ALEXANDER HAMPTON
Eu gostaria de deixar registrado, para a posteridade e para qualquer advogado que esteja ouvindo caso eu venha a falecer nas próximas horas, que eu amo a minha esposa. Eu a amo com uma intensidade que desafia a lógica, a razão e, aparentemente, o instinto básico de autopreservação.
Porque não existe outra explicação plausível para eu estar aqui.
Paris parecia um delírio febril distante agora. Aqui, a realidade era feita de poeira. Muita poeira. Poeira que entrava no nariz, na boca, nos olhos e se instalava nos pulmões, que já estavam trabalhando com 50% da capacidade devido à altitude ridícula.
Estamos no quilômetro dez, ou talvez seja o mil, perdi a noção do tempo e do espaço, mas estamos no primeiro dia da Trilha Inca.
Parei, apoiando as mãos nos joelhos, tentando puxar o ar que simplesmente não existia. Meus pulmões queimavam como se eu tivesse engolido brasas. O coração batia nos ouvidos, um tambor frenético gritando: "O que você está fazendo, seu idiota? Volte para o ar-condicionado!".
— "Inca Flat". — resmunguei para uma pedra no chão. — Eles disseram que o primeiro dia era "Inca Flat".
"Inca Flat", como descobri dolorosamente nas últimas quatro horas, é um termo sádico inventado pelos guias locais que significa: "Sobe por duas horas, desce por dez minutos para destruir seus joelhos, e depois sobe de novo até você ver Jesus ou Pachamama".
Levantei a cabeça, o suor escorreu pelas minhas têmporas e pingou no chão de terra batida.
À minha frente, cerca de vinte metros adiante, estava Elizabeth.
Minha esposa. A mulher louca que planejou isso.
Ela usava calças de trekking que modelavam perfeitamente suas pernas, a única visão agradável neste inferno, uma camiseta dry-fit e um chapéu de exploradora que a deixava irritantemente adorável. Ela tinha bastões de caminhada nas mãos e parecia uma cabra montesa saltitante.
Ela parou e se virou, percebendo que seu marido estava agora sendo derrotado por uma subida de cascalho.
— Alex?! — Ela gritou, a voz ecoando no vale do rio Urubamba. — Tudo bem aí, amor?
Fiz um sinal de positivo com o polegar, que provavelmente parecia mais um pedido de socorro tremulo.
— Ótimo! — Gritei de volta, minha voz saindo como um chiado asmático. — Só estou... admirando a geologia! Pedras fascinantes!
Endireitei o corpo, sentindo a mochila de dez quilos cravar nos meus ombros.
Olhei para o nosso guia, um homem baixo e robusto chamado Raul, que mastigava folhas de coca com a tranquilidade de quem está passeando no shopping, enquanto eu lutava pela vida. Ele sorriu para mim.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!