o luto daquela manhã.
O grupo se dispersou entre as sepulturas antigas, cada um carregando seu próprio fardo de dor silenciosa.
Mima estranhou o caminho enquanto seguiam entre as lápides, até parar de repente ao perceber que o túmulo da Madre ficava ao lado, não muito longe da lápide de sua irmã. Ela estava na fileira das vítimas daquele incêndio.
Mima abaixou a cabeça em respeito, as lágrimas brotando. Ela também sabia que fora o grupo Félix, desde o início, quem se responsabilizara pelo enterro de todas as meninas, para que nenhuma fosse sepultada sem identificação.
Ela se mantinha afastada o máximo que conseguia. O medo que havia adquirido de Átila era surreal, vivo na carne.
Átila se aproximou dela, que estava parada diante de uma fileira de lápides mais simples. Mima permanecia imóvel, os braços cruzados, como se tentasse se fazer pequena, observando tudo à distância.
Quando ele se aproximou, ela estremeceu quase imperceptivelmente, baixando os olhos para o chão úmido.
— Mima — a voz de Átila estava mais suave do que o habitual, mas ainda assim fez com que ela se tensionasse. — Preciso te mostrar algo. Além disso, você deveria estar junto das meninas. Vai mesmo ficar com todo esse medo? Me siga! — ele ordenou.
Ela não respondeu. Apenas o seguiu com passos lentos, o olhar fixo nas costas do casaco preto dele.
Ele a conduziu até um lugar que ela conhecia bem. A lápide era de mármore negro, com letras recentemente regravadas.
— Queria te mostrar isso. Além disso, eu não sou tão cruel assim. Não pensei que você ficaria apavorada só por ver alguns corpos sendo fatiados.
Mima parou. Seu queixo começou a tremer. Átila ficou ao lado dela, o perfil sério voltado para a pedra.
— Essa… essa… — ela balbuciou, apontando para a lápide.
— Sinto muito — ele disse, a frase saindo baixa, mas clara. — Por tudo o que aconteceu no passado. Por termos falhado em proteger, em mudar o curso das coisas quando ainda era tempo. Por ter levado tanto tempo para trazer justiça, mesmo que seja apenas essa. Mas… se te consola—
Mima lentamente ergueu a cabeça para encará-lo. Seus olhos, cheios de uma desconfiança antiga e de uma dor fresca, agora mostravam um desespero nu.
Átila não desviou o olhar. Em vez disso, fez um gesto deliberado e lento com a mão, indicando a lápide à frente.
— Olhe.
O olhar de Mima desceu, forçado, relutante. Ela leu o nome de novo. Uma vez. Duas vezes.
O mundo ao seu redor parou de girar. O som dos pássaros, o vento, as vozes abafadas do velório… tudo sumiu.
SELENE JACKSON RIOS
Metade de mim.
Agora descansa em paz.
Um som rouco, quase animal, escapou da garganta de Mima. Ela recuou como se tivesse levado um choque físico, os pés tropeçando na grama molhada.
— Esse… esse é o túmulo da minha irmã? — a pergunta saiu num sopro quebrado, carregado de uma esperança tão dolorosa que parecia rasgá-la por dentro.
— Comprovamos que Simone está viva — Átila confirmou, a voz firme, ancorando aquele momento de vertigem. — O corpo que estava aqui não era o dela. Solicitamos a mudança da lápide para que o nome da sua irmã, da verdadeira Selene, tivesse o lugar de respeito que sempre mereceu. Para que você pudesse se despedir de verdade. Também mantivemos a frase que estava antes. Eu e Axel sabíamos que isso era importante para você.
Mima não conseguiu mais se sustentar. Seus joelhos cederam e ela caiu no chão frio diante da lápide, as mãos indo instintivamente tocar as letras gravadas no mármore.
Seus dedos tremiam violentamente enquanto traçavam o nome.
— Isso… isso era tão importante para mim… — ela gemeu, a voz um rio de lágrimas e anos de culpa mal resolvida. — Ela era tão importante… Eu a amava… e depois ela morreu, e eu nem pude chorar a morte dela de forma digna, num túmulo que eu soubesse que era o dela… mas com outro nome…
Ela se curvou sobre a lápide, abraçando-a como se pudesse abraçar os ossos da irmã de quem nunca teve a chance de se despedir.
Seu choro era silencioso e convulsivo, uma purgação de uma dor enterrada há mais de uma década.
Átila ficou parado, observando. Não se aproximou para confortá-la. Sabia que aquele momento não era dele. Era dela. Da irmã que se perdia e se encontrava ao mesmo tempo.
Ele recuou alguns passos, dando-lhe espaço.
— Bom — murmurou, mais para si mesmo. — Tudo está sendo devolvido ao seu lugar.
Deixou Mima ali, diante do túmulo que finalmente carregava o nome correto, libertando-a das sombras das mentiras que crianças aterrorizadas foram forçadas a carregar.
Enquanto isso, do outro lado do pequeno cemitério, a dor se manifestava de forma mais explosiva.
Diante do caixão simples da Madre, Katleia desmoronou, chamando a atenção de Átila.
Átila não disse nada. Apenas a puxou para um abraço firme, possessivo e protetor.
Dessa vez, ela não resistiu. Seus punhos se fecharam no casaco dele, e o choro que rompeu o silêncio era abafado, carregado de uma solidão tão vasta que parecia ecoar de outra vida.
Enquanto a segurava, Átila sentiu o peso da própria inutilidade. Sabia vencer batalhas e traçar rotas, mas ali, diante de uma dor tão enraizada, suas habilidades eram inúteis.
Como proteger alguém de um inimigo que vive dentro da própria mente? Ele não sabia.
Mas, no fim das contas, a estratégia não era necessária. Apenas o abraço.
A alguns metros de distância, Axel observava a cena com olhos analíticos, uma fissura quase imperceptível em sua fachada de indiferença. Seu olhar, no entanto, desviou-se para Maju.
Ela estava parada ao lado de Mima, que ainda permanecia ajoelhada no túmulo distante.
Maju não chorava alto. Lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto, traçando caminhos brilhantes em sua pele.
Ela observava o sofrimento de Katleia, o abraço de Átila, a dor silenciosa de Gildete, a descoberta devastadora de Mima.
Axel a analisava e via a força quieta naquela postura, a dignidade no vestido simples que ele comprara.
Ela não se encolhia. Não fugia. Enfrentava a dor de frente, mesmo sendo a mais nova.
Ele não se moveu para confortá-la. Não era seu estilo.
Mas permaneceu ali, seu corpo largo e ameaçador formando, inadvertidamente, uma barreira entre ela e o resto do mundo — como se sua simples presença pudesse afastar um pouco do peso daquela manhã terrível.
O céu finalmente cedeu, e a chuva fina começou a cair, misturando-se às lágrimas, lavando as lápides, borrando as linhas entre o passado e o presente.
Naquele cemitério, entre dor e morte, novas sementes eram plantadas para recomeços:
o respeito silencioso de Átila por Katleia,
a curiosidade protetora de Axel por Maju,
e a ausência de Selene, que, naquele momento tão triste, teria sentido ainda mais profundamente tudo o que a Madre representava.

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