Entrar Via

Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 189

Cap.188

Pov Selene.

A alegria que permeava o salão era uma bolha frágil, e Alex Felix, de seu canto sombrio, era a única pessoa consciente de quanto ela poderia estourar.

Seus olhos, velhos de guerras e perdas, seguiam cada movimento de Selene.

Ela brilhava, cercada pelos Bertans, por Adon, por suas amigas. Uma princesa reencontrada e vestida de noiva, finalmente em seu reino.

Mas sempre que seu olhar, por acaso, vagava em sua direção, ela desviava rapidamente.

Um abaixar de cabeça, um virar de ombros, um súbito interesse por algo no copo.

A rejeição era um punhal mais afiado do que qualquer traição de Omar. Ela carregava a mesma ferida profunda que Samilly deixara, só que, desta vez, ele estava vivo para sentir cada corte.

A autoridade dele, que tanto temera, sempre lhe parecera familiar. A dureza de seu olhar, às vezes, não conseguia esconder uma tristeza que ela, criança, não compreendia.

Ela se pegava pensando: Por que ele sempre me observava, mesmo quando me maltratava?

Era como se uma parte dela, enterrada sob o trauma e a mentira, soubesse que aquela atenção carregava o peso de um significado que nem mesmo eles dois tinham entendido antes.

O som da festa era um zumbido distante para Alex. Ele via Adon ao lado dela, respeitoso, contido, e um ciúme amargo, paternal, primitivo, lhe apertava o peito. Aquele era o lugar que deveria ser dele. O lugar do pai.

— Adon… eu vou até a mesa de petiscos e também conversar um pouco com minhas amigas — Selene avisou, e ele a soltou, assentindo, quando um dos Bertans veio em sua direção.

Selene andava entre as mesas ao lado das meninas, que estavam radiantes com a nova notícia e com todas as coisas que estavam acontecendo.

— Você nos deixou tantos dias desesperadas, pensei que não voltaria mais — Gildete comentou.

— Não se preocupem, estou de volta e não vou me afastar de vocês tão cedo, mesmo com essa família recém-descoberta.

— Esses Bertans… eles são bastante peculiares. Será que é fácil lidar com eles? — Katleia comentou, pensativa.

— Não sei… parece que eles e os Felix são como água e vinho. Os Felix vocês já sabem que têm ligações com o submundo, e os Bertans… é praticamente a limpeza da água suja. Soube que são pessoas que têm uma organização especial de forças táticas que trabalham em vários países combatendo o tráfico.

— Pois é… dei uma pesquisada e eles nem mesmo estavam no país. O que será que vai acontecer com Monselha quando eles decidirem agir na cidade? — Gildete disse.

— Com certeza não será ruim. Quantas meninas já morreram por causa do tráfico? Com certeza os Bertans são uma salvação.

— Mas… isso não põe seu pai em maus lençóis? Você não se importa? — Mima perguntou.

— Ele… — ela sorriu de forma amarga. Dessa vez, não via Alex em nenhum lugar, mas sabia que ele estava sempre rondando, sem coragem de se aproximar. — Ele me maltratou o suficiente. Mesmo sendo meu pai, ele errou por sua falta de caráter.

— Ele parece estar bastante arrependido e, como seu pai… quem sabe não receba uma nova chance — Mima sugeriu, comprimindo os lábios de forma compreensiva.

— Bom… não vou pensar nisso agora. Quero conversar com meus avós e saber mais sobre minha mãe.

Ela sorriu para as meninas e, em um breve gesto, recuou.

Selene seguiu até o centro do salão, sobre o grande tapete estendido, e começou a caminhar em direção à área central, onde os Bertans estavam concentrados juntos como uma força indestrutível.

Foi então que as portas do salão se abriram com violência, arrancando a orquestra de seu compasso.

Como ele tinha conseguido chegar ali e entrar?

Todos ficaram tensos, e Selene se virou, encarando a grande entrada.

Mathias entrou. Não o galã calculista, mas um espectro. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, o traje impecável agora amassado, o cabelo despenteado pela ventania da loucura e da dor. Seu olhar varreu o salão com uma intensidade animalesca até encontrar Selene no centro.

— SELENE! — o grito rasgou o ar, um som bruto de agonia.

Todo o burburinho morreu. Os convidados congelaram, taças paradas a meio caminho dos lábios. Os seguranças dos Bertans e os homens de Adon se tensionaram, mas Mathias já estava no raio de ação, movido por uma dor que tornava sua decisão imprevisível.

— Você matou meu pai! — ele gritou, a voz se quebrando. Lágrimas de ódio e desespero escorriam por seu rosto. — Eu te dei tudo! Eu mudei por você! E você… você atirou nele pelas costas! Eu quero que você morra! MORRA JUNTO COM ELE!

Da dobra de seu paletó, ele puxou uma pistola. O movimento foi rápido, alimentado por um impulso suicida. O cano, trêmulo, mas determinado, apontou diretamente para o coração de Selene.

Ela arregalou os olhos. O mundo desacelerou. Viu o dedo dele se contrair no gatilho. Um estampido ensurdecedor preencheu o universo.

Ela fechou os olhos com força, o corpo se encolhendo instintivamente, esperando o impacto, a dor, o fim.

Pensou, mais uma vez, que daquela vez era seu fim.

Ela tinha uns quatro anos, em um jardim ensolarado que não era o orfanato. Um homem alto a levantava no ar, fazendo-a gargalhar. Ele a chamava de “minha pequena princesa”. Seu rosto era mais jovem, menos marcado pela dor, mas os olhos eram os mesmos — os olhos severos e ternos de Alex.

Flash.

Ela estava em um quarto aconchegante, com paredes rosas. Estava doente, febril. A mesma figura sentava-se à beira da cama, passando um pano úmido em sua testa, cantarolando uma canção baixinho. A voz era grave, desengonçada, mas cheia de uma preocupação palpável.

Flash.

Um dia chuvoso. Ela, um pouco mais velha, chorava porque sua mãe, Samilly, estava triste. Alex a pegou no colo, encostando sua cabecinha contra o peito.

— Sua mãe e você são meu mundo, entende? — sussurrou ele, o queixo repousando em seus cabelos. — Nunca amei ninguém como amo vocês duas.

Flash.

O dia nebuloso e horrível da partida. Ela, confusa, com uma pequena mala. Samilly não estava mais, e sua mente estava entorpecida. Alex estava ajoelhado diante dela, os olhos vermelhos, o rosto uma máscara de agonia.

Ele a abraçou com tanta força que doía, o corpo tremendo.

— Papai te ama, Simone — chorou, a voz um fio quebrado. — Nunca, nunca quis que você ficasse sozinha. Não era assim que eu sonhava você crescendo… comigo ao seu lado, protegendo você. Eu vou te trazer de volta. Eu juro. Não importa o que custe. Só trate de crescer segura.

As sombras escondidas no orfanato. O homem que a observava à distância, sem se revelar. O visitante silencioso que ela sentia, mas não via. A sensação de estar sendo vigiada com carinho.

O amor que precedeu o ódio. A proteção que foi distorcida pela tragédia e pela necessidade de mantê-la escondida e viva. Naquela época, a imagem de seu pai havia se tornado um borrão, uma memória falha.

Na ambulância, os sons eram abafados. As luzes piscavam, iluminando fragmentos: o rosto pálido de Adon segurando a mão de Alex, os profissionais de saúde trabalhando freneticamente. Selene havia desmaiado, mas permanecia consciente no limiar, vendo os flashes misturados ao sorriso de Alex no salão.

Cada memória era uma facada de culpa e uma revelação avassaladora, fazendo-a colapsar. Ela também estava sendo levada ao hospital.

Enquanto isso, no palácio, o caos era contido com eficiência. Mathias, imobilizado no chão, ainda soluçando de raiva e desespero, foi algemado pelos homens dos Bertans.

Seus gritos de “Ela matou ele! Ela é uma assassina!” ecoaram no salão vazio até que uma porta se fechou, silenciando-o. Sua queda, de herdeiro ambicioso a homem quebrado, não se deu apenas pelas leis dos homens, mas pelo fantasma do pai que falhara e pela mulher que nunca seria sua.

A festa de reconciliação terminara em tragédia. O preço para salvar a princesa não foi pago pelo príncipe, mas pelo rei.

E enquanto a ambulância corria contra o tempo, levando um homem e a consciência devastada de uma filha, Selene se lembrava de cada momento marcante que vivera com Alex.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!