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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 311

Cap.118

O covil estava irreconhecível.

As jaulas de aço ainda estavam lá, as fileiras e fileiras de celas que antes guardavam homens encolhidos, gemidos, desespero. Mas agora, dentro delas, não havia mais prisioneiros.

Havia cães.

Cachorros abandonados de todas as espécies e tamanhos. Vira-latas caramelo, labradores de pelos desgrenhados, pastor alemão mancando, pinscher tremendo no canto. Cada jaula continha um ou dois animais, com tigelas de água e ração, cobertores limpos, brinquedos de borracha.

O chão, que antes era manchado de sangue, estava limpo, tão limpo que refletia a luz das lâmpadas novas no teto.

As paredes, antes cobertas de mofo e manchas escuras, haviam sido pintadas de branco. O cheiro de desinfetante misturado a pelo de cachorro preenchia o ar e também de tinta. Como se realmente o lugar tivesse sido recentemente pintado.

— O que... — Axel começou, a voz falhando.

Adon caminhou devagar pelo corredor central, os olhos percorrendo cada jaula, cada animal. Alguns se aproximaram das grades, abanando o rabo.

— O que aconteceu aqui? — Adon sussurrou, mais para si mesmo do que para Axel.

No fundo do salão, um homem apareceu.

Não era um dos soldados de elite de Átila. Usava um jaleco branco, óculos de grau, e carregava uma prancheta na mão. Seu rosto era comum, quase anônimo, mas seus olhos eram vivos, inteligentes, avaliadores.

— Senhor Felix? — o homem disse, com um aceno de cabeça. — o que devo a visita?

Adon parou, a mão ainda na arma.

— Quem é você? Onde estão os homens do Átila?

— Meu nome não importa — o homem respondeu, com um sorriso calmo. — E os homens do senhor Átila... não estão mais aqui. Foram realocados. O senhor Átila encerrou as atividades neste local e o que funciona agora... bom... vocês já estão vendo.

— Encerrou? — Axel repetiu, incrédulo. — Ele simplesmente... fechou o covil? Fácil assim?

— Exatamente. — O homem de jaleco fez um gesto com a mão, abarcando o salão transformado. — Recebemos uma doação generosa do senhor Átila para transformar este espaço em um abrigo temporário para animais abandonados. Estamos aqui desde ontem, tudo foi feito como o planejado, com a ajuda de todos os soldados. A limpeza foi intensa, como pode ver.

Adon olhou ao redor, atordoado. As jaulas. Os cachorros. A pintura nova. O cheiro de limpeza.

— Ele limpou tudo — murmurou. — Ele sabia que os Bertans iam descobrir.

— O senhor Átila é um homem prevenido, eu não sou um de seus soldados, mas trabalhamos juntos mesmo que em coisas distintas. — o homem de jaleco disse, com um sorriso enigmático. — Ele nos pediu para mantermos o local impecável. Caso alguém... indesejado... aparecesse para fazer uma visita.

Axel soltou uma risada curta, incrédula.

— Então a gente veio para cá pronto para uma guerra... e vamos encontrar cachorros abandonados?

— Aparentemente, sim.

— Isso está acima do meu senso de moral — Axel continuou, balançando a cabeça. — Eu não queria matar homens, e encontro cachorros. E agora tô aqui, armado até os dentes, cercado de vira-latas. Que merda, mas também... que alivio, céus...

Adon ignorou o irmão. Continuava andando pelo salão, os olhos fixos em cada detalhe. As jaulas estavam limpas. Os animais pareciam saudáveis. As tigelas de água estavam cheias.

No fundo do salão, onde antes ficava o mostruário, onde a Ceifadora repousava em seu pedestal, agora havia uma placa de madeira pintada à mão:

"Abrigo São Francisco, Animais Resgatados"

— Ele enterrou a espada — Adon murmurou, atônito. — E plantou flores no lugar?

— Não exatamente flores — o homem de jaleco corrigiu. — Cachorros. Mas a metáfora é bonita.

Adon parou no meio do salão, dando voltas e mais voltas, quase ficando tonto. As jaulas. Os animais. As luzes. O cheiro de limpeza. Nada fazia sentido, mas ao mesmo tempo, tudo fazia.

— Ele nos avisou — disse adon, finalmente. — "Em breve teremos boas notícias, mas isso aqui é demais... não é?

Axel se aproximou, a arma já guardada.

— O desgraçado limpou tudo. Evaporou as provas. Deu um belo de um perdido nos Bertans de novo, isso não vai dá merda?

— Ele não deu um perdido — Adon respondeu, com um sorriso amargo. — Ele jogou xadrez. E estava vários moventes à frente, eu nunca quis dizer isso, mas... eu teria medo e orgulho se fosse ele que tivesse prestes a virar o don.

— Pois é... mas o cara so é bom em limpar a sua própria bagunça, afinal... aquela cabeça transtonada sempre pensa no plano a, b, c e D se for nescessario.

Os dois irmãos ficaram ali, no meio do abrigo de animais, cercados por latidos e cheiro de cachorro, enquanto o sol da manhã entrava pelas janelas limpas.

Lá fora, na estrada, os Bertans ainda se aproximavam.

Adon ainda estava digerindo a informação.

O cheiro de cachorro, o latido distante, o jaleco branco do desconhecido que administrava o abrigo.

O covil que deveria ser o fim dos Felix havia se transformado em uma cena de pureza quase ridícula.

Foi quando as portas se abriram com violência.

— POLÍCIA! NINGUÉM SE MEXA!

Dezenas de agentes invadiram o espaço, armas erguidas, olhos percorrendo o ambiente em busca de sangue, tortura, corpos, tudo o que os Bertans lhes haviam dito que encontrariam.

Os cães se assustaram, alguns latindo, outros se encolhendo no fundo das jaulas.

Adon ergueu as mãos lentamente, sem pressa. Axel fez o mesmo ao seu lado, ainda segurando a arma, que ele deixou cair no chão com um baque seco.

— Vamos com calma, senhores — Adon disse, a voz calma. — Isto é um abrigo de animais. Não há nada de ilegal aqui.

Os policiais pararam.

Um a um, as armas foram baixando. Eles olhavam ao redor, confusos. Agentes federais, investigadores da corregedoria, até alguns homens da Interpol que os Bertans haviam mobilizado para a grande descoberta.

Em vez de câmaras de tortura, viram tigelas de água. Em vez de corpos pendurados por correntes, viram cobertores limpos e brinquedos de borracha. Em vez de sangue nas paredes, viram uma placa pintada à mão: "Abrigo São Francisco, Animais Resgatados, quadros de bichos e brinquedos.

O delegado que liderava a operação era um homem de meia-idade, barba grisalha, olhar cansado. Ele guardou a arma e se aproximou de Adon.

— Senhor Felix. Recebemos uma denúncia anônima de que este local abrigava atividades criminosas, tortura, cárcere privado, execuções.

Adon arqueou uma sobrancelha, semicerrando os olhos.

— Uma denúncia anônima? E o senhor invadiu um local com uma equipe desse porte baseado em uma denúncia anônima? Nem mesmo investigou?

O delegado desconversou, os olhos passeando pelo ambiente.

— O senhor poderia explicar o que está acontecendo aqui?

— É um canil — Adon respondeu, com uma naturalidade que surpreendeu até Axel. — Um abrigo para animais abandonados. Meu irmão, Átila Felix, sempre teve um... fascínio por causas sociais. Especialmente as que envolvem animais.

— Fascínio? — um repórter surgiu do meio dos policiais, gravador na mão, olhos brilhando. — O senhor poderia elaborar?

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